O choque como moeda da política
O problema nunca foi existir quem fale no registo do choque, isso é legítimo numa democracia plural. O problema é o país acreditar que esse é o único registo possível.
Nos últimos anos, o debate político português transformou-se silenciosa, mas profundamente. Não apenas pela ascensão de discursos disruptivos, mas pelo modo como os incentivos comunicacionais passaram a premiar a atenção sobre a substância. Um fenómeno identificado internacionalmente, a política deixa de ser disputa de argumentos e torna-se corrida pela visibilidade, onde a emoção circula mais rápido que a explicação e a performance vale tanto ou mais do que a ideia.
O choque tornou-se uma moeda forte do espaço público. O conflito viraliza, a solução não, o algoritmo amplifica o que indigna, o espaço mediático amplifica o que o algoritmo recompensa, e os atores políticos adaptam-se. Portugal não escapa e, muitas vezes, o que parece radicalização é mera adaptação a um mercado de atenção distorcido, como mostram leituras críticas internacionais sobre plataformas digitais e debate democrático.
Quem domina o registo emocional fixa a agenda, define o ritmo e condiciona a liderança. Nos debates presidenciais, isso traduz-se em interrupções coreografadas, frases pensadas para o digital, indignação calculada. Não é apenas teatralização, é internalização de um novo sistema operativo comunicacional.
Essa lógica torna‑se especialmente visível nos cartazes de rua. Fórmulas como “Futuro Seguro”, “O valor da experiência”, “Imagina Portugal” ou “Contigo” funcionam como marcas de presença, não como leitura do país.
Os cartazes de André Ventura são, nesse sentido, reveladores. Apesar do discurso de rutura, recorrem a fórmulas identitárias simples, pensadas para gerar confronto e maximizar impacto emocional. A promessa de choque não se traduz em imaginação política, mas em afirmação simbólica de fronteira. Não é por acaso que alguns desses cartazes extravasaram o plano da controvérsia mediática e foram objeto de condenação judicial, com um tribunal a considerar que o choque produzido deixava de ser expressão política legítima para se tornar prática discriminatória. Fica exposto o limite de uma política que prefere o impacto à construção e o conflito à ideia de país.
Em contraste, outros candidatos apostam numa estética de autoridade silenciosa e competência implícita, onde a imagem substitui o discurso e a ausência de conflito é apresentada como virtude. Mas também aí o cartaz funciona mais como presença do que como proposta, evita o choque, mas evita igualmente a imaginação.
Essa uniformização revela algo mais profundo que falta de criatividade, medo de significar. Num ecossistema em que tudo é recortado e amplificado, a linguagem visual opta pelo caminho mais seguro. A política grita nos debates, mas encolhe na imaginação. A crise não é só de tom ou estilo, mas de ambição discursiva.
O resultado é uma erosão da capacidade coletiva de interpretar a realidade. A política-espetáculo comprime a complexidade, problemas densos tornam-se slogans, a intensidade substitui a explicação. Portugal não observa à distância, vive esta dinâmica.
Apelar à moderação é insuficiente. A pergunta é, como reconstruir um registo comunicacional competitivo sem ser capturado pelo choque e, ao mesmo tempo, sem abdicar da ambição criativa? Um registo capaz de gerar atenção sem sacrificar profundidade, mobilizar sem dramatizar, afirmar sem gritar.
O problema nunca foi existir quem fale no registo do choque, isso é legítimo numa democracia plural. O problema é o país acreditar que esse é o único registo possível.
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