Defesa é tema central em 2026. O que pensam os candidatos à Presidência?
Investimento, guerra na Ucrânia, envio de forças portuguesas para o conflito a leste. O que têm dito os candidatos às eleições presidenciais de 18 de janeiro sobre defesa.
O investimento em defesa será um tema central este ano, numa altura em que a guerra na Ucrânia e o conflito em Gaza continuam a marcar o contexto internacional. O Presidente é o representante máximo da República Portuguesa e, embora não tenha poderes executivos, a sua posição sobre a diplomacia portuguesa é fundamental, pelo que o ECO renuiu declarações sobre o tema dos cinco candidatos a Belém à frente nas sondagens: André Ventura, António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes e João Cotrim de Figueiredo.
Luís Marques Mendes
O candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS-PP, Luís Marques Mendes, afirmou que a decisão da NATO de subir para 5% do Produto Interno Bruto (PIB) o investimento na Defesa coloca “um desafio sério” a Portugal, mas considera que a União Europeia tem de “agarrar esta oportunidade para criar a sua própria autonomia estratégica”.
“Autonomia estratégica na economia. Investindo, inovando e industrializando“, afirmou sobre a área da defesa. Entende Marques Mendes que, se não for assim, a “UE acabará a ser uma ‘colónia’ dos EUA ou da China”, sublinhando que a “autonomia estratégica em segurança e defesa não se trata, apenas, de gastar mais”, trata-se “também de gastar melhor e gastar europeu“, de acordo a Lusa.
Sobre o país disse ser “muito credível em várias áreas”, entre elas as Forças Armadas (FA), lembrando as forças destacadas “em operações de paz em várias partes do mundo” que “são altamente elogiadas”, disse Marques Mendes, acrescentando que “são fator de prestígio e orgulho para Portugal”.
“Temos de multiplicar o número de operações de paz em que participam as nossas FA. Será um investimento no reforço da imagem de Portugal no estrangeiro”, continuou o candidato que quer que Portugal nunca abandone “a exigência de estar na linha da frente do projeto europeu. Nem a meio do comboio nem atrás dele. Sempre na linha da frente do comboio europeu. É estratégico para Portugal”, disse Marques Mendes num evento em junho.
Na sexta-feira, durante o debate a oito nas rádios, salientou que se houver um acordo de paz ou de cessar-fogo na Ucrânia, “há um ponto essencial que são as garantias de segurança contra uma eventual ameaça ou invasão futura por parte da Rússia” ou de outro país, realçando o “trabalho notável” que o país tem feito em termos de forças de manutenção de paz. Marques Mendes rejeitou qualquer necessidade de um referendo sobre a necessidade de envio de forças portuguesas para a Ucrânia “numa situação já de paz”, embora considere ser “cedo” para uma abordar a matéria.

Henrique Gouveia e Melo
O candidato que se apresenta como independente do poder político é também aquele que maior domínio tem sobre os temas de defesa, ou não tivesse sido chefe do Estado-Maior da Armada. O almirante na reserva considerou, em junho, que o objetivo de investir 5% do PIB em despesas para a Defesa é uma meta “obviamente, muito ambiciosa”.
Reconheceu que existe a necessidade de reforçar esta área, mas sublinhou, contudo, que este “é um assunto da governação”. No entanto, em entrevista ao Observador indicou que “uma área como a defesa, que tem um interesse fundamental para o país, deveria ser mais transparente e menos opaca”.
“Devíamos dizer à população o que é que pretendemos verdadeiramente, quais são as áreas prioritárias onde devemos fazer esse investimento e como é que o vamos fazer, como é que esse investimento pode retornar à nossa economia ou se vamos comprar só equipamento chave na mão a outras economias. Todas essas coisas sofrem de alguma opacidade no espaço público. Não são conhecidas as soluções. Há uma ideia de que a população não percebe determinado conjunto de informação ou que não deve ter acesso a essa informação para não se confundir. Isso é infantilizar a população. Não concordo nada com isso”, disse.
