Espaço aos empreendedores
O foco deve passar a ser o apoio aos empreendedores aeroespaciais com “ADN Português” — um conceito amplo que deve abranger pessoas com fortes ligações a Portugal, independentemente da nacionalidade.
Há uns anos (muitos…), quando estudava no Técnico, contavam-se algumas piadas sobre o setor aeroespacial e as saídas profissionais dos engenheiros aeroespaciais… eram engraçadas e refletiam o que pensavam, na altura, as pessoas de fora da área. Uma das minhas favoritas: “sabes o que um engenheiro aeroespacial do Técnico que arranjou emprego pergunta a um ex-colega desempregado? ‘O hambúrguer é com ou sem ketchup?’”
Piadas à parte, o setor espacial teve uma evolução exponencial na última década. Dois dados expressivos: em 2015 foram lançados 190 pequenos satélites e investidos cerca de dois mil milhões de dólares em startups e scaleups do setor; em 2024 estes números saltaram para 2.790 pequenos satélites e cerca de sete mil milhões de dólares (fonte: BryceTech). Como evidência do desenvolvimento da indústria, refira-se a recorrente especulação sobre a futura entrada em bolsa da SpaceX — a acontecer, poderá torná-la numa das cotadas mais valiosas do mundo.
Portugal também evoluiu muitíssimo (e criou as bases para ambicionar um crescimento elevado e sustentado para a próxima década), sobretudo a dois níveis: talento técnico e apoio institucional.
O investimento nacional na Agência Espacial Europeia cresceu de forma notável (em milhões de euros) – 2016: 73, 2019: 102, 2022: 115, 2025: 204,8 (fonte: Agência Espacial Portuguesa); além de projetos espaciais apoiados através do Plano de Recuperação e Resiliência, as infraestruturas na Região Autónoma dos Açores, etc. O percurso foi notável, mas o que nos trouxe até aqui (muito talento técnico e forte liderança institucional) é insuficiente para irmos muito mais longe. O modelo serviu-nos bem, mas precisa de ser suplementado.
Em 1995, entrámos menos de quarenta alunos para a licenciatura de engenharia aeroespacial; em 2025, as vagas para este curso, oferecido agora em cinco universidades, subiram para mais de 250, e quatro dos dez cursos com média mais alta (do último aluno colocado) eram de engenharia aeroespacial (fonte: Direção-Geral do Ensino Superior).
O investimento nacional na Agência Espacial Europeia cresceu de forma notável (em milhões de euros) – 2016: 73, 2019: 102, 2022: 115, 2025: 204,8 (fonte: Agência Espacial Portuguesa); além de projetos espaciais apoiados através do Plano de Recuperação e Resiliência, as infraestruturas na Região Autónoma dos Açores, etc.
O percurso foi notável, mas o que nos trouxe até aqui (muito talento técnico e forte liderança institucional) é insuficiente para irmos muito mais longe. O modelo serviu-nos bem, mas precisa de ser suplementado.
Sem descurar esses dois pilares, creio que o foco deve passar a ser o apoio aos empreendedores aeroespaciais com “ADN Português” — um conceito amplo que deve abranger pessoas com fortes ligações a Portugal, independentemente da sua nacionalidade ou atual residência: paradigma essencial para um país pequeno, mas com talento técnico excecional neste setor.
Concretamente, parece-me que existem duas linhas de ação claras:
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Descomplicar: o Estado como parceiro ágil
Este desafio aplica-se a muitos setores, mas no Espaço e na Defesa é ainda mais crítico: a pesada burocracia e os procedimentos pensados para grandes empresas do século passado (algumas estatais) travam o empreendedorismo. As dificuldades nascem da complexa teia institucional europeia, com demasiados atores e pouca concentração de orçamentos e poder de decisão.
Portugal poderá influenciar positivamente os seus parceiros em diversos fora (e.g., no Conselho da Agência Espacial Europeia ou no contexto da União Europeia), mas o impacto será proporcional ao investimento relativo (isto é, pequeno…). No entanto, Portugal pode tirar partido desta rigidez sistémica europeia e criar condições que facilitem a atividade de start-ups e scaleups neste setor.
Conseguimos criar startups, mas falta capital especializado para apoiar os empreendedores a escalar e criar empresas de dimensão global. Esta falta de capital para fases mais avançadas é mais um problema sistémico europeu, mas também aqui Portugal pode diferenciar-se e oferecer um contexto favorável ao investimento em scaleups com “ADN Português”.
Dois exemplos que “não custam muito dinheiro” (mas que requerem bastante agilidade institucional). Primeiro, desenvolver mecanismos mais rápidos e simples para as empresas poderem testar tecnologias e executar projetos. Segundo, incentivar que instituições portuguesas sirvam como early-adopters de produtos e serviços aeroespaciais.
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Atrair capital para ganhar escala global
Iniciativas muito early-stage, como a rede de centros de incubação da Agência Espacial Europeia (e o notável papel do Instituto Pedro Nunes neste contexto), devem ser reforçadas. Mas o verdadeiro desafio, e na realidade em todos os setores tecnológicos, está nas fases subsequentes de crescimento.
Conseguimos criar startups, mas falta capital especializado para apoiar os empreendedores a escalar e criar empresas de dimensão global.
Esta falta de capital para fases mais avançadas é mais um problema sistémico europeu, mas também aqui Portugal pode diferenciar-se e oferecer um contexto favorável ao investimento em scaleups com “ADN Português”.
Ao longo dos últimos anos, Portugal aplicou diversos mecanismos de incentivo ao investimento de capital de risco (“venture capital”): seria interessante analisar o que funcionou bem e menos bem e, com as devidas correções e adaptações, incentivar o investimento privado em fases mais avançadas, alavancando o enorme talento com “ADN Português”.
Este foco nos empreendedores parece-me necessário para darmos um salto significativo no impacto económico do setor em Portugal. E há sinais de que é exequível, com exemplos como a Tekever (um dos poucos unicórnios aeroespaciais europeus) e a Connected (recentemente adquirida pela Open Cosmos).
A Neuraspace — que desenvolve e comercializa soluções baseadas em inteligência artificial em apoio à segurança de operações de satélites —, investida pela Armilar, reflete o que me parece ser um bom exemplo do que o país pode gerar neste setor: produto tecnologicamente superior, proposta de valor clara para um problema crítico (civil e militar), e crescimento global com clientes privados e institucionais.
Acredito que, com a estratégia adequada, a próxima década poderá trazer alguns casos de grande sucesso de empresas aeroespaciais e de defesa com “ADN Português”.
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