ECO Local: “Se perdermos o jornalismo, perdemos a democracia”
O 1º ECO Local decorreu no Porto e teve como tema o futuro da comunicação social. A discussão, que abordou o papel dos media e os seus desafios, lotou o átrio da Câmara Municipal do Porto.
O Futuro da Comunicação Social foi o mote da primeira conferência ECO Local, uma iniciativa do ECO e do Local Online, que irá promover vários encontros em diferentes localidades do país para debater temas de interesse nacional. O primeiro aconteceu na Câmara Municipal do Porto e contou com dois painéis de debate dedicados ao papel dos Media na sociedade portuguesa e aos desafios da comunicação social na visão das empresas.
“Há um grande desequilíbrio entre quem distribui informação e quem faz notícias e isso é difícil de reequilibrar”, começou por dizer António Costa, diretor do ECO, na abertura da sessão, referindo-se ao impacto das redes sociais. “Este desequilíbrio permitiu o paradoxo de chegar a mais pessoas, mas haver menos receita“, continuou, alertando para a necessidade de os meios de comunicação social serem “financeiramente independentes”.

Neste ponto, felicitou a iniciativa de o governo “olhar para o tema e fazer um plano”, mas considera que este “falhou no essencial”: “É importante apoiar a literacia social, mas não é isso que vai mudar a realidade económica e financeira dos grupos de media. Por isso, o plano falhou num ponto essencial, que é a necessidade de criar instrumentos de capital que incentivassem a capitalização das empresas”.
A mesma opinião foi partilhada por Rui Moreira, Presidente da Câmara Municipal do Porto, que também considera que a intervenção do Estado “tem ficado muito aquém das necessidades reais”: “O Estado deve ter uma intervenção assertiva nos media portugueses, não para os controlar, mas para garantir o seu exercício“.

