Inovação é a melhor ‘arma de defesa’ da Europa

"A Europa tem a tecnologia e o talento, mas precisa de um ecossistema que acelere a implementação desta infraestrutura à escala europeia", aponta Juan Luis Vílchez, partner da Roland Berger.

Num cenário de ameaças híbridas crescentes e incerteza geopolítica, a sobrevivência estratégica da Europa depende da sua capacidade de superar os adversários através da inovação. Agilidade regulatória, integração de diferentes stakeholders do setor público e privado e financiamento à escala europeia deverão ser os pilares de uma nova visão de defesa do continente, recomenda a Roland Berger no estudo “Strength through innovation. A vision for a new innovation ecosystem for European defense”.

“A autonomia estratégica da Europa depende cada vez mais de transformar a inovação em infraestruturas críticas resilientes e escaláveis, desde capacidades industriais e cadeias de abastecimento a sistemas digitais para a defesa, onde a independência energética se torna um fator estratégico fundamental. A Europa tem a tecnologia e o talento, mas precisa de um ecossistema que acelere a implementação desta infraestrutura à escala europeia. Sem ela, a inovação permanecerá fragmentada e a capacidade de dissuasão será insuficiente”, afirma Juan Luis Vílchez, partner da Roland Berger.

Após a invasão russa da Ucrânia, o tema da defesa da Europa ganhou prioridade nas agendas políticas, com a tensão geopolítica com aliados a tornar ainda mais premente a necessidade do continente ganhar maior autonomia ao nível das suas capacidades de defesa. Mas a região enfrenta a realidade de um desinvestimento de anos na indústria — o chamado ‘défice da paz’ — que, neste momento, não tem capacidade de satisfazer as necessidades de rearmamento dos países.

A Europa tem a tecnologia e o talento, mas precisa de um ecossistema que acelere a implementação desta infraestrutura à escala europeia. Sem ela, a inovação permanecerá fragmentada e a capacidade de dissuasão será insuficiente.

Juan Luis Vílchez

Partner da Roland Berger

A inovação, acelerando o ciclo de entrada das soluções em campo, poderá uma possível arma. Mas também aqui parte de uma situação de desvantagem. Enquanto os EUA alocam cerca de 0,37% do PIB à investigação e desenvolvimento (I&D) de defesa, a União Europeia fica-se pelos 0,03%, limitando a capacidade da Europa escalar tecnologias emergentes.

Fonte: “Strength through innovation. A vision for a new innovation ecosystem for European defense”, da Roland Berger.

 

Há ainda um fosso entre as duas regiões, no que toca ao financiamento de startups deste setor. Em 2025, aponta a Roland Berger, os investidores de venture capital americanos registaram 444 operações de investimento vs 295 europeus, mas em termos de volume de capital movimento a discrepância é evidente: um total de 14,4 mil milhões de euros vs 3,27 mil milhões do lado europeu, aponta a consultora.

 

Fonte: “Strength through innovation. A vision for a new innovation ecosystem for European defense”, da Roland Berger.

 

Este subinvestimento é agravado por uma repetida incapacidade de atingir até mesmo as metas definidas internamente. Embora o Conselho Ministerial de Direção da Agência Europeia de Defesa (EDA) tenha estabelecido metas ambiciosas — como destinar 20% do gasto total em defesa à aquisição de equipamentos, 35% do gasto em equipamentos a projetos colaborativos europeus, 2% do orçamento total de defesa à pesquisa e tecnologia (P&T) e 20% do gasto em P&T à P&T colaborativa europeia — a Europa frequentemente não as alcança”, alerta o estudo.

“Recentemente, apenas a primeira meta foi atingida, enquanto as metas de aquisição colaborativa e P&T permanecem em grande parte não cumpridas”, aponta.

Fonte: “Strength through innovation. A vision for a new innovation ecosystem for European defense”, da Roland Berger.

 

O que nos ‘ensina’ a Ucrânia?

A situação vivida pela Ucrânia e Israel podem dar alguns ensinamentos em como a Europa pode acelerar o seu setor de defesa, encurtando a sua curva de aprendizagem.

Concentrando no caso ucraniano, o que podemos retirar? Uma abordagem holística envolvendo empresas de defesa públicas e privadas, operadores industriais fora e dentro do setor de defesa, o setor IT e o ecossistema de startups. “Engenheiros, empreendedores e soldados operam em ciclos de desenvolvimento curtos, com protótipos frequentemente testados em combate poucos dias após a conceção. O fracasso é aceito como uma etapa necessária no processo de aprendizagem, e o feedback entre a linha de frente e o laboratório é direto e contínuo”, descreve a consultora no estudo. “Esse ambiente recompensa velocidade, adaptabilidade e a disposição para experimentar — qualidades que se tornaram estratégicas”, reforça.

