O novo escrutínio das multinacionais e o papel decisivo da auditoria
Num contexto em que a confiança é um ativo escasso e a desinformação se propaga rapidamente, o CbCR representa uma oportunidade para reforçar a credibilidade das empresas e a integridade dos mercados.
A nova obrigação de reporte público país-a-país, conhecida internacionalmente como CbCR, é mais do que uma alteração legislativa. Trata-se de um sinal claro de maturidade das economias avançadas e um ponto de viragem na relação entre as empresas e a sociedade.
Em Portugal, a recente transposição da diretiva europeia obriga as grandes multinacionais, com presença em várias jurisdições e volumes significativos de atividade, a divulgar publicamente a repartição dos seus lucros, impostos pagos, número de trabalhadores e natureza das operações, país a país. É a primeira vez que esta informação sai do domínio exclusivo dos reguladores e entra na esfera pública, acessível a qualquer cidadão. Isto muda a forma como as empresas se posicionam e, inevitavelmente, redefine a importância da auditoria num novo ecossistema de transparência global.
Num contexto em que a confiança é um ativo escasso e a desinformação se propaga rapidamente, o CbCR representa uma oportunidade para reforçar a credibilidade das empresas e a integridade dos mercados. Mas esta oportunidade só se concretiza se os dados divulgados forem rigorosos, comparáveis e consistentes. É aqui que o papel do Revisor Oficial de Contas (ROC) assume centralidade. A recolha e organização da informação país a país exige sistemas internos robustos, processos de controlo fiáveis e uma cadeia de validação que não admita falhas. Quando estes dados se tornam públicos, qualquer incoerência, por pequena que seja, pode gerar interpretações erradas. E, por isso, os Revisores passam a ser garantes de confiança numa era em que a transparência deixou de ser uma opção para se tornar um requisito.
Portugal transpôs a diretiva com rigor, mas essa transposição traz desafios concretos. Muitas multinacionais estrangeiras com operações no país terão de adaptar-se às exigências locais, enquanto empresas portuguesas integradas em grupos globais dependerão de processos de reporte que nem sempre controlam totalmente. A diversidade tecnológica entre países, a consistência das métricas, os prazos de reporte e a necessidade de integrar dados provenientes de múltiplas entidades aumentam a complexidade do trabalho de validação. Tudo isto exige aos revisores novas competências, maior literacia digital e uma sensibilidade ética reforçada. Porque a interpretação pública dos dados dependerá, em grande parte, da qualidade e da fiabilidade do trabalho que lhes está na origem.
Os riscos são evidentes: incumprimento por falta de preparação, relatórios incoerentes, fragilidades de controlo interno tornadas visíveis ou danos reputacionais difíceis de reparar. Mas as oportunidades são igualmente claras. O CbCR valoriza a auditoria, reforça a importância do julgamento profissional, abre espaço a serviços especializados e posiciona as empresas que apostam na transparência como agentes económicos mais sólidos, competitivos e confiáveis.
A Ordem dos Revisores Oficiais de Contas tem aqui um papel que ultrapassa a formação técnica: cabe-nos liderar esta transição, promover boas práticas, alinhar a profissão com os padrões internacionais, reforçar a supervisão e garantir que nenhum ROC enfrenta estas novas exigências sem preparação adequada.
Este debate interessa a especialistas, mas não deve ficar limitado a eles. A transparência financeira não é uma discussão fechada num gabinete: tem impacto na competitividade do país, no equilíbrio fiscal, na perceção de justiça económica e na forma como os cidadãos olham para as grandes empresas. Quando a informação melhora, quando é clara e credível, todos ganham. O futuro da economia global passa por escrutínio público, por responsabilidade e por integridade. E esse futuro depende, de forma cada vez mais evidente, da qualidade da auditoria e do compromisso da nossa profissão com a verdade dos factos.
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