“Os jornalistas ficarem com a Visão é a nossa força”
As motivações para comprar a Visão e a relevância de se manter com os jornalistas, o plano de negócios e potencial de crescimento, em entrevista a Rui Tavares Guedes, diretor da newsmagazine.
A vida não se reduz a vídeos de 30 segundos, existe espaço para a leitura mais pausada, para textos que ajudem a refletir e a “abrir um bocadinho a cabeça”. E há leitores, dispostos a pagar, para aceder a estes conteúdos. Em simultâneo, há uma redação de 12 jornalistas, todos seniores, dispostos a lutar para manter a Visão, título que vão tentar comprar em leilão. Não sabem exatamente quando, por quanto ou se vão conseguir. Mas, sem espaço físico, sem empresa e com parte dos ordenados ainda em atraso, têm feito a Visão chegar todas as semanas às bancas.
No início do mês lançaram uma ação de crowdfunding para angariar 200 mil euros, montante que à partida lhes permitirá comprar a revista e fazer algum investimento inicial. Uma semana depois, o apelo #nãofechemosolhos dá-lhes uma garantia: “a Visão é muito a redação que a faz“. “Se alguém quiser comprar a Visão, tem que falar com a redação“, diz em entrevista ao +M Rui Tavares Guedes, diretor do título.
“No jornalismo, o importante são as pessoas. Estamos aqui num estúdio — é importante ter um estúdio – e é fundamental ter computadores, e essas coisas todas,… mas, a diferença, são os jornalistas. Não é a maquinaria, não é aquelas coisas que se compram feitas. É o nosso empenho, a nossa inteligência, os nossos conhecimentos, as nossas fontes. Isso é que é a riqueza do jornalismo e é a riqueza de qualquer publicação. E a riqueza da Visão é um pouco essa”, acredita o diretor da newsmagazine. E, é por existir convicção, que os 12 jornalistas acreditam que “o coração da revista deve manter-se na sua redação”. Ou seja, o projeto terá mais futuro, e terá futuro, se continuar a ser feito por esta equipa, também na posição de proprietária do título. “Estamos a tentar lutar pela Visão, não é a tentar salvar o nosso emprego, é a tentar salvar um tipo de jornalismo, uma publicação de referência, que achamos que faz falta”.
As motivações para comprar a Visão e a relevância de o título se manter com os jornalistas, o apoio dos leitores, o plano de negócios, os objetivos e potencial de crescimento, os entraves da distribuição — seja no papel ou no digital — ou os caminhos da comunicação social e do jornalismo são alguns dos temas abordados e aos quais pode assistir em vídeo.
Lançaram no dia 8 deste mês o Movimento pela Imprensa Livre (MIL), uma ação de crowdfunding cujo mote é “Não Fechem os Olhos” e tem como objetivo angariar 200 mil euros para que os 12 jornalistas que atualmente fazem a Visão fiquem com o título. Estamos a gravar dia 14, neste momento têm 104 mil euros, mais de 50% do objetivo. Quais eram as expectativas?
Atingimos os 100 mil euros, metade do objetivo, ao fim de menos de seis dias. As expectativas eram variáveis. Havia quem achasse que era uma loucura pedir 200 mil euros, havia quem achasse que não se ia conseguir e havia quem acreditasse. Todo este processo, a forma como temos estado a fazer a Visão nos últimos meses, tem sido sempre um processo um bocado de tiros no desconhecido, estivemos muitas semanas sem saber se conseguíamos fazer a revista na edição seguinte. Este foi mais um passo, mas alicerçado na convicção de que a Visão tem uma comunidade de leitores exigente, muito interessada, muito participada e que há muito tempo nos começou a desafiar, a perguntar porque não avançamos para um crowdfunding e a perguntar o que pode fazer para ajudar.
Foi assim que surgiu este movimento? Sugestão dos leitores?
Foi. Sugestão dos leitores, muito, e de pessoas que colaboram connosco e que nos têm estado a ajudar. Somos 12 a fazer a revista, somos muito poucos, mas conhecemo-nos há muito tempo e trabalhamos há muito tempo e, portanto, temos aqui uma maneira de fazer isto, que vai disfarçando algumas das debilidades normais que nós notamos.
