Centro de Medicina de Reprodução do São João duplica produção e vai internacionalizar-se
Centro do São João é o único SNS a fazer este tipo de tratamentos, recebendo utentes de todo o país, incluindo Madeira e Açores. Prepara-se para começar a receber os primeiros casais de fora em 2026.
Lara e Armando querem ser pais, mas uma doença crónica adiou-lhes um plano que têm esperança de concretizar graças ao Centro de Medicina de Reprodução do Hospital São João, unidade que, em três anos, duplicou a produção e quer internacionalizar-se.
Criado em 2023, o Centro de Responsabilidade Integrada em Medicina de Reprodução (CRI-MR) do Hospital de São João, no Porto, mudou de instalações há cerca de um mês e deverá ser inaugurado dentro de cinco semanas, quando “todo o novo conceito e a nova abordagem estiverem montados e a funcionar”, explicou Manuel Melo, vogal do conselho de gestão desta unidade especializada.
Mas a transferência dos utentes, profissionais, equipamentos e processos já está concluída. Lara e Armando Dauer são um dos casais que já frequentam o piso 5 da Ala Pediátrica do Hospital São João com a esperança de aumentar a família.

“Estávamos no metro no final do ano quando recebemos a chamada com data para primeiros tratamentos. Ficámos muito ansiosos, mas muito felizes, e muito surpresos. A primeira consulta tinha sido em setembro só”, conta Armando Dauer, terminando a descrição com um suspiro. “Talvez no Natal deste ano, agora em 2026, já sejamos três”, refere.
Com 34 anos, natural de Fortaleza (Brasil), Lara é assistida no São João desde que lhe foi diagnosticada, há três anos, endometriose, uma doença crónica que lhe provoca muitas dores se não utilizar um método anticoncecional. O tecido endometrial desenvolve-se fora do útero, respondendo às alterações hormonais do ciclo menstrual.
“Percebemos que não conseguiríamos engravidar naturalmente e foi-nos recomendada FIV [Fertilização In Vitro, técnica de procriação medicamente assistida na qual óvulos e espermatozoides são unidos em laboratório para criar embriões], um processo complicado fisicamente e psicologicamente, mas acreditamos que vai dar certo”, contou.
O casal achava também que seria um processo longo, algo que este CRI-MR está comprometido a mudar agora com novas instalações e mais recursos.
“Era muito difícil estar a fazer a consulta ao casal e depois dizer: ‘olhem, daqui a um ano e tal uma enfermeira vai telefonar começarmos o tratamento’. Diziam ‘tanto tempo?!’ e quase a única coisa que lhes podíamos dizer era ‘há sítios em que ainda é pior’. Agora é muito gratificante dizer à senhora ‘vai começar agora uma pílula e na próxima menstruação já vamos começar o tratamento'”, descreveu a diretora clínica do CRI-MR, Sónia Sousa.
Em Portugal, no setor público estes tratamentos só podem ser feitos a mulheres até aos 40 anos. No setor privado podem ser atendidas até aos 50.
Para chegar a esta “resposta de alento”, em causa estão três anos de diminuição de listas de espera. A procura situava-se nos 400 casos por ano. No primeiro ano de CRI-MR foi dada resposta a 600, no segundo a 800 e em 2025 a 900.
As taxas também sofreram uma mudança radical: há três anos apenas 6% dos doentes eram vistos dentro do chamado Tempo Máximo de Resposta Garantido. Atualmente 95% são vistos dentro dessa referência temporal.
“E os restantes 5% correspondem a faltas e adiamentos por parte do utente. Agora temos a lista de espera controlada para consulta e tratamentos de primeira linha. Para os tratamentos de segunda linha, uma espera que era de um ano e meio passou a dois/três meses”, acrescentou Manuel Melo.
Por tratamentos de segunda linha entenda-se o que está relacionado com diagnósticos genéticos pré-implantação (PGT), ou seja, dar resposta a casais que têm alguma doença genética ou familiar e pretendem não a transmitir aos filhos.
“Podemos estar a falar de uma doença muito prevalente em Portugal, que é a doença da paramiloidose [conhecida como doença dos pezinhos frequente em áreas costeiras do Norte como as Caxinas, em Vila do Conde], da doença Machado-Joseph [doença neurodegenerativa genética rara e progressiva prevalente nos Açores] e de uma data de outras doenças que, neste momento, podemos dizer que desde que haja mutação identificada podemos montar a técnica de reprodução”, explicou Sónia Sousa.
O CRI-MR do São João é o único centro no Serviço Nacional de Saúde (SNS) a fazer este tipo de tratamentos, razão pela qual recebe utentes de todo o país, incluindo Madeira e Açores, e pretende internacionalizar-se.
“Nós tínhamos três objetivos, um por ano. O primeiro era duplicar a produção, o segundo ter instalações novas que fossem uma referência e o terceiro é a internacionalização. Os dois primeiros estão cumpridos e acho que já ninguém tem dúvidas que o terceiro também será. Contamos que neste primeiro semestre as coisas estejam preparadas para começarmos a receber os primeiros casais de fora”, apontou Manuel Melo.
Para construir e modernizar o novo CRI-MR foram precisos cerca de dois milhões de euros, 1,5 dos quais para obra paga no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e meio milhão para equipamento pago com fundos próprios do Hospital São João.
De 300 metros quadrados passou para 650. Além do dobro do espaço, o centro recebeu características próprias, desde logo o piso feito com material totalmente natural que substitui o vinil dos outros serviços.
“Visitámos clínicas de referência de toda a Europa para perceber o que melhor se fazia. Disseram-nos que o vinil prejudica os embriões”, destacou Manuel Melo, numa visita guiada à imprensa.
A estas mais-valias Sónia Sousa acrescentou o facto de agora poder oferecer aos utentes “no mesmo espaço as valências de psicologia, genética e nutrição”.
Com cerca de 20 profissionais, a equipa do CRI-MR do São João incluí médicos, enfermeiros, biólogos, administrativos e auxiliares.
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