O elo perdido na retenção de talento

  • Pedro Pinheiro
  • 15 Setembro 2025

Chegou o momento de repensar profundamente a forma como as organizações olham para a gestão intermédia. Mais do que reconhecer os problemas, é necessário agir.

Nos últimos anos, muito se tem falado sobre a importância de atrair e reter talento no mercado laboral. Contudo, pouco se discute o papel decisivo dos gestores intermédios nesse processo. De acordo com um inquérito recente realizado a nível global, este grupo de profissionais encontra-se num verdadeiro ponto de rutura, vivendo uma realidade que compromete não só o seu próprio futuro, mas também a capacidade das empresas de prosperar.

Os dados são claros e preocupantes. Três em cada quatro gestores intermédios estão em burnout, o que os torna o nível mais sobrecarregado e desgastado dentro das organizações. Esta exaustão não é apenas um problema individual, uma vez que ela pode contaminar equipas inteiras, minar a motivação coletiva e contribuir para um potencial ciclo vicioso de dificuldade de envolvimento. Num contexto em que os gestores têm um impacto direto na experiência dos colaboradores, ignorar esta crise é comprometer a sustentabilidade do negócio.

Outro ponto que merece reflexão é a forma como estes profissionais utilizam o seu tempo. O inquérito mostra que apenas 41% das horas de trabalho são dedicadas a gerir pessoas. O restante é consumido por tarefas administrativas e burocráticas que poderiam ser automatizadas ou delegadas. O resultado é evidente, menos tempo para desenvolver talento, menos espaço para construir cultura e menos energia para liderar equipas com propósito. É um contrassenso promover alguém a gestor e, em seguida, impedi-lo de exercer a sua principal função: gerir.

Também alarmante é constatar que mais de um quarto dos gestores já planeia a sua saída da empresa. Este dado deve soar como um alerta máximo para qualquer organização. A perda de um gestor intermédio não significa apenas um lugar vago, uma vez que implica custos elevados de substituição, perda de conhecimento acumulado e descontinuidade na relação com as equipas. Num mercado onde o talento escasseia, a incapacidade de reter quem já demonstrou competência e potencial é um luxo que as empresas não podem dar-se ao direito de ter.

Por último, o inquérito também revela que quase metade dos gestores se sente desconectado do trabalho. Muitos perderam a inspiração, outros não se identificam com a cultura da empresa. Este desligamento silencioso é um risco enorme, pois quando quem deve inspirar e motivar já não encontra sentido no que faz, a desmotivação alastra-se inevitavelmente para os restantes membros da equipa.

Chegou o momento de repensar profundamente a forma como as organizações olham para a gestão intermédia. Mais do que reconhecer os problemas, é necessário agir, nomeadamente procurando reduzir a carga administrativa, oferecendo apoio real, criando planos de desenvolvimento claros e devolvendo aos gestores o tempo e a confiança necessários para exercerem a sua liderança.

O futuro do trabalho passa, inevitavelmente, por fortalecer este elo vital. Investir nos gestores intermédios não é um custo, mas sim a chave para criar organizações mais fortes, mais humanas e capazes de atrair e reter o melhor talento num mercado cada vez mais competitivo.

  • Pedro Pinheiro
  • Presidente do ISCAL

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