A IA vai substituir os jornalistas? Saiba como os media portugueses estão a adotar IA nas redações
Cada vez mais empresas de media recorrem à IA, com esta tecnologia a ganhar um papel estruturante nas redações nacionais, garantindo oportunidades mas também levantando desafios.
E se o próximo artigo que ler não tiver sido escrito por um jornalista, mas por um algoritmo? A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma tendência e começou a fazer parte do dia-a-dia das redações, com vários grupos de media a utilizar esta tecnologia para ajudar na produção de conteúdos ou organização de dados, por exemplo.
Respondendo à questão, além de um artigo, o leitor pode até já ter lido uma edição inteira de um jornal feita por IA. Foi o que aconteceu, ainda em abril, com uma edição do jornal I, desenvolvida na íntegra através do ChatGPT. O uso de IA pelos media portugueses já deixou há muito, portanto, de ser cenário de ficção. As redações começaram a incorporar inteligência artificial nos seus processos, dando início a uma nova etapa, onde a criatividade humana e a lógica das máquinas colaboram na produção de conteúdos.
No grupo Impresa, por exemplo, já são utilizadas ferramentas com inteligência artificial “em várias partes do ciclo de produção de conteúdos”, mas também em atividades comerciais, administrativas, de análise de dados, IT ou cibersegurança. Estas ferramentas são utilizadas principalmente “em tarefas repetitivas e de baixo valor acrescentado“, o que permite “ampliar as capacidades das nossas pessoas, porque conseguem fazer mais e melhor trabalho com a assistência que lhes dá essa tecnologia“, refere Bruno Mateus Padinha, chief digital officer do grupo dono da SIC e do Expresso, ao +M.
De uma perspetiva puramente noticiosa, a IA é usada em tarefas como pesquisa e análise de fontes e documentação, edição de texto e de vídeo, adaptação de títulos e corpo para diversos formatos e análise de comportamento dos utilizadores.
Mas à medida que a tecnologia amadurece e que aumenta o domínio da mesma pelos colaboradores, o grupo Impresa entrevê “um futuro próximo em que será possível integrar estas ferramentas mais profundamente na cadeia de produção de conteúdos, tanto de informação como de entretenimento“.
No caso do Público, as ferramentas que recorrem a tecnologias de IA são utilizadas “sobretudo para tarefas de produção”, como sejam transcrições de entrevistas, traduções ou disponibilização de uma versão áudio dos artigos. “Estes são casos de uso antigos, que precedem esta vaga de IA generativa, e que representam poucos riscos“, refere João Pedro Pereira, editor e responsável pela implementação de IA na redação do Público, acrescentando que a IA é ainda usada para gerar resumos de notícias para a aplicação GenP, uma aplicação destinada a consumidores mais novos (entre os 15 e os 18 anos).
“Salvo nos casos de uso em que a tecnologia está madura e não representa riscos (como nos áudios de artigos), todo o conteúdo é sempre verificado e editado na redação (incluindo resumos e traduções). Estas ferramentas são aceleradores nestas tarefas específicas, mas o resultado final, por norma, não tem qualidade de publicação, para além dos outros problemas deontológicos que uma publicação sem intervenção humana levantaria“, acrescenta João Pedro Pereira.
No futuro, o responsável pela implementação de IA na redação do Público espera que esta tecnologia venha ajudar a redação com “outras atividades em que é necessária a recolha e análise de informação”, antevendo ainda que os chatbots, que já são “ferramentas úteis”, vão ser “mais refinados no futuro, pelo que mais úteis se tornarão”.
Já a Media Livre usa “há vários anos ferramentas, plataformas e aplicações que utilizam IA”, nomeadamente para fact-checking e prevenção de fake news, transcrição de entrevistas e cortes de vídeo. Esta tecnologia é também utilizada na classificação automática de conteúdos com metadados, análise de comentários com automação de ações, suporte à programação, HTML e design, automação de back-end, gestão de redes sociais, tratamento de dados, envio de newsletters, previsão de churn (ababdono de clientes) e marketing cloud, aponta Isabel Rodrigues, administradora e chief digital and marketing officer do grupo dono de publicações como o Correio da Manhã, Record ou Jornal de Negócios, assim como dos canal CMTV e Now.