Não temos aquelas coisas que nos costumam dar conforto, mas, em contrapartida, sabemos fazer a revista com alguma agilidade.
Doze jornalistas seniores e que conhecem bem a Visão.
Sim, alguns estão desde fundação da Visão. Somos experientes, conhecemo-nos bem, estamos a trabalhar desde 1 de agosto em teletrabalho, cada um em sua casa, sem logística, sem aquelas coisas normais. Nós é que fazemos de estafetas quando é preciso, nós é que vamos resolver problemas com o servidor das assinaturas ou com o servidor das newsletters. Não temos um helpdesk, não temos aquelas coisas que nos costumam dar conforto, mas, em contrapartida, sabemos fazer a revista com alguma agilidade.
Sabem fazer jornalismo e sabem fazer a revista.
Exatamente. E é isso que nos tem impulsionado. Mas, à nossa volta, também temos tido pessoas que nos ajudam. Pessoas que nos ajudam pro bono. Temos duas pessoas fundamentais nas partes jurídicas — Ricardo Sá Fernandes e o José Bracinha Vieira — e depois, na conceção desta campanha, tivemos uma agência de publicidade, a FunnyHow, que ficou entusiasmada quando contámos a nossa história. O slogan “Não fechem os olhos” é deles, foi daquelas ideias que, quando nos apresentaram, dissemos “é isto mesmo“. Desde o início, temos estado a tentar lutar pela Visão, não é a tentar salvar o nosso emprego, é tentar salvar um tipo de jornalismo, uma publicação de referência, que achamos que faz falta.

Fazendo uma das seis perguntas clássicas do jornalismo… porquê? A Visão faz falta porquê?
Para já, porque há uma comunidade de leitores, de milhares de leitores, que nos dizem que precisam de nós e que precisam da nossa forma de olhar para o mundo e para o país. Depois, porque é um espaço, em termos jornalísticos, de liberdade, rigoroso, independente, pluralista por convicção e com uma história que inspira confiança. E é um local onde, se não temos a certeza de uma coisa, não a publicamos, preferimos não dar a notícia do que dar uma notícia errada. Depois, acho que a Visão faz falta, principalmente nos tempos de hoje, em que estamos muito inundados de informação permanente, rápida, quase toda formatada da mesma maneira, com notícias muito repetitivas…
Dizem, no statement que acompanhou o lançamento do movimento, que não vão atrás da espuma dos dias nem do algoritmo.
Exatamente, tentamos não ir. E tentamos abordar alguns temas que estão às vezes na cabeça das pessoas, mas não estão na agenda mediática. Temos que nos distinguir, não é? A nossa mais-valia é distinguirmo-nos por algo, não é estar a repetir aquilo que todos os outros fazem. Para isso, há outros que fazem melhor e nós não conseguimos fazer tão bem. Sabemos fazer revistas, temos algum expertise a fazer revistas, há muitos anos que fazemos e variadíssimas, e é nisso que nos queremos concentrar. Neste momento, também por necessidade, 99% do nosso tempo é concentrado na revista, na revista semanal em papel e edição digital. Como somos tão poucos, não temos hipótese de dispersar e é no papel que está o dinheiro, para poder manter a atividade e poder acreditar que temos futuro e que há um futuro possível desta maneira.
Queremos, se for possível, manter o coração da revista na sua redação. E somos pessoas diferentes, somos os que foram ficando. Há um ano a redação da visão eram 40 pessoas. Estes foram os que ficaram. Ninguém foi convidado para ficar ou convidado para sair.
Não equacionaram alargar a compra da Visão a investidores, a empresas, a empresários?
