Presidente da autarquia lamenta supressão de ligações de longo curso a Guimarães e o atraso na criação do metrobus, com o qual quer ligar o concelho à rede ferroviária de alta velocidade.
Guimarães vai ter autocarros de utilização gratuita para a população, promete o autarca eleito a 12 de outubro. Em entrevista ao ECO/Local Online, Ricardo Araújo explica que havia um acordo, do antecessor, para assegurar exclusividade ao operador atual. “Vai ser revertido e nós vamos renegociar um novo acordo, com vista à gratuitidade, aumento da frequência, da comodidade de simplificação de acesso e aumento da cobertura concelhia”, diz.
Relativamente ao metrobus, que terá uma primeira fase até à zona do Avepark, aponta “uma grande indefinição política” e “divergências até dentro do próprio Partido Socialista, porque o presidente da Câmara anterior defendia este projeto e o candidato defendia coisa diferente. O autarca é crítico também da localização da estação da linha de alta velocidade que servirá a região e que, diz, “remete Guimarães cada vez mais para uma posição periférica“.

A ferrovia tem sido um dos desígnios de vários governos neste século, mas para chegar aqui, vindo de Lisboa, só existe uma ligação diária. Do Porto são mais, de hora a hora, mas lentas. Guimarães é uma ilha ferroviária?
É um verdadeiro problema no concelho, que precisa de um plano global de mobilidade urbana sustentável. A nossa ligação ferroviária é, de facto, um constrangimento. Nós tínhamos aqui, até 2020, um serviço de Alfa diário, mais um de Intercidades. No tempo do Governo do Partido Socialista foi terminado o serviço Alfa.
É um problema para a competitividade do território não ter uma ligação rápida de longo curso a Lisboa, e ter uma ligação em linha única ao Porto, o que leva a que a ligação não se torne competitiva para a vida das pessoas. Demora demasiado tempo. Já manifestei ao senhor ministro das Infraestruturas a necessidade de, pelo menos, reforçar o serviço de Intercidades, uma vez que, aparentemente, o serviço Alfa, por várias razões, já não será algo que se vislumbre como viável num futuro próximo. Mas o reforço do serviço de longo curso e rápido ferroviário é importante.
Nesse pilar, quais as áreas que o plano de mobilidade suportará?
Assinámos um protocolo com o Banco Europeu de Investimento, que vai permitir a elaboração deste plano de mobilidade urbana sustentável. Precisamos de um plano global integrado. Parece-nos absolutamente fundamental uma visão de conjunto, de médio prazo, sobre as soluções de mobilidade para Guimarães, que é Capital Verde Europeia e tem toda a agenda verde na forma transversal das políticas públicas que quer implementar.
Precisamos de planear uma ligação rápida à futura estação de alta velocidade. Infelizmente, a estação de alta velocidade prevista a Norte do Porto não é na localização que defendo há muitos anos. Mas isso, mais uma vez, foi uma batalha perdida pelo Partido Socialista. Até podia ser no concelho de Braga.
Sempre defendi que deveria ficar geograficamente dentro do triângulo de Guimarães, Braga e Famalicão, onde estão concentrados o principal polo industrial e o principal foco populacional a Norte do Porto. E não, como está previsto, a noroeste de Braga, que remete Guimarães cada vez mais para uma posição periférica.
Mas não seria mais urgente, antes de pensar em alta velocidade, criar uma ligação eficiente ao atual mapa ferroviário?
Com certeza. Infelizmente, são decisões que estão tomadas. Queremos uma ligação requalificada ao Porto por linha férrea com um serviço rápido, porque é fundamental para acedermos por uma via à alta velocidade e aos trajetos de longo curso. E é fundamental o projeto do metrobus de ligação a Braga, à futura estação de alta velocidade. É absolutamente decisivo para a competitividade do território.
Considerando que foi eleito em 2024 para o parlamento nacional e pertence ao mesmo partido que o Governo, que exigências deixou?
No caso da ligação de Guimarães ao Porto, estudar a possibilidade de duplicação da linha e aumentar os comboios rápidos, o serviço de Intercidades de longo curso. É aquilo que defendo, o que continuarei a transmitir ao Governo, já o fiz enquanto deputado, continuarei agora a fazê-lo enquanto presidente de Câmara.
Por outro lado, a ligação por metrobus à estação de alta velocidade, a Braga. O estudo de trajeto de ligação para a primeira fase é de Guimarães até à zona norte de Guimarães, até à vila das Taipas.
