Vêm aí os americanos?

Uma cisão na NATO viria no pior momento, quando o processo de paz na Ucrânia — mediado pelos EUA — está longe de um desfecho.

Ainda o mundo nem tinha bem digerido a ação militar dos EUA nos Venezuela, já Donald Trump apontava a mira a potenciais intervenções em outras zonas do mundo. Cuba, Colômbia e, para surpresa de muitos (ou talvez não) a muito europeia Gronelândia.

Trump não deixou muitas dúvidas sobre o real interesse no território parte do Reino da Dinamarca, colocando todas as opções em cima da mesa: comprar (tal como fizeram em 1876 no Alasca, está até disposto a dar dinheiro aos habitantes da ilha ártica) ou uma ação militar. Na Europa, a reação oscilou entre o choque e a estupefação, mas quem tinha dúvidas que esta intenção é para ser levada a sério, à medida que os dias passam começa mesmo a pensar ‘e se?’.

Quem não ficou com dúvidas foi o ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, após uma reunião na Casa Branca com o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o Secretário de Estado, Marco Rubio. “É claro” que o Presidente norte-americano “ambiciona conquistar a Gronelândia”, disse o ministro Lars Løkke Rasmussen.

Uma intenção que pode representar uma verdadeira implosão da NATO. Para a primeira ministra dinamarquesa Mette Frederiksen não há dúvidas — “se os Estados Unidos optarem por atacar militarmente outro país da NATO, será o fim de tudo, incluindo da nossa NATO e, por conseguinte, da segurança estabelecida desde o final da Segunda Guerra Mundial”, disse mal Trump acelerou nas declarações de interesse na Gronelândia — e o mesmo disse em entrevista ao ECO/eRadar Andrius Kubilius, durante a sua recente visita a Portugal. O comissário europeu de Defesa e do Espaço espera “sinceramente” que os americanos não enviem militares para a Gronelândia: “Seria um desastre total, pois significaria o fim da NATO.”

Uma cisão na Aliança que viria no pior momento, quando o processo de paz na Ucrânia — mediado pelos EUA — está longe de um desfecho.

O certo é que o tom bélico do ‘amigo americano’ — com direito a memes publicados na conta da Casa Branca com Huskies e trenós na rede social X — levou vários países europeus, a pedido da Dinamarca, a enviar tropas para a ilha ártica, em exercícios.

É neste ambiente de crescente tensão entre aliados que Ursula von der Leyen fez esta semana vários anúncios em catadupa. Primeiro, a aprovação pela Comissão Europeia de um empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, dos quais 60 mil milhões para compra de equipamento, com foco na indústria de defesa europeia, mas abrindo espaço a aquisições fora da UE, caso o material não esteja disponível em tempo útil. Ironicamente, face ao atual momento, fontes europeias, ouvidas pelo Euroactiv, admitem que 10 mil milhões poderão ser usados para aquisições fora da UE, entenda-se EUA.

Logo de seguida, a aprovação de 38 mil milhões dos 150 mil milhões de euros do programa SAFE. Oito países — incluindo Portugal, que tem uma fatia de 5,8 mil milhões — deverão receber os primeiros montantes em março.

E, por fim, em Chipre, fez um ‘pequeno grande anúncio’: querem uma nova estratégia de defesa para o Continente. “É tempo para uma nova abordagem europeia a tudo isso. E, no ambiente que temos neste momento em segurança e defesa, decidimos que é tempo [durante a presidência cipriota] de apresentar uma nova estratégia europeia de segurança”, disse a presidente da Comissão Europeia. E nada mais.

Curioso com o que aí vem? Nós também.

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