Os três sinais de outro Natal
Números de uma semana diferente: 1.300 drones, 1.200 bombas aéreas, nove mísseis e 90 mil milhões de euros.
Estamos nas vésperas do Natal, com tudo o que isso possa significar, se bem que para uma desejosa maioria – independentemente de credos – possa significar um tempo de Paz. Há quem diga, ser também um tempo de sinais.
E é curioso pensarmos que num plano simbólico e teológico, os três sinais do Nascimento de Jesus (o Anúncio aos Pastores, o Sinal para os Pastores e os Reis Magos) formam uma narrativa coerente sobre a universalidade e a natureza paradoxal da encarnação. Num plano geopolítico, a simbologia destes três sinais do Nascimento de Jesus pode ser lida como uma narrativa sobre legitimidade, poder e ordem internacional.
Há uns dias, falei da relevância do Relatório Draghi, com foco num conjunto de amplas recomendações para Portugal, que não sofre apenas de falta de recursos, mas sobretudo de problemas de coordenação, velocidade e foco estratégico.
No último domingo ficámos a saber pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky que a Rússia atacou a Ucrânia na última semana com cerca de 1.300 drones de ataque, quase 1.200 bombas aéreas guiadas e nove mísseis.
A União Europeia, vai emprestar cerca de 90 mil milhões de euros por meio de dívida conjunta nos mercados financeiros para financiar apoio à Ucrânia em 2026-2027. Passou-se ao “plano B” dado o “plano A”, um empréstimo de reparações com base nos ativos russos imobilizados, não ter obtido consenso, designadamente devido à rejeição da Bélgica.
A emissão de dívida conjunta pela União Europeia para financiar o apoio à Ucrânia não implica automaticamente que os Estados-Membros tenham de aumentar os impostos nos seus países, a curto prazo, mas indiretamente no futuro sim, dependendo de como as contas públicas e o orçamento europeu evoluam.
O facto da União Europeia contrair mais dívida pode criar pressões orçamentais futuras, que poderão levar a aumentos de impostos ou contribuições nacionais por duas vias principais: a necessidade de ajustar o orçamento da UE a longo prazo, caso as receitas não sejam suficientes para cobrir os custos de reembolso e juros — o que pode implicar maiores contribuições dos Estados-Membros ou novos impostos europeus no futuro; e a pressão sobre as finanças públicas nacionais, se os governos decidirem antecipar custos futuros (por exemplo, reforçando receitas fiscais para cobrir o sua quota-parte de responsabilidades associadas ao orçamento da UE ou às suas próprias dívidas), sobretudo em países com défices elevados. Estamos bem cientes disto, certo?
O recente pedido de reunião de Vladimir Putin a Emmanuel Macron poderá significar uma tentativa de reabrir canais diplomáticos diretos com uma potência europeia nuclear e relativamente autónoma dentro da NATO, em fase de gestão de riscos e comunicação estratégica, do que propriamente avanços substanciais imediatos na questão do conflito.
E nós por cá? Face a um possível cenário de guerra, ignorar as recomendações de Draghi revela não só falta de prudência, mas também uma inércia para uma economia que se deseja relevante e estruturalmente não vulnerável.
E enquanto Portugal parece acordar de um sono longo, outros países, como por exemplo, a Polónia já adotaram uma economia de guerra implícita, com um aumento massivo de investimento em defesa, energia e indústria pesada, acelerou o licenciamento para as infraestruturas críticas, com uma (re)industrialização orientada para dual-use (civil/militar), através de uma forte coordenação Estado–indústria.
Na Alemanha, apesar da elevada fatura dos custos energéticos e da lentidão administrativa, vimos a transição desta “potência económica” para a “economia de segurança”, criando fundos extraordinários para defesa e indústria estratégica, apoios diretos à energia para evitar colapso industrial e o reforço do papel da KfW (Kreditanstalt für Wiederaufbau) como banco de guerra económico. Porque a Alemanha sabe bem que sem energia acessível e com excesso de burocracia, as economias, mesmo as mais fortes, caem.
França optou por uma soberania estratégica explícita, através duma governação centralizada, aumentando a capacidade de resposta, sendo o Estado o “estratega” com uma aposta forte em energia nuclear, em defesa e indústria dual (tal como a Polónia), numa continuidade entre política industrial e defesa. E até a nossa vizinha Espanha teve uma adaptação pragmática, com menos retórica e mais execução, através do uso agressivo do PRR para a energia, hidrogénio e microeletrónica, evidenciando uma estratégia de autonomia energética explícita.
Estas são umas contas fáceis, difícil é termos consciência de que Portugal continua a ser um ator periférico com capital de legitimidade, mas com margem limitada de poder material. Tal como os “pastores” há mais de dois mil anos, Portugal não está no centro de decisão nuclear da geopolítica europeia, mas pode beneficiar de contextos de transição para exercer softpower, mediação diplomática e alinhamento estratégico com novas prioridades (defesa europeia, Atlântico, África, lusofonia).
No curto prazo, que é já em 2026, poderemos ter três efeitos prováveis: uma maior dependência das decisões tomadas no núcleo da UE (nomeadamente em matéria de dívida conjunta, defesa e apoio à Ucrânia), uma oportunidade de ganho político pelo alinhamento disciplinado com a agenda europeia dominante, e o risco de absorver custos económicos indiretos sem capacidade de os moldar.
Para Portugal, que este Natal traga lucidez para navegar entre centros de poder, prudência para assumir custos partilhados e confiança de que a estabilidade e a dignidade — tal como na manjedoura — continuam a ser fontes reais de influência. Um Feliz Natal, com esperança serena num futuro mais justo e equilibrado.
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