Este grupo de media definiu mesmo “um plano de desenvolvimento de projetos de IA dando prioridade aos relacionados com a otimização de processos e controle de qualidade“, detalha Isabel Rodrigues, avançando que “foram identificadas em todas as áreas oportunidades específicas”.
A Media Livre conta com um “grupo de trabalho multidisciplinar” criado com o objetivo de “sistematizar ferramentas, soluções e propostas, detetar necessidades e oportunidades e promover formação e literacia“. “Temos ainda um manifesto interno que orienta e regula a utilização destas ferramentas, desenvolvido a partir de um levantamento exaustivo, tanto do conhecimento como da utilização”, diz a chief digital and marketing officer.
Já o grupo Impresa implementou de uma carta de princípios que advoga o princípio “humano-no-ciclo”, de modo que haja sempre autoria e responsabilidade final de um ser humano naquilo que é publicado.
Foi também uma “carta de princípios” o que foi exigido pela ERC à CNN, depois de o canal ter usado tecnologia de IA numa rubrica a propósito dos debates eleitorais no âmbito da campanha para as eleições legislativas de 2024.
Perante essa utilização de IA, a ERC defendeu a necessidade de a CNN Portugal “elaborar e publicar uma carta de princípios sobre a utilização de inteligência artificial na sua redação, caso prossiga a produção de conteúdos de programas de informação jornalística com recurso a ferramentas de IA”. O objetivo avançado pelo regulador era o de “garantir a integridade, quer dos conteúdos decorrentes dessa tecnologia, quer das prerrogativas inerentes à atividade jornalística, e tornar transparentes perante os espetadores o tipo de tarefas que são executadas por estes sistemas — editoriais e/ou não editoriais”.
No caso do Público “há muito pouco conteúdo gerado por IA“, sendo que, com exceção dos resumos na GENP, não há textos gerados por IA, observa João Pedro Pereira. “Não há imagens ou vídeos gerados por IA. O áudio gerado automaticamente para leitura de artigos é uma funcionalidade com anos na internet, sem riscos relevantes, e é, creio, evidente para o utilizador que se trata de um conteúdo gerado por sistema informático, pelo que não temos uma menção explícita”, diz.
“A regra é a de assinalar eventual conteúdo que seja gerado por computador, seja recorrendo a tecnologias de IA ou outras (há anos que algumas publicações publicam textos sobre mercados financeiros, por exemplo, gerados por computador)”, acrescenta, sublinhando que as respostas são da sua exclusiva responsabilidade como editor do Público, não vinculando o jornal, e que as posições da direção ou da administração do jornal poderão ser diferentes.
No entanto, o jornal tem também em curso um processo para a “definição de um conjunto extenso e explícito de regras para o uso de IA“, trabalho que, embora ainda não esteja finalizado, conta com regras “que são restritivas e já estão, na prática, a ser seguidas”.
No caso da Media Livre, o grupo também não disponibiliza atualmente conteúdo com intervenção de IA generativa, cingindo-se apenas à sua utilização em complementos de apoio ao consumo, como seja em transcrições, text-to-speech, legendagem ou tradução.
Em termos de capacitação, a equipa do Público contou com formações para o uso de ferramentas como o ChatGPT e similares, enquanto na Medialivre está em curso o desenvolvimento de um plano de formação para as áreas editorial, de negócio e de suporte.
No caso da Impresa, a formação de IA tem sido trabalhada em três vertentes — na Academia Impresa (para formações mais estruturadas), no Laboratório de Inovação (para projetos piloto, de experimentação e ideação) e nos Fóruns de Discussão (para partilha de conhecimento) –, “seja com sessões práticas de discussão sobre as potencialidades e riscos deste tipo de tecnologias, com a implementação de projetos pilotos, onde as pessoas aprendem num processo contínuo de experimentação, ou em formações formais de passagem e sistematização de conhecimentos”, explica Bruno Mateus Padinha.