“Sabemos que a concorrência das plataformas digitais está a tirar a publicidade aos media, com a agravante das redes sociais estarem a vampirizar os seus conteúdos. E não há ainda um modelo de negócio alternativo para a comunicação social que seja capaz de garantir a sua viabilidade económica e financeira. Contudo, sem uma comunicação social forte e independente não é possível promover uma cidadania ativa, esclarecida e vigilante. O jornalismo independente é, assim, fundamental para regular o funcionamento das instituições democráticas. Sem isso, a democracia nunca será completa ou, pelo menos, será disfuncional”, afirmou.
Qual o papel dos media?
Esta disfuncionalidade, citada por Rui Moreira, advém de um mundo em constante transformação, onde a informação circula a uma velocidade sem precedentes e se difunde por cada vez mais meios, alguns deles sem critério. E é neste ponto que, de acordo com Ana Pinho, economista, “os órgãos de comunicação social assumem um papel ainda mais relevante na formação das pessoas, a fim de torná-las mais abertas, inclusivas, e mais capazes de se adaptarem à mudança”.
No entanto, apesar de reconhecer a importância dos media para a obtenção de “informações oportunas e confiáveis” e de enaltecer o jornalismo de investigação como fundamental para o conhecimento de casos de corrupção e abuso do poder, alertou para a consequência que a procura de audiência pode trazer ao meio: “Cada vez acontece mais de se ficar com a dúvida se o que se está a noticiar são verdades ou uma necessidade de audiência. O que se está a fazer é promover a verdade ou é um julgamento em praça pública de coisas que ainda não se sabe se são verdade?”.
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1º painel da conferência "O futuro da Comunicação Social", com Ana Pinho, economista, e Carlos Magno, jornalista -
Ana Pinho, Economista -
Carlos Magno, Jornalista -
1º painel da conferência "O futuro da Comunicação Social", com Ana Pinho, economista, e Carlos Magno, jornalista
Esta tendência foi corroborada por Carlos Magno, jornalista, que afirmou a influência do jornalismo na introdução de duas doenças mentais na sociedade – “a síndrome do mundo mau” e a “psicopatia do quotidiano”. “Quanto à síndrome do mundo mau, ele faz com que as pessoas não queiram ouvir notícias e recusem a realidade porque a perspetiva que os jornalistas dão do mundo é ainda mais negra do que aquilo que efetivamente está a acontecer. Por outro lado, tem a doença da psicopatia do quotidiano, uma doença que Freud classifica como alguém que diz tudo o que lhe vem a cabeça sem confirmar“, explicou.
Ainda assim, o jornalista acredita que esta tendência pode ser a alavanca para um melhor jornalismo do futuro, já que “quanto pior for o jornalismo contemporâneo, mais as pessoas se vão cansar e vão querer pagar para ter acesso a jornalismo de qualidade”. Mas, para isso acontecer, referiu a urgência de se colocar os estatutos editoriais na lei, de modo a “fazer cumprir as regras”.
O ponto de vista das empresas
Apesar das críticas, “fazer cumprir as regras” continua a ser uma premissa que dá aos órgãos de comunicação social mais credibilidade do que a outras fontes de informação. “Desde o tempo da Covid-19, o consumo de televisão tem aumentado e os portugueses acreditam mais nas notícias que aparecem na televisão do que as que proliferam na internet. Isso significa que os jornalistas estão a fazer um bom trabalho”, referiu, por sua vez, Mário Ferreira, presidente do Conselho de Administração do Grupo Media Capital.
Ainda sobre a credibilidade dos media, Marcelo Nico, diretor-geral da Tabaqueira, afirmou: “É fundamental que o cidadão tenha acesso a informação. O problema no jornalismo é um problema transversal, mas é fundamental que a informação seja verídica e completa. Nós apoiamos o jornalismo que tenha este critério e, por isso, quando temos de partilhar informação com base científica para que o consumidor possa fazer uma escolha, nós só o fazemos através dos meios tradicionais“.
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2º painel da conferência "O futuro da comunicação social", com Marcelo Nico, diretor-geral da Tabaqueira, e Mário Ferreira, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Media Capital -
Marcelo Nico, diretor-geral da Tabaqueira -
Mário Ferreira, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Media Capital -
2º painel da conferência "O futuro da comunicação social", com Marcelo Nico, diretor-geral da Tabaqueira, e Mário Ferreira, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Media Capital
Contudo, Mário Ferreira admitiu a dificuldade de crescimento que estes meios têm e a necessidade de se fazer mais jornalismo de investigação, no qual considera que se deveria “investir mais”. Mas este investimento, alertou, não deve ser feito pelos portugueses, já que considera que estes “já pagam o suficiente”, tanto com as contribuições que fazem ao Estado (que subsidia a RTP), como com o que pagam às operadoras de distribuição de comunicação para acederem aos canais, em casa.
Este investimento nos media deve, segundo Pedro Duarte, ministro dos Assuntos Parlamentares, contar com a intervenção dos poderes públicos para contrariar a “apatia generalizada” que se sentia relativamente ao tema. O plano do governo com as 30 medidas para a comunicação social tinha esse objetivo, mas o ministro admitiu ser insuficiente para resolver a raiz do problema: “Não é com uma ação pontual que vamos resolver o problema. Os poderes públicos têm de perder o preconceito de intervir”.

No encerramento da sessão, Pedro Duarte destacou também o potencial da revolução tecnológica para o setor dos media, mas alertou para os dois lados da moeda: “Esta revolução pode trazer benefícios, mas também há perigos. Nós podemos ser manipulados sem darmos conta disso. Mas isto só traz mais relevância ao papel do jornalismo, isto porque o jornalista tem de ser o elemento que filtra esta realidade. É o nosso aliado enquanto democratas. É fundamental que o jornalismo não queira competir com isto. Se perdermos o jornalismo, perdemos a democracia. Não tenhamos dúvidas disso”, concluiu.
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