Há ensinamentos que podem ser retirados do leste europeu. Sven Weizenegger, diretor do Cyber Innovation Hub da Bundeswehr, sintetiza: “A Europa Ocidental não está em paz nem em guerra; não podemos testar como a Ucrânia – mas podemos adaptar seus mecanismos de feedback e velocidade”, diz citado pelo estudo.

… e o que recomenda a consultora?

A capacidade de dissuasão da Europa depende de um ecossistema de defesa resiliente e impulsionado pela inovação, construído em torno de três pilares: uma estrutura regulatória e de aquisição ágil que tolera riscos e acelera a entrega de capacidades; uma colaboração mais estreita entre as Forças Armadas, a indústria, as startups e a pesquisa; e um financiamento previsível e estrategicamente alinhado”, aponta a consultora. Em conjunto, esses fatores garantem que a Europa “possa aproveitar sistematicamente a inovação, ampliar as tecnologias emergentes e responder rapidamente às ameaças em evolução”.

Tendo isso por base o que recomenda a consultora?

  • Regulação e estruturas de procurement mais ágeis:Vias rápidas” ou vias de aquisição simplificadas ao lado da aquisição tradicional — uma lancha ao lado do navio-tanque — podem permitir a contratação rápida de protótipos, autorizações temporárias para avaliação em campo e transições mais rápidas para a produção em série”, refere a consultora. “O navio-tanque continua essencial para grandes programas estratégicos que exigem rigor e estabilidade. Mas, ao lado dele, as agências de aquisição precisam de uma capacidade de lancha: equipes pequenas e capacitadas com contratação simplificada, autoridade delegada e orçamentos flexíveis”, diz. Essas equipas podem integrar startups e testar tecnologias comerciais, ou executar sprints de desenvolvimento curtos sem serem prejudicados pela inércia do sistema principal”, sintetiza.
  • Ecossistema de defesa integrado com uma colaboração mais próxima entre todos os stakeholders: “Para garantir uma dissuasão sustentada, as Forças Armadas devem ser participantes ativas na inovação, fornecendo sinais precoces de procura, sinais rápidos de treino e operações e prioridades claras. O pessoal deve ser capacitado para testar versões iniciais, fornecer avaliações estruturadas baseadas em KPI e moldar continuamente os requisitos de melhoria”, aponta. A Roland Berger dá como exemplo dessa lógica o “Innovationszentrum” (Innovation Hub) das forças armadas alemãs. “Isso facilita intercâmbios regulares, experiências conjuntas e prototipagem rápida num mesmo local, demonstrando como a colaboração estruturada entre as partes interessadas pode acelerar a inovação.”
  • Repensar o financiamento e procura para apoiar escala: Há um fosso entre a inovação e a sua implementação no terreno pelas forças militares. “Essa lacuna existe porque as startups não têm certeza de financiamento a longo prazo, os ciclos de aquisição são muito lentos e os governos hesitam em se comprometer antes que as tecnologias atinjam a maturidade”, refere a Roland Berger. Para fechar esse fosso, “os governos devem comprometer-se mais cedo por meio de financiamento baseado em marcos que faça a ponte entre P&D, prototipagem e produção inicial, compartilhando o risco com a indústria em vez de evitá-lo”, diz a consultora. Há também que haver uma procura concertada e não fragmentada dando aos fornecedores visibilidade para o futuro. “Contratos-quadro plurianuais agregados — abrangendo capacidades como munições, drones, sensores, módulos de guerra eletrónica e comunicações seguras — transformariam projetos incertos em carteiras de encomendas viáveis”, indica o estudo.
  • Cadeias de fornecimento de matérias-primas seguras: A Europa está muito dependente de terceiros — nomeadamente da China — para o fornecimento de matérias-primas críticas e componentes, como semicondutores, baterias, metais especiais, motores de drones e sensores óticos. Essa dependência não só cria “vulnerabilidades estratégicas”, como restringe e atrasa a inovação. Há, por isso, que “construir fornecedores confiáveis ​​de chips e componentes de RF“, mas também “mobilizar as PME de alta tecnologia da Europa como uma espinha dorsal de fabricação flexível e distribuída que possa aumentar a produção rapidamente”.

Em suma, “a Europa não pode inovar rapidamente sem escalar em grande escala. Construir um ecossistema de inovação resiliente na área da defesa exige uma procura coordenada a nível da UE, financiamento a longo prazo, um conjunto industrial mais amplo e cadeias de abastecimento seguras”.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Inovação é a melhor ‘arma de defesa’ da Europa

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião