
Unidos venceremos
Felizmente temos Joana Marques para nos mostrar esses mundos e nos fazer rir da pobreza elevada a “youtuber” ou “tik-toker” ou outra porcaria desse tipo.
Em 1957 Sidney Lumet filmou “12 angry man”, um dos filmes que mais gosto de rever quando a aleatoriedade da oferta permite. Henry Ford (mr. Davis) era um ator maravilhoso e a personagem assenta-lhe na perfeição. Um homem sensato e livre pode vencer o egoísmo, o preconceito ou a menoridade individual se não desistir de ser humano, de pensar pela sua cabeça, de ousar desafiar a ignorância de meras maiorias pequenas.
Fomos criados num mundo em que, apesar do ângulo, tendíamos a procurar uma verdade que tendia ao universal. O Bem e o Mal eram conceitos relativamente claros, até porque a moral católica ajudava. Depois veio a globalização tecnológica e os algoritmos — e Deus foi substituído pelo ecrã ou pelo smartphone. Desculpem a simplificação, mas ajuda.
O hiper-relativismo dos tempos obriga a redobrada atenção: andam muitos mentirosos à solta e tudo se confunde. Esta semana recebi um vídeo em que dois velhos amigos se beijam compulsivamente, num demorado e apaixonado ‘french kiss’. A imagem é falsa, uma brincadeira feita em casa, mas se circulasse em alguns meios menos atentos poderia provocar danos irreversíveis, divórcios, sei lá, tragédias.
O acesso fácil à tecnologia devia ser uma conquista do povo e da democracia, mas tem sido, em boa medida, uma vantagem de todos aqueles que sonham suprimir liberdades. Ou de ignorantes. Nesta tempestade de lixo irromperam “influencers” patéticos (muitos não sabem somar 2+4 ou articular duas frases). Felizmente temos Joana Marques para nos mostrar esses mundos e nos fazer rir da pobreza elevada a “youtuber” ou “tik-toker” ou outra porcaria desse tipo.
A banalização da estupidez, da boçalidade e da ignorância conluiou-se com a facilidade de emitir e criar canais graças à banda larga e ao smartphone. Nunca tantos foram tão mal informados, nem nunca tantos patetas alcançaram tamanhas audiências.
Este aparente paradoxo obriga todos os profissionais de comunicação a revisitarem métodos, táticas e princípios éticos (se sentir que eles lhe estão a faltar). Na era do vale tudo e em que nada vale nada impõe-se “gravitas”, experiência e o sangue-frio de um piloto de F1. Não tergiversar, manter o plano, nunca abicar da razão, respirar fundo. Muito fundo.
Para que o plano de ataque à desinformação resulte, temos também de pedir aos meios e aos jornalistas que cumpram bem o seu papel, que não se deixam arrastar para o poço da morte do “são todos iguais” — porque não são todos iguais, porque há diferenças e são essas diferenças a essencialidade da sua atividade.
Um dos primeiros passos deste percurso passa pela capacidade de se libertarem dos vícios da campânula, da conversa endogâmica que apenas gera anomalias genéticas e rituais circulares que subalternizam o que é importante e valorizam o acidental ou o desnecessário. Na era do soundbite e do clique talvez não seja fácil, mas vale o esforço porque a luta contra a ignorância e as novas inquisições é civilizacional e é possível.
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