Mas quais os benefícios da IA para as redações?
“Os benefícios são sobretudo a aceleração de algumas tarefas de produção“, diz João Pedro Pereira. “A ideia de criar produtos ou funcionalidades para o utilizador final com base em IA generativa gerou muito entusiasmo no setor nos meses após a disponibilização ao público do ChatGPT, mas perdeu entretanto fôlego, por já se ter percebido que não há casos de uso que signifiquem um valor óbvio para o utilizador”.
“Foi um período de tecno-solucionismo, felizmente curto, em que o setor (como já fez no passado, por exemplo, com os tablets) olhou para uma solução tecnológica e andou às voltas para tentar encontrar problemas para ela“, afirma ainda o editor do Público.
A utilização de ferramentas de IA está a ajudar os jornalistas da SIC e do Expresso a conseguirem “produzir mais conteúdo e de maior qualidade, uma vez que elimina algumas das suas tarefas intermédias e acelera outras“, avança Bruno Mateus Padinha.
A ideia é corroborada por Isabel Rodrigues, que entende que a utilização de ferramentas de IA “libertam os jornalistas de tarefas repetitivas e sem valor acrescentado para o consumidor“. “O tempo conquistado pode, assim, ser utilizado de forma mais interessante para o jornalista, para a empresa de media e para o consumidor final”, entende a responsável da Media Livre.
Em termos de desafios, o maior deles está relacionado com a forma como a IA vai moldar o acesso à informação por parte das audiências, e como isso irá afetar a sua relação com os media e com plataformas como os motores de busca, entende o responsável pela implementação de IA na redação do Público.
“Caminhamos a passos rápidos para um cenário em que muitos utilizadores, após uma busca no Google ou nos chatbots, dispensarão a consulta da fonte original, o que deteriorará o tráfego dos jornais, bem como a relação das pessoas com as marcas de jornalismo”, defende João Pedro Pereira.
Um estudo recentemente desenvolvido no Reino Unido, recorde-se, mostrou que os jornais podem estar a perder quase metade dos cliques por pesquisa quando o AI Overview (Vista Geral de IA, em português) é ativado e aparece no motor de busca.
Quando a Vista Geral de IA está presente nas pesquisas, os jornais testemunham uma queda de 47,5% na taxa de cliques nos computadores e de 37,7% nos smartphones, segundo a análise da Authoritas. A Vista Geral de IA pretende facilitar as pesquisas feitas pelos utilizadores, fornecendo um resumo com informações de forma a responder à dúvida pesquisada, apresentando também links que permitam aprofundar a questão. A leitura destes resumos leva muitas pessoas a dispensar a entrada em artigos de jornais, onde as questões são aprofundadas.
Substituição de humanos fora de questão… pelo menos por agora
Embora seja difícil “extrapolar” quanto ao futuro uma vez que o progresso da tecnologia — assim como de outras tendências no setor dos meios de comunicação — “é tão acelerado”, o grupo Impresa aponta que um cenário de substituição de humanos por IA “parece altamente improvável”. “O caminho será o de aumentar a capacidade dos humanos e não de os substituir integralmente“, diz Bruno Mateus Padinha, chief digital officer da dona da SIC.
Por parte da Media Livre, também Isabel Rodrigues diz que até onde é possível perspetivar, o grupo não tem intenção de substituir colaboradores humanos por IA. “A nossa intenção é, sim, valorizar os colaboradores humanos, colocando-os no centro, onde as competências e valências são insubstituíveis“, aponta.
“A utilização de IA nas redações é igual a termos estagiários em número infinito, ou seja, muito trabalho de base pode ser feito, mas é imprescindível um olhar de supervisão. Isto sem falar do óbvio papel do jornalismo de investigação, o jornalismo de quem faz perguntas, de quem está no terreno – e que é insubstituível“, acrescenta a responsável.
Na resposta à questão de, se no futuro, esta tecnologia poderá vir a substituir colaboradores humanos, João Pedro Pereira é ainda mais perentório: “nos próximos anos, e se falamos de jornalistas, não“.
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