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“A publicidade pode ser uma arma. Assim seja permitido, porque tem que haver sempre alguém que aprova”

Carla Borges Ferreira, Diogo Simões,

Em contagem decrescente para os "óscares da publicidade", Ana Paula Costa aponta as tendências e expetativas para o festival, que serve de barómetro global à criatividade, e comenta o mercado.

Ana Paula Costa, representante dos Lions Festivals em Portugal, em entrevista ao ECO/+MHugo Amaral/ECO

“A publicidade é um reflexo dos medos de uma sociedade”. A descrição é de Ana Paula Costa, há 28 anos representante do festival de criatividade Cannes Lions em Portugal. Com a contagem decrescente para o maior festival de criatividade do mundo em marcha, Ana Paula Costa acredita que o tema da inteligência artificial, “que no ano passado foi transversal a todos os seminários”, já foi interiorizado pela indústria. Agora, a questão é a criatividade em prompting, aponta.

“O grande desafio é a rapidez com que todos os players vão absorver esta nova dimensão e trabalhar com ela. Penso que no setor já não há resistências e acho que toda a gente percebe o benefício de ter uma ferramenta que [nos] pode dar mais tempo, porque liberta os profissionais das tarefas rotineiras. Mas, de facto, o grande desafio é a criatividade em prompting, é o patamar que estamos agora a atravessar”, diz em entrevista ao +M.

Com as inscrições para a competição principal ainda a decorrer, o número de trabalhos nacionais presentes este ano é ainda uma incógnita. Em 2024, Portugal fez-se representar com 151 peças e o balanço saldou-se por um bronze, da Bar Ogilvy, em Digital Craft, com o projeto “The Endangered Typeface”, e por oito entradas em sortlist.

Ana Paula Costa relativiza o resultado. “Temos que ter sempre em atenção a dimensão do nosso mercado”, diz, lembrando que se trata de um festival no qual participam 95 países e há, em média, 27 mil trabalhos inscritos. “Para dar um paralelo, os Estados Unidos têm à volta de 6.500 a 7 mil inscrições”, discrimina. “No binómio entre trabalhos inscritos e prémios ganhos, Portugal anda ali entre a 20ª e 30 posição”, aponta.

Ana Paula Costa, representante dos Lions Festivals em Portugal, em entrevista ao ECO/+MHugo Amaral/ECO

Nos Young Lions, cujo bootcamp arranca esta sexta-feira, Portugal mantém-se nos lugares cimeiros. “Nos Young Lions é sem rede, é diretamente o talento a resolver um briefing. É uma dinâmica na qual a robustez financeira que é necessária para a secção principal não se verifica e, portanto, não é comparável”, reforça.

Há quase três décadas a organizar esta competição no mercado nacional, Ana Paula Costa refere que das cerca de 170 inscrições para a edição deste ano, as categorias com maior adesão foram Digital, Imprensa/Outdoor e Design.

Em sentido contrário, a Relações Públicas apenas concorreram quatro duplas. “Esta categoria é destinada a profissionais que trabalham nas agências de relações pública. Enquanto nas outras agências o mindset está logo virado para Cannes e para os Young Lions, este setor ainda não está muito sensibilizado para para o Cannes Lions”, justifica.

“Muitas vezes é pedido uma proposta outstanding, mas depois, quando é o momento da aprovação, o medo do risco acaba por falar mais alto”. “O que precisamos também é de clientes mais audaciosos”.

Há um fator importante, o ato de participarmos nos Young Lions é um ato de ousadia. Quem se candidata está disposto a sair da sua zona de conforto, numa competição muito dura, onde nós lhes vamos pedir inovação sob pressão. São candidatos que querem, têm a certeza do que valem, e querem ir mais longe”, refere Ana Paula Costa.

No bootcamp, recorde-se, cada marca entrega um briefing às duplas concorrentes, que têm 48 horas para o resolver e, de seguida, 15 minutos para o defender perante um júri. Ou seja, “é uma antecâmara daquilo que se vai pensar depois em Cannes”, onde as duplas dos 40 países têm não 48 mas 24 horas [exceto na categoria Filme] para apresentar resultados. “Cannes é um trampolim na carreira, tanto nacional como internacional. Quem participa, é porque quer ficar no mapa”, resume a profissional.

Quanto ao trabalho produzido em Portugal, Ana Paula Costa começa por responder que “a criatividade assume o seu verdadeiro significado quando inspira as mudanças”.

“Temos provas dadas e muitos projetos que apresentaram insights únicos e execuções até fora do comum, portanto, direi que o mercado nacional não tem tanta dimensão e não tem provavelmente a mesma robustez financeira que outros mercados, mas os profissionais estão cá”, afirma.

“Assim lhes seja dada a oportunidade, por parte dos clientes”, acrescenta Ana Paula Costa, recordando um seminário no ano passado, em Cannes, no qual o diretor financeiro mundial da McDonald’s passava a mensagem que “cada anunciante tem a publicidade que merece”.

Muitas vezes é pedido uma proposta outstanding, mas depois, quando é o momento da aprovação, o medo do risco acaba por falar mais alto”.

“O que precisamos também é de clientes mais audaciosos”, refere Ana Paula Costa. Sobre a forma como os acontecimentos a que temos vindo a assistir a nível mundial, nomeadamente nos EUA, vai impactar a publicidade, a representante do Cannes Lions recorda que esta é um reflexo da sociedade.

Naturalmente, esta fase também irá refletir isso. Haverá mercados condicionados, uns mais do que outros. A publicidade irá refletir, obrigatoriamente, os valores com que hoje nos confrontamos, em termos de sociedade, de atitude com o nosso parceiro, com o nosso mundo, o nosso vizinho”, diz.

“A publicidade, assim seja permitido, porque tem que haver sempre alguém que aprova, pode ser uma arma”, aponta. “Bravura” é o que pede aos diretores de marketing.

A entrevista completa pode ser vista em vídeo ou escutada em podcast.

 

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