Nós estamos apenas a angariar dinheiro para fazer uma proposta, num leilão que ainda não sabemos quando vai ser. Mas queremos, se for possível, manter o coração da revista na sua redação. E somos pessoas diferentes, somos os que foram ficando. Há um ano, a redação da visão eram 40 pessoas. Estes foram os que ficaram. Ninguém foi convidado para ficar ou convidado para sair. Estes foram os que ficaram. Outros não puderam porque, de facto, tivemos muito tempo com ordenados em atraso, com uma grande indecisão de pagamentos, houve pessoas que não conseguiam aguentar essa situação. Estes foram os que resistiram, porque também tinham condições, conseguiram encontrar condições, para resistir. Mas são aqueles que querem acreditar. A força é que o coração seja a redação. Depois, temos muita gente a querer participar, a perguntar como podem participar.
A participar como acionistas, mais tarde?
Não sei, neste momento está tudo em aberto. Conversamos com as pessoas, mas acho que a nossa força é ser os jornalistas a ficar com a Visão. Depois, quem quiser participar, podemos…

Abrir o capital de uma forma minoritária?
Não sei como vai ser feito, há vários modelos até por esse mundo. Mas o importante é ser a redação, serem os jornalistas, no centro disto tudo. No plano de negócios — também houve um empresário que nos ajudou — o nosso principal gasto é na redação.
Esse empresário é quem?
Ele não quer divulgar.
Fizemos um plano de negócios muito conservador, mas que mesmo assim liberta uma margem ao fim do ano agradável. E o investimento inicial, como eu sempre digo, é inferior ao custo de um T0 em Lisboa ou noutra cidade em Portugal.
Mas é da área dos media?
Não, de todo. Mas têm aparecido pessoas, isso tem sido interessante e também foi o que nos fez avançar, que nem sequer querem aparecer, mas que encaram isto como uma intervenção social, porque é preciso manter uma imprensa livre, é preciso para que isto não fique tudo em meia dúzia de grupos, e alguns deles internacionais, com todas as coisas que podem acontecer no futuro. E, portanto, há pessoas que não se importam e que querem ajudar. O nosso plano de negócios prevê uma operação em que vamos investindo na redação, mas vai libertando ali uma margem.
O plano que foi entregue na última assembleia de credores?
Não. O nosso plano de negócios é o nosso plano de negócios. A Visão estava para fechar em junho, julho, agosto, por aí. E estava a decisão tomada, de certa maneira. Até que fomos olhar para as contas da Visão — com estas pessoas, que são aquelas que queriam ficar — e olhando para receitas e custos, percebemos que havia aqui uma operação que podia ser equilibrada. E, portanto, fizemos um plano de negócios muito conservador, mas que mesmo assim liberta uma margem ao fim do ano agradável. E o investimento inicial, como eu sempre digo, é inferior ao custo de um T0 em Lisboa ou noutra cidade em Portugal.
A empresa está fechada, faliu. O que a Visão vale hoje é aquilo que nós estamos a fazer semanalmente pela Visão. Porque se a Visão tivesse fechado em junho, quanto é que valia?
O primeiro passo é conseguirem comprar o título. Como é que está o processo? Ou seja, vai ser feita uma avaliação e, à partida, a Visão vai a leilão.
O que nós desejávamos era que o processo fosse rápido, mas já percebemos que vai ser mais lento do que era esperado. Esperamos que em breve, esta semana ou na próxima, seja adjudicado o processo de avaliação dos títulos — não só da Visão, mas de todos os outros títulos –, para depois, como estava previsto, num prazo de três a quatro semanas, se fazer essa avaliação e depois, então, o administrador de insolvência poder abrir o processo de venda.
A proposta dele é que seja propostas por carta fechada, ao contrário do que a Segurança Social e a Autoridade Tributária tinham sugerido, que era ser em leilão eletrónico. Na altura da assembleia de credores também dissemos que o leilão eletrónico é complicado, porque pode ganhar alguém que depois pode ser chumbado pela ERC. É melhor ser em carta fechada e perceber o que cada proposta diz. Mas o preço tem que depender da avaliação. A empresa está fechada, faliu. O que a Visão vale hoje é aquilo que nós estamos a fazer semanalmente pela Visão. Porque se a Visão tivesse fechado em junho, quanto é que valia? Há pessoas que dizem que vale um euro. Nós achamos que a Visão vale muito, para nós. É uma grande incógnita, não sei responder.
