“A minha ambição é criar o maior grupo de comunicação português”, diz Bruno Batista

Assumindo-se como empresário, e pretendendo focar-se na gestão e não nas operações, Bruno Batista afirma ter como ambição "criar o maior grupo de comunicação português".

Bruno Batista, hoje com 40 anos, abriu a primeira empresa, a agência de eventos WMK, há 14 anos. Em 2019 comprou a GCI, consultora de comunicação com cerca de 20 anos mas a atravessar uma grave crise financeira. Um ano depois, não tinha nenhum dos clientes que ganhou ao ficar com a marca – entretanto conquistou outros –, mas tornou-se conhecido no mercado da comunicação e abriu mercado para a agência de eventos.

A estratégia já era esta, a WMK, empresa que tinha de eventos, trabalhar para a carteira de clientes que íamos conseguir com a comunicação. E funcionou, espero que funcione também com a produtora“, diz, no mês em que comprou uma nova agência de comunicação, a Media Consulting, e uma produtora, a Sonomage, operação estimada em milhão e meio de euros. A estas juntam-se a Sustainable Social Iniciative, focada em sustentabilidade, a Tek, para o digital. Assume que quer “criar o maior grupo de comunicação português”, toma como exemplo as multinacionais do setor da comunicação.

“Era só um miúdo cheio de vontade. Acho que ainda é um bocadinho isso. Continuo a acreditar que consigo convencer pessoas que eu vou ser capaz de fazer alguma coisa”, diz, olhando para o seu percurso. Os fee de comunicação, admite, ainda não pagam as contas do grupo, que até agora vivia sobretudo da receita gerada pelos eventos.

Diz que a sua ambição é, assumidamente, “criar o maior grupo de comunicação português”….

Sim, é criar o maior grupo de comunicação português. Porque é que falo tantas vezes no capital 100% português? Sou o único sócio e sou português, não há aqui outro capital, e é porque tenho outros exemplos em Portugal, bons, de multinacionais, que são bem geridas e essas ganham dinheiro. E infelizmente já vi vários grupos portugueses que crescem muito e depois não se conseguem manter.

Não gosto mesmo de falar dos outros, pode-me acontecer a mim e às vezes o líder pode não ter a responsabilidade toda daquilo que acontece, mas na verdade acho que a maioria está demasiado focada nas operações, porque gostam muito daquilo, e depois não conseguem ter a visão empresarial. A Havas, as WPP’s têm modelos de gestão profissionais, eles podiam estar a vender publicidade, comunicação, spots, espaço em televisão ou podiam estar a vender arroz e batatas que iam ser bons a fazer aquilo. Focam-se naquilo que tem que ser a essência de todas as empresas, que é gerar valor aos seus acionistas e conseguir cumprir com todos os stakeholders.

Bruno Batista, CEO da GCI, em entrevista ao ECO - 24AGO22
Bruno Batista, CEO da GCI, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Tinha a agência de eventos WMK e comprou a marca GCI em março de 2019. Qual o balanço?

Tínhamos a operação há um ano quando entramos em pandemia, já quase tinha esquecido o pânico que senti. Felizmente correu bem, graças ao Virtual Arena. A grande diferença que senti, até por apresentar o nosso projeto e também por dizer humildemente que não íamos ficar a dever nada a ninguém, é que passaram a respeitar-nos um bocadinho mais, passaram a contar com a GCI e eu passei a receber convites para ir a concurso.

Para alguém, um miúdo como eu, que com 20 e poucos anos abriu a sua empresa sozinho com um computador num cowork e começou a fazer umas coisas, hoje estamos aqui 50 pessoas… É uma grande diferença e dá-nos uma grande confiança para acreditar que é possível. Sempre disse que estávamos a comprar um rótulo.

Há momentos que não se esquecem, faturámos em janeiro de 2020, 250 mil euros, em fevereiro já tivemos desistência, fizemos 150 mil, e em março 40 mil. Em abril, já não me lembro, mas foi assim só em julho que o Virtual Arena começou a faturar e começámos a dar a volta.

Disse na altura que estavam a comprar uma marca, pessoas e clientes.

