IA trava salários de jovens nas auditoras lá fora, por cá setor diz que não
As maiores consultoras congelaram os salários dos recém-licenciados pelo terceiro ano consecutivo lá fora, com a IA a obrigar a uma mudança na estrutura. Por cá, o setor afasta esta tendência.
A implementação da inteligência artificial (IA) lá fora já está a ter impacto nos salários oferecidos aos recém-licenciados por parte das grandes auditoras e consultoras. Há um congelamento das remunerações de quem está a entrar no mercado de trabalho, numa altura em que esta nova tecnologia obriga a uma transformação do setor, forçando as empresas a reconsiderarem a sua estrutura tradicional. Esta tendência, porém, ainda não chegou cá. As maiores organizações nesta indústria garantem ao EContas que não há um travão aos salários dos mais jovens, havendo, sim, uma maior procura por novas capacidades e uma aposta em formações adaptadas às necessidades atuais.
As maiores consultoras nos EUA congelaram os salários dos recém-licenciados pelo terceiro ano consecutivo, escreve o Financial Times (acesso pago). As ofertas de trabalho para 2026 de empresas como a McKinsey ou o Boston Consulting Group mostram que o nível salarial se manterá igual a 2025, de acordo com a Management Consulted, uma consultora que ajuda os estudantes durante o processo de entrevista, e fontes próximas destes processos de recrutamento. No caso das quatro maiores auditoras – as chamadas big four (Deloitte, EY, KPMG e PwC) -, os salários de entrada estão estagnados desde 2022.
Estas ofertas, refere a publicação, sugerem que está a ser adotada uma abordagem cautelosa relativamente à contratação por parte destas empresas que estão entre os maiores recrutadores de estudantes recém-licenciados e de MBA. “Existem melhorias reais de produtividade com a implementação da IA dentro das empresas”, afirma Namaan Mian, CEO da Management Consulted, notando que a capacidade de extrair valor de um número menor de funcionários juniores “está a colocar pressão descendente sobre os salários”.
Esta não é, porém, a realidade em Portugal. Numa altura em que há uma aposta crescente na implementação de IA, os jovens continuam a ser uma peça essencial neste processo. “Não existe um congelamento salarial. Os recém-licenciados procuram-nos por terem a expectativa de aprendizagem e crescimento, mas também porque ambicionam uma remuneração compatível com a sua experiência e dedicação. As nossas carreiras possibilitam esse mesmo crescimento”, afirma fonte oficial da PwC ao EContas, indicando que os “salários dos recém-licenciados estão em linha com os valores do que tem sido o salário médio em Portugal”.
"Relativamente a questões salariais, a KPMG não comenta valores nem práticas, no entanto podemos confirmar que presentemente não existe qualquer congelamento salarial motivado pela IA.”
O mesmo acontece na KPMG, que “não comenta valores, nem práticas”, mas “confirma que presentemente não existe qualquer congelamento salarial motivado pela IA”. A auditora refere que, “ao longo dos anos, tem vindo a apostar continuamente nos novos talentos, com o recrutamento anual de cerca de 300 recém-licenciados que são integrados nas mais diversas áreas da empresa, com um acompanhamento claro e com um processo de onboarding contínuo, que garante a sua melhor adaptação ao contexto empresarial”.
Apostar na formação e em novas skills
A diferença, refere outra fonte do setor, é que está a ser dada formação mais focada nas novas tecnologias, com os mais jovens a terem já no seu ADN estas capacidades viradas para estas ferramentas que estão a obrigar a uma mudança desta indústria, assim como de todos os setores da economia. Por outro lado, a IA está a mudar os processos de recrutamento, mas no sentido em que as empresas procuram hoje nos candidatos estas mesmas skills. “O domínio de novas tecnologias, como a IA, é uma competência relevante, a juntar a outras, nos processos de recrutamento que desenvolvemos”, refere a auditora liderada por Vítor Ribeirinho, que está agora à frente do novo ‘cluster’ KPMG Portugal e Angola.
"Para processos que possam ser desenvolvidos por IA, esta poderá substituir algumas tarefas humanas, obtendo ganhos de eficiência. Contudo, nas pessoas que recrutamos, procuramos caráter, sentido crítico, integridade e empatia, e estas características não são capacidades encontradas na IA, pelo que serão mais valorizadas.”
“Para processos que possam ser desenvolvidos por IA, esta poderá substituir algumas tarefas humanas, obtendo ganhos de eficiência. Contudo, nas pessoas que recrutamos, procuramos caráter, sentido crítico, integridade e empatia, e estas características não são capacidades encontradas na IA, pelo que serão mais valorizadas”, refere, por outro lado, a PwC, prevendo continuar a contratar recém-licenciados, com o foco na capacidade de lidar com a transformação digital.
Recentemente, Mohamed Kande, chairman global da PwC, admitiu, em entrevista à BBC, que o crescimento da IA pode eventualmente levar a uma menor contratação de jovens licenciados. “Em teoria, tal seria uma possibilidade. No entanto, como o nosso negócio tem verificado um crescimento sustentado e robusto nas várias áreas, esperamos continuar a contratar a um ritmo francamente positivo, contudo procurando competências diferenciadoras”, conclui fonte oficial da auditora em Portugal. O EContas contactou a EY e a Deloitte, mas não quiseram comentar.
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