Mas o que este crowdfunding diz — são 100 mil euros de cerca de 3 mil pessoas — é que a Visão é muito a redação que a faz. Portanto, se alguém quiser comprar a Visão, tem que falar com a redação. Nós é que a estamos a fazer.
Mas o que este crowdfunding diz — são 100 mil euros de cerca de 3 mil pessoas — é que a Visão é muito a redação que a faz. Portanto, se alguém quiser comprar a Visão, tem que falar com a redação. Nós é que a estamos a fazer.
A força do título, neste momento, são os seus jornalistas.
Como é evidente. Mas qualquer título, é a redação que o faz. No jornalismo, o importante são as pessoas. Estamos aqui num estúdio — é importante ter um estúdio -, e é fundamental ter computadores e essas coisas todas… mas, a diferença são os jornalistas. Não é a maquinaria, não é aquelas coisas que se compram feitas. É o nosso empenho, a nossa inteligência, os nossos conhecimentos, as nossas fontes. Isso é que é a riqueza do jornalismo e é a riqueza de qualquer publicação.
Temos muito aquele discurso, na classe, que as redações estão depauperadas e que estão entregues a estagiários. A Visão tem essa grande vantagem. Não há ali ninguém com menos de 20 anos de experiência de jornalismo. Somos uma redação de seniores, onde há memória, sabemos resolver alguns problemas… podemos estar já velhos noutras coisas. Mas a qualidade é a qualidade dos jornalistas. Não há consultores mágicos que resolvam.

Como imagina a Visão daqui a cinco anos?
No bom sonho, imagino uma redação feliz –como hoje, ao mesmo tempo — a gostar daquilo que faz, animada com aquilo que faz, a sentir que valeu a pena e a perceber que este exemplo inspirou outros a fazerem igual. E temos uma redação em que fazemos a Visão e fazemos outras revistas, voltámos a ter a Visão História, a Visão Biografia, a Visão Saúde, a Visão Júnior, a Visão Açores, tudo o que nós fizemos. Em que temos uma parte digital com a exigência do papel e que saiba também ter uma boa interatividade com os leitores, e ter uma quantidade de colaboradores que gostam de publicar na Visão, e que querem continuar a publicar na Visão, porque é um espaço de liberdade. E imagino que vivemos tranquilamente, não ambicionamos instalações fenomenais, mas espaços funcionais, que nos permita fazer o jornalismo que queremos, que gostamos e que achamos que é necessário.
Não foi dito a ninguém que vamos conseguir. Ainda hoje não sabemos se vamos conseguir. Mas desistir sem lutar, não. A história da Visão e a história das pessoas que passaram pela Visão merecem.
Alguma vez pensou efetivamente em desistir? Ou que tinha chegado ao fim?
Muitas vezes, assaltou-me. Pensei “o que é que eu estou aqui a fazer?“. Ainda por cima, tenho uma situação relativamente confortável, no sentido em que vou fazer 64 anos, trabalho desde os 20, tenho anos de desconto, posso-me reformar.
Eu não sou fundador da Visão, mas trabalhei com muitos fundadores, com muita gente boa, que deu muito pela Visão e que criou a Visão. Quando a Visão foi criada era, “isto não vai resultar”, em 1993. E eu próprio, que estava fora, trabalhava num jornal diário, também pensava, “isto não vai resultar, revistas em Portugal não resultam”. E resultou.
Vamos abandonar esta história toda só porque isto agora vai ser difícil, ou vai ser mais difícil? Como é que eu me vou sentir, um dia mais tarde, a pensar nisto tudo para trás? “Ok, mas desististe porque aquilo foi um bocadinho difícil? Porquê não tentaste? Porquê não tentámos?” Todas as pessoas que estão connosco, não foi dito a ninguém que vamos conseguir. Ainda hoje não sabemos se vamos conseguir. Mas desistir sem lutar, não. A história da Visão e a história das pessoas que passaram pela Visão merecem. E os leitores. Os assinantes da Visão são excecionais. Muito chatos, reclamam por muita coisa, mas estão sempre do nosso lado. É impossível abandonar essas pessoas.
Assista à entrevista completa, com outros temas, aqui:
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