Sim, produto já tinha, tinha noção do que fazíamos na WMK. Ainda hoje não vivemos dos fee mensais de comunicação, não pagam o nosso investimento. Não pagam o nosso custo mensal, porque eu continuo a achar, e os números dão-me razão, que tenho que ter mais estrutura do que os clientes que temos, para ter capacidade de resposta àquilo que aparece.

Os eventos sempre viveram assim e são os eventos que nos dão dinheiro ao fim do ano. Se tivesse a estrutura a pensar só nas contas comunicação, ela estava ali balanceada com xis clientes, xis accounts e xis design. Nós estamos sempre com mais estrutura e felizmente estamos sempre a recrutar pessoas, este mês entraram mais duas. Conseguimos ter folga para nos dedicarmos aos concursos e para apresentar um bom produto capaz de ganhar.

Concursos sobretudo de eventos?

E de comunicação também.

“A grande mais-valia está no agregar de várias marcas de comunicação, fortes e reconhecidas pelas suas provas e pessoas, num portefólio que conseguirá responder aos mais diversos desafios colocados pelo mercado”, disse quando comprou a Media Consulting e a Sonomage. Neste momento tem três consultoras de comunicação, uma agência de eventos e uma produtora.

A Sustainable Social Iniciative só está focada em projetos de sustentabilidade e de marketing ambiental. Para dizer a verdade, é uma área difícil. Aquela empresa era a cara do Zé Manuel Costa (fundador e anterior proprietário, entretanto falecido) e tem sido difícil para mim, muito mais do que na área da comunicação, aproveitar os recursos que ali temos. E é uma área que durante a pandemia deixou de existir.

Espero que 2023 seja o ano em que vamos fazer alguma coisa, que poderá passar por criar ou associar-nos a alguém para fazer uns prémios e voltarmos a dar visibilidade a essa área, na qual assumimos que ainda não conseguimos captar novos clientes. É algo que vai ter que mexer. Portanto, são duas agências, a Media Consulting e a GCI, que estão no mesmo território. A Sustainable tem o seu território muito bem definido.

Então, GCI e Media Consulting. O que é que vai ser uma e outra?

Para já vão continuar iguais. Cada uma tem os seus clientes, as suas estruturas e estão a funcionar. Se me perguntar se faz sentido daqui a cinco anos terem o mesmo posicionamento, se calhar não faz muito. Provavelmente uma vai ter que assumir uma área mais corporativa e outra mais de produto. É uma coisa que poderá vir a acontecer no futuro, até porque também é o que temos nas equipas. É um caminho a fazer.

Quanto é que faturava a Media Consulting?

Cerca de 1,4 milhões e este ano vai crescer para 1,5 milhões.

E a GCI?

Agregado, 1,8 milhões.

São cerca de 50 pessoas. Quantos é que entraram?

A GCI, grupo, tinha 30 pessoas e a Media Consulting e a Sonomage cerca de 20. Agora já seremos um bocado mais, entraram duas agora e vão entrar mais duas pessoas por estes dias. Duas pessoas vão reforçar a equipa de eventos e outras duas a equipa de digital.

Da GCI, quando a comprou em 2019, ficou com cerca de 10 pessoas.

Sim. E ainda estão algumas pessoas.

Quantas?

Três pessoas.

E clientes?

Clientes nenhum.

Porquê? Qual é a explicação?

Não havia assim tantos clientes. Podem ter vindo cinco clientes da GCI. O que havia era um grande desgaste com a marca.

Ou seja, há três anos comprou uma marca, clientes e pessoas…

E para aí há dois anos que não tenho os clientes. E se não fosse os eventos não pagávamos as contas. Os eventos e o dinheiro que a WMK já gerava. Acho que a GCI tinha clientes fidelizados há muitos anos. Nesta área, os clientes, e bem, exigem novidade. Julgo que não perdemos nenhum cliente por mau serviço prestado, os clientes que perdemos é a rotação natural que existe nesta área. Mas ganhámos outros.

Faturavam, em 2019, 800 a 900 mil euros e o objetivo, também com a compra da GCI, era chegar ao milhão e meio nesse ano.