Vai interligar com o metrobus pensado com Braga?
O metrobus é importante a dois níveis. Num primeiro, de ligação à estação de alta velocidade, mas é também um projeto fundamental para a ligação intra-concelhia, ou seja, do centro da cidade às vilas do concelho. O concelho tem um terço da população na cidade, dois terços fora.
A ligação da cidade às vilas é absolutamente fundamental para a vida das pessoas e para a sua qualidade de vida. O metrobus é a solução que apresentei aos vimaranenses para dar resposta a este desafio de mobilidade em transporte público de qualidade, seguro, fiável, que cumpre horários, tem um nível de conforto elevado.
O projeto prioritário, primeira fase, é a ligação à zona norte, à vila das Taipas. Tencionamos avançar até ao final do ano com o estudo prévio, para que depois possamos avançar com o estudo de execução no ano seguinte, e ter, ao longo destes quatro anos, o projeto do BRT em execução nesta primeira fase.
Quero, até ao final do mandato, ter a primeira fase de ligação do centro da cidade até à vila das Taipas e ao Ave Park em execução.
O que recebeu do anterior Executivo neste projeto?
O estudo preliminar já tinha sido contratado. Foi feito ao longo do último ano e meio.
E a articulação do metrobus com os concelhos vizinhos estava trabalhada?
Não. Havia uma grande indefinição política, nas eleições, divergências até dentro do próprio Partido Socialista, porque o presidente da Câmara anterior defendia este projeto e o candidato defendia coisa diferente. Neste momento, queremos acelerar para chegar à alta velocidade. É absolutamente decisivo.
O metrobus, nesta primeira fase, é a ligação a Norte, mas tem claramente a ambição de, no futuro, estender a ligação a Oeste, para a ligação a Famalicão, e numa terceira fase, ligação para Sul, até Lordelo, Santo Tirso, etc.
Quero caminhar para a gratuitidade dos transportes públicos. Espero implementar, durante este mandato, o transporte público gratuito rodoviário no concelho.
O metrobus é a única solução para melhorar a mobilidade?
Queremos operar uma grande transformação do transporte público rodoviário no concelho. Quero caminhar para a gratuitidade dos transportes públicos. Espero implementar, durante este mandato, o transporte público gratuito rodoviário no concelho, com a ambição de simplificar o acesso, aumentar a cobertura geográfica por todo por todo o concelho e aumentar a frequência, nomeadamente com os horários noturnos e de fins de semana.
Só conseguimos ter uma verdadeira alternativa fiável em transporte público quando ele for capaz de dar resposta à vida das pessoas. Aí, precisa de uma revolução do transporte público.

Está, nessa matéria, alinhado com o concessionário do serviço de transportes?
Vamos agora iniciar um processo negocial com o concessionário atual. Guimarães tem em curso um contrato de concessão com a empresa conhecida como Guimabus, que tem a concessão rodoviária do transporte público coletivo aqui em Guimarães. Vamos iniciar esse processo negocial rapidamente.
O meu objetivo é, ao longo deste ano 2026, ter esse processo negocial concluído. Trata-se de uma concessão e, portanto, tem de ser negociado com o operador.
Sabendo que há duas Comunidades Intermunicipais no Minho, e que outras CIM do país já criaram sistemas de gratuitidade a abranger múltiplos concelhos, há possibilidade de ter o Minho ligado em transporte gratuito?
Defendo claramente que deve haver interoperabilidade à escala regional. Neste momento, deve passar por haver interoperabilidade, em primeira instância, com a CIM a que pertencemos, a CIM do Ave. Está a trabalhar-se para interoperabilidade também entre a CIM do Ave e a CIM do Cávado, no novo procedimento contratual que vai ser lançado em 2028. Pode ser concessão, pode ser um outro modelo que está a ser analisado, de prestação de serviços.
Deve haver interoperabilidade à escala regional. Neste momento, deve passar por haver interoperabilidade, em primeira instância, com a CIM a que pertencemos, a CIM do Ave. Está a trabalhar-se para interoperabilidade também entre a CIM do Ave e a CIM do Cávado, no novo procedimento contratual que vai ser lançado em 2028.
Está a ser trabalhado e sou claramente defensor disso. O problema é que Guimarães, desse ponto de vista, estava a dar passos para trás. Quando cheguei, Guimarães tinha um acordo de que a partir de 2028 este operador passava a ter exclusividade. Estávamos a dar um passo atrás, deixávamos de ter interoperabilidade com o operador da CIM do Ave, e isso não aceito.
Como se chegou aí?
Ao longo do último ano, houve um processo negocial entre o Executivo anterior e o operador, que envolvia várias dimensões. Uma das dimensões desse acordo previa que, a partir de 2028, o operador teria exclusividade, o que, do meu ponto de vista, era claramente lesivo para os interesses de Guimarães. Não só pela perda de interoperabilidade, como isso significava os vimaranenses perderem cerca de dois milhões de quilómetros anuais, atualmente prestado pelo operador da CIM do Ave.
Se abdicarmos disso, quem fica a perder são os utilizadores. Não quero agora tecer considerações de por que é que foi assim. O que é certo é que não concordo, já disse claramente, transmiti isso ao operador, esse acordo não vai ser posto em prática.
Vai ser revertido e nós vamos renegociar um novo acordo, com vista à gratuitidade, aumento da frequência, da comodidade de simplificação de acesso e aumento da cobertura concelhia. E tem que ter essa interoperabilidade com a CIM do Ave, a CIM do Cávado e, desejavelmente, até devemos trabalhar para conseguir alguma interoperabilidade numa esfera regional mais abrangente.

Abordar a mobilidade não pode excluir uma das críticas ouvidas na campanha para as autárquicas, o constrangimento de trânsito. Vai fazer algo para resolver a situação?
Guimarães tem fortíssimos constrangimentos rodoviários, porque nos últimos 20 anos muito pouco, ou nada, foi feito. Um dos grandes constrangimentos é o descongestionamento do nó de Silvares, de acesso à autoestrada, e a construção de um “tramo” de ligação da variante de Creixomil à estrada nacional 206, por forma a descongestionar esse nó de acesso à autoestrada. Uma promessa antiga, que me comprometi a resolver num espaço de um ano e estou muito convencido que vou resolver isso no espaço de um ano.
Temos outros constrangimentos, desde logo um acesso direto ao hospital, e resolver a requalificação das estradas nacionais, porque a ligação da cidade às vilas é feita essencialmente por estradas nacionais que não têm requalificação há várias décadas. Nomeadamente, para começar, às Taipas, a ligação a Braga, a Estrada Nacional 101. É fundamental a requalificação desta estrada.
A ligação de Guimarães às Taipas devia ser quase vista como uma avenida urbana, porque é a ligação dos dois principais eixos populacionais do concelho, do centro da cidade e da vila das Taipas e todas as freguesias ali à volta. E depois a ligação a Sul, até Lordelo, no caminho para Santo Tirso, que é a Estrada Nacional 105. A intervenção na requalificação rodoviária é também importante e vamos fazê-lo ao longo destes quatro anos.
A ligação da cidade às vilas é feita essencialmente por estradas nacionais que não têm requalificação há várias décadas. Nomeadamente, para começar, às Taipas, a ligação a Braga, a Estrada Nacional 101. É fundamental a requalificação desta estrada.
É o Estado central que deve fazer a requalificação, ou a vossa preferência seria a desclassificação da estrada?
Passa pela conjugação de tudo isso. Na Estrada Nacional 101 vamos pedir a desclassificação da estrada, até tendo em conta também este projeto de metrobus que vai, em grande parte do seu trajeto em cima da EN101. É importante para nós aproveitarmos esta oportunidade para fazer a sua requalificação e ao mesmo tempo, a construção do metrobus.
Para esse efeito, parece-nos que será mais célere a sua execução com o pedido da dominialidade para a esfera do município. É um dos assuntos concretos em cima da mesa e já temos visto tudo preparado para o solicitar, porque é fundamental para a requalificação e também para a implementação do projeto do metrobus em termos de celeridade.
Alguns destes projetos passam pela intervenção municipal, outros destes projetos passam por uma articulação com as Infraestruturas de Portugal. Agora, é necessário que as Infraestruturas de Portugal estejam alinhadas com a necessidade de melhorar e requalificar estas vias para as populações e, portanto, não podem ser fator obstaculizador de que haja melhoramentos nestas vias. Estou convencido que vamos conseguir um bom diálogo.
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Mobilidade em Guimarães: “Queremos acelerar para chegar à alta velocidade”
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