Durante os debates televisivos, disse que a capitulação na guerra não é uma paz, mas sim a “imposição da vontade dos outros” e reforçou que Portugal deve cumprir o acordo da NATO, que obriga o país a defender os restantes países da aliança em caso de ataque. No entanto, no debate das rádios manifestou-se contra uma eventual participação das tropas portuguesas na Ucrânia, considerando que “naquele cenário, qualquer força de manutenção de paz pode-se ver envolvida num conflito”.
“Não sou a favor dessa participação. Sou a favor da participação nos acordos de defesa coletiva, que são os acordos da NATO”, disse.
António José Seguro
O candidato apoiado pelo PS, António José Seguro, defendeu em junho que o investimento em defesa deve privilegiar inovação e tecnologia que sirva também áreas como a economia, a proteção civil e a vigilância da zona económica exclusiva, argumentando que deve “ter um retorno” e a “capacidade de desenvolver um sistema científico nacional”. No entanto, recomendou “prudência” sobre a meta de 5% da NATO, por considerar que “5% é muito dinheiro”.
“Já se gasta imenso em defesa no conjunto dos países da NATO e, designadamente, dos países europeus, e o que é necessário é ter aqui também uma economia de escala”, salientou na altura o antigo secretário-geral socialista, para quem, no caso de Portugal, “antes de gastar mais, é preciso gastar melhor“.
Mais tarde, durante a Fábrica 2030 do ECO, precisou que é preciso “olhar para a defesa como um investimento e não como uma despesa”. “Portugal deve manter-se na NATO, mas a Europa deve aumentar a sua autonomia estratégica na segurança e na defesa. (…) O problema é a má despesa, a má dívida. Se é estratégico, então temos de investir nessa área”, disse.
Sobre um eventual envio de forças portuguesas para a Ucrânia, no debate da rádio, Seguro considerou que se as tropas vão “para ajudar a manter a paz, naturalmente que isso seria um gesto de solidariedade e também de defesa” dos interesses europeus e portugueses. Porém, assinalou que “a decisão tem que ser vista em concreto, num momento certo e preservando ou até alargando a manutenção de um consenso que existe em Portugal entre todos os órgãos de soberania e as forças políticas”.
André Ventura
O candidato apoiado pelo Chega, André Ventura, considera que “a Europa e o mundo estão em mudança” e Portugal precisa “de ter uma ligação maior às instituições militares”. “Desprezámos durante muitos anos o investimento na defesa, na tecnologia de defesa, tanto Portugal como a Europa. A Europa desleixou a sua defesa e hoje estamos dependentes basicamente dos Estados Unidos da América“, disse em entrevista à Renascença.
Para André Ventura, o serviço militar obrigatório não é a solução para responder aos desafios na área da defesa e, considera que, “Portugal deve evitar ao máximo ter jovens portugueses” na guerra no leste da Europa. “Temos tido um conflito absolutamente desastroso e acho que ninguém quer repetir aquilo que aconteceu em Portugal na Primeira Guerra Mundial, em que uma geração inteira foi destruída por sermos enviados para o centro da Europa para combater“, disse durante o debate das rádios.
Ainda assim, defendeu “o apoio incondicional à Ucrânia para vencer a Rússia”, e considerou que devem ser exigidas garantias de transparência a Kiev relativamente ao uso do dinheiro que tem sido enviado.

João Cotrim de Figueiredo
O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal (IL), João Cotrim de Figueiredo, tem defendido que a NATO é a “garantia de defesa” do país, considerando que é preciso que a Europa ter tenha um “braço armado para dar consequência militar à política”.
No entanto, considerou que é necessário investir mais em defesa, mas explicar o porquê aos cidadãos. Cotrim Figueiredo considerou que “é um interesse vital Portugal garantir que não há no extremo oriental da Europa um tirano com ambições imperialistas”, referindo-se ao presidente russo, Vladimir Putin.
“Acho que qualquer Presidente da República deve, em primeiro lugar, saber exatamente em que termos é que essa paz vai ser celebrada e deve ser mantida e que tipo de apoio, risco e intervenção se esperariam destas tropas portuguesas“, disse no debate da rádio.
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