Em 2019 ficamos lá perto. Em 2020, 21 e 22 ultrapassamos.

Bruno Batista, CEO da GCI, em entrevista ao ECO - 24AGO22
Bruno Batista, CEO da GCI, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Em anos de pandemia…

Sim, atípico. Mas temos que pôr sempre aqui os eventos. Mas a estratégia já era esta, a WMK, empresa que tinha de eventos, trabalhar para a carteira de clientes que íamos conseguir com a comunicação. E funcionou, espero que funcione também com a produtora.

A operação já está paga? O objetivo era ser em dois anos.

Sim, antes do tempo.

A Virtual Arena, com a produção de eventos digitais, foi um balão de oxigénio durante a pandemia.

Um balão de ouro. Para ser honesto, perdemos contas de comunicação durante a pandemia. No primeiro e segundo mês tivemos muitos clientes a cancelar fees e a passá-los para metade. Foi o momento mais difícil da minha vida de empresário, cheguei a falar com duas pessoas para dizer que se calhar ia ter que despedir. Há momentos que não se esquecem, faturámos em janeiro de 2020, 250 mil euros, em fevereiro já tivemos desistência, fizemos 150 mil, e em março 40 mil. Em abril, já não me lembro, mas foi assim. Só em julho que o Virtual Arena começou a faturar e começámos a dar a volta.

E como empresário, fiz as contas. Quanto é que temos amealhado e quanto tempo é que conseguimos aguentar? E tive que escolher, com o pior dos critérios, que é quais são os mais baratos de despedir, para ter dinheiro para mais tempo. Lembro-me de ter esta conversa numa sexta-feira com duas pessoas. Dizer-lhes “não te estou a mandar embora, já. Mas daqui a um mês isto pode ter que acontecer”. Passei um fim-de-semana péssimo e na segunda-feira liguei-lhes e disse “esquece a conversa, vais ficar” e também “acredito no Virtual Arena, quero a equipa toda disponível”. Acabámos o ano de 2020 com crescimento, a recrutar pessoas e a faturar mais.

Dizia em 2019 que os lucros oscilavam entre os 80 e 90 mil euros. As empresas têm dado margem todos estes anos?

Sim. Os resultados não sobem muito, chegaram talvez aos 150 mil euros, porque temos reinvestido sempre.

Agora o break-even está previsto a quantos anos?

No meu plano de negócio estão cinco anos, contando com um crescimento residual de 3 a 4%. Sou muito conservador com o dinheiro.

Como é que está o setor dos eventos este ano, após dois anos de pandemia?

Em forte recuperação, as empresas estão confiantes para fazer coisas, o que é bom. Perdeu-se o medo, e bem, de reunir gente. A conversa do covid acabou. Acho que os eventos voltaram, os festivais voltaram em força, as marcas mostraram que estavam ao lado da cultura, que estavam ao lado do seu consumidor e que continuavam a apostar naqueles meios para cumprir os seus objetivos de comunicação. E espero que continue dessa forma. Não há como voltar para trás. Esta crise é completamente acima de um motivo chamado crise energética e guerra. E espero que não afete economia, como se fala.

Quando se fala em taxar mais quem ganha mais, falem em dar benefícios fiscais àqueles que distribuem pela sua empresa, que reinvestem o dinheiro que ganham. Eu recuso a conversa que vem aí uma crise. Tenho 40 anos, vivi sempre em crise.

Estamos com uma inflação de 9,1%, o índice de confiança dos consumidores não é animador…

É uma questão de mensagem e as marcas têm que cumprir o seu papel e têm-no cumprido. E os políticos têm que cumprir o seu papel. Eu gosto muito de olhar para o lado positivo, que é trabalhando dá sempre. Vem aí uma inflação alta? Vem. Mas isso também vai obrigar, por exemplo, a uma subida das pensões. E o que é certo é que temos de perceber todos que só conseguimos crescer se pagarmos mais. Precisávamos até de um abanão, temos que pagar melhores salários. Isto só se faz com uma subida generalizada de preços.

