“Fui prejudicado com o caso Spinumviva”

Mesmo sentindo-se prejudicado pela ligação à Spinumviva e pela posição do antecessor, João Rodrigues tornou-se presidente da Câmara de Braga. Entre os alvos de críticas soma-se Rui Rocha, da IL.

Mais de 100 dias depois de ter sido eleito presidente da Câmara Municipal de Braga, João Rodrigues, não tem dúvidas de que o caso Spinumviva, que envolve uma empresa do universo do primeiro-ministro Luís Montenegro, o colocou a si e à família sob escrutínio público e prejudicou o seu resultado eleitoral. Além da mulher, advogada na empresa de Montenegro, o pai, proprietário de uma empresa de combustíveis, ficou célebre por ser um dos principais clientes da Spinumviva.

Apesar de sair vitorioso num município onde o PSD governou 12 anos com maioria absoluta, sob o comando de Ricardo Rio, o agora presidente da autarquia João Rodrigues ficou-se por três mandatos entre onze eleitos, com o PS a alcançar outros três e um movimento independente a somar o mesmo número. “Há o caso Spinumviva, e não fujo dele. Não tenho dúvida nenhuma que, ao nível da perceção, me prejudicou.”

O social-democrata traça, em retrospetiva, os acontecimentos desde que, em fevereiro de 2025, passou de um mero “desconhecido” no país e lançou os primeiros outdoors da sua candidatura, até “rebentar” a polémica que conduziu à queda do primeiro Governo de Luís Montenegro.

Num concelho onde votaram mais de 100 mil pessoas, venceu por 277 votos e está a liderar o município longe da maioria. Que leitura faz deste resultado eleitoral?

Há dois elementos que não tenho dúvida que concorreram para que o resultado eleitoral fosse este. O primeiro é que, ao fim 12 anos com a Coligação Juntos por Braga à frente da Câmara Municipal, é natural que haja uma propensão para a mudança de ciclo, e isso acaba por condicionar muito aquele que é o resultado eleitoral.

Depois, acho que, dos três mandatos da Coligação Juntos por Braga, talