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“A disrupção com os direitos desportivos em sinal fechado é o desafio deste ano”, diz Daniel Oliveira

Rafael Ascensão,

A ideia foi defendida no Encontro de Produtores Independentes de Televisão, evento que visa refletir e debater os temas do audiovisual internacional e nacional.

O grande desafio deste ano passa pela disrupção que vai existir com os direitos desportivos que foram para sinal fechado a partir da próxima época“, defendeu Daniel Oliveira, diretor geral de entretenimento da SIC, na nona edição do Encontro de Produtores Independentes de Televisão.

Esta alteração vai ter impacto ao nível do racional económico para o mercado português e para os canais que vão deixar de transmitir as competições europeias, sendo que a TVI transmitia a Liga dos Campeões e a SIC a Liga Europa, disse o profissional da SIC no evento organizado pela Associação de Produtores Independentes de Televisão (APIT).

Além de os canais deixarem de ter essa audiência, é importante analisar como os generalistas vão ser impactados pela transmissão desses jogos noutras plataformas, “não só pelo crescimento que vão ter, mas também os canais que acompanham os jogos”.

Que impacto é que isso vai ter na CMTV? Acho que isso vai ser algo que os generalistas vão ter de se adaptar e ter uma programação que seja competitiva“, acrescentou.

Por outro lado é preciso também perceber se é possível “reforçar os mecanismos contra a pirataria”, que já tem um peso grande, segundo Daniel Oliveira, que referiu a existência de cerca de 800 mil boxes piratas em Portugal, número que pode vir a agravar-se perante esta perspetiva de o futebol ficar “ainda mais fechado”.

José Fragoso, diretor de programas da RTP, defendeu então que o combate à pirataria “devia ser mais assertivo”. “Conhecemos muita gente que faça pirataria mas não conhecemos ninguém que tenha sido preso por isso“, disse.

Já de forma geral, o grande desafio da indústria audiovisual passa por continuar a gerar conteúdo, seja qual a forma que seja distribuído, defendeu também Daniel Oliveira.

“Se uma novela é vista de uma vez ao fim de semana, ou se o jovem vê no smartphone ou no televisor tradicional, para nós isso é mais ou menos indiferente. Acho que o grande desafio que a indústria tem passa por continuar a gerar conteúdo, acho que é esse o nosso core: conteúdo e inventário de vídeo“, afirmou.

Segundo o profissional da SIC, os operadores com o serviço de Playce também já “conseguem monetizar de alguma forma o modo como esses conteúdos são distribuídos e visionados”.

Um dos desafios que os canais têm é assim o de como conseguir “captar a atenção das pessoas” nessas diferentes plataformas. “Porque nós não concorremos só uns com os outros [generalistas] concorremos pela atenção que as pessoas dedicam ao tempo que têm para consumir conteúdos de televisão“, acrescentou, nomeadamente com outras plataformas de streaming, que estão também a fazer uma adequação ao modelo que era o dos canais generalistas, tendo já começado a incorporar publicidade, por exemplo.

Concordante com a ideia de que já não se fazem canais lineares, José Fragoso disse também que o desfio é garantir que todos os públicos – desde o que assiste ao Zig Zag até às pessoas que veem o Preço Certo – estão servidos, “quer na oferta linear, quer na disponibilização desses conteúdos em plataforma”.

Estamos num momento de transição. Nós também somos plataforma. Daqui a uns anos vamos todos ser plataforma, a questão é como essas plataformas interagem, como estão montadas, estruturadas, produzem, e dividem receitas entre elas. Mas somos todos plataformas“, defendeu.

Para João Patrício, diretor executivo de entretenimento e ficção da TVI, o desafio diário é “conhecer o público, não desiludir os nativos, mas simultaneamente ir piscando o olho a outros que estão disponíveis”.

Sobre o tema da inteligência artificial, que pautou a edição do encontro deste ano da APIT, João Patrício considera que esta deve ser vista como algo facilitador do trabalho mas que não o pode desumanizar.

Tenho resistências em acreditar que a televisão vá ser toda feita por máquinas. Isso não vai acontecer“, afirmou o diretor executivo de entretenimento e ficção da TVI, defendendo que esta tecnologia ajuda de facto a embelezar o trabalho final na produção audiovisual, mas que não pode “engolir” todo o processo humano.

Já Daniel Oliveira considera que a IA traz uma série de mecanismos que podem ser “virtuosos” para a produção de conteúdos de ficção. “Vamos caminhar para aí, há perigos, mas acho que aquilo que há de potencial positivo vai acabar por ser explorado. O desafio passa muito por como conseguimos utilizar essas ferramentas”, afirmou, acrescentando que na indústria audiovisual não vai haver nenhum “planalto”, mas que se vai antes estar em constante disrupção.

Tenho mais medo da estupidez natural do que da inteligência artificial”, disse José Fragoso, por seu lado, defendendo que os algoritmos podem ser treinados de várias formas, inclusive numa ótica de serviço público que pode ajudar a levar as pessoas a verem outras coisas.

Relembrando que o entretenimento foi um setor que despertou rapidamente para este tema – exemplificando com as manifestações que decorreram nos EUA – José Fragoso disse, no entanto, que “nunca podemos ficar descansados” e que têm de haver códigos de conduta e os mesmos serem respeitados.

Os três profissionais concordaram com a necessidade de se trabalhar a pluralidade da representação de género nos conteúdos audiovisuais e na sua produção.

José Fragoso adiantou que é muito importante que esse trabalho seja feito na ficção assim como a informação e Daniel Oliveira defendeu que ainda há muitos passos para dar mas que o caminho está a ser feito. Já João Patrício diz que esta preocupação tem de ser encarada numa lógica “até de cidadania de todos nós” e que este caminho tem ser percorrido da forma mais justa possível, ressalvando que “todos temos uma responsabilidade muito grande nesta matéria”.

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