Portanto, se os empresários não forem ambiciosos… Temos empresas que estão com mais lucros, fruto desta inflação. Em vez de irmos já procurar taxar aquelas empresas que estão a ter mais lucros, vamos ter um sistema fiscal que me permita pagar mais às pessoas sem que vá para impostos. Acontece-me querer aumentar pessoas que eu acho que estão a ganhar pouco e dos recursos humanos dizem-me “70% desse valor, porque subiu de escalão, não vai receber”. Isto é muito triste, é quase ter que dizer “então aumenta menos, para não ir tudo para impostos”.

É escandaloso o nível da carga fiscal que temos neste país. E, portanto, quando se fala em taxar mais quem ganha mais, falem em dar benefícios fiscais àqueles que distribuem pela sua empresa, que reinvestem o dinheiro que ganham. Eu recuso a conversa que vem aí uma crise. Tenho 40 anos, vivi sempre em crise.

A agência WMK já tem cerca de 15 anos, mas tornou-se conhecido, no setor da comunicação, quando em 2019 comprou a GCI, uma consultora com mais de 20 anos mas que atravessava graves dificuldades. Quem é Bruno Batista?

Venho de uma família de classe média, normalíssima, alentejana. Não sou licenciado, fui para a universidade, mudei para Jornalismo, já trabalhava e estava em Jornalismo quando surgiu a oportunidade de ir para a Delta, tinha 20 anos. Nunca acabei curso, sentia que estavam a formar carneirinhos e eu não queria ser um carneirinho.

Tinha 26 anos quando abri a WMK. Achei que era o momento, tinha que ser antes de chegar aos 30. O mais difícil não é começar. Não temos histórico nenhum, tudo é crescimento. És barato, porque não tens estrutura nenhuma. Comecei numa sala de cowork, onde pagava 200 horas de renda, não tinha cobradores, não pagava ordenados, era tudo líquido. O difícil é, dez ou 15 anos depois, continuar. Ter uma estrutura de 50 pessoas e continuar a pagar a tempo e horas e ainda ganhar algum, que é o objetivo de qualquer empresa.

As coisas vão acontecendo, não se aprende a ser empresário. Hoje não acredito em como é que algumas marcas naquela altura me confiaram projetos, era só um miúdo cheio de vontade. Acho que ainda é um bocadinho isso. Continuo a acreditar que consigo convencer pessoas que eu vou ser capaz de fazer alguma coisa, que acho que ainda não fiz, mas continuo a ter essa ambição de continuar a fazer. E acho que a minha única função é conseguir ser líder para estas 50 pessoas. Isto começa com ser boa pessoa. É aquilo em que me tento focar todos os dias. E não olhar só para o umbigo. Eu adoro trabalhar com pessoas melhores do que eu, felizmente tenho ali muita gente muito melhor do que eu. Se não fosse assim não crescia. Se achasse que eu é que sei fazer tudo, isto já tinha acabado há muito tempo.

Na área da comunicação pura e dura não tenho pares com quem me relacione. Nos eventos cria-se um espírito muito giro. Por exemplo, dentro de um festival, espírito é que todos temos que estar bem, se estiveres com uma luz fundida, o evento não vai estar tão bom. Não sei se na assessoria de imprensa existe este espírito.

Como é que acha que os seus pares olham para si? Já deve ter ouvido dizer “é um outsider“….

Uma vez fomos cortados num concurso porque os outros colegas disseram que eu era um testa-de-ferro de alguém e portanto não iam a concurso contra mim. Na área de eventos tenho muitos amigos, donos de agências. Gente com quem me dou muito bem e que nos respeitamos, gente que admiro e de quem sou amigo. Na área da comunicação não tanto, mas por isso é que temos ali a Tânia Tadeu (diretora da GCI), temos o André Gerson (diretor da Media Consulting).

Eu vou passar a só falar de mercado e do grupo, cada uma das agências tem os seus speakers e os seus talentos. Mas não sei, sinceramente, porque na área da comunicação pura e dura não tenho pares com quem me relacione. Nos eventos cria-se um espírito muito giro. Por exemplo, dentro de um festival, todos somos parte do evento. O espírito é que todos temos que estar bem, se estiveres com uma luz fundida, o evento não vai estar tão bom. Não sei se na assessoria de imprensa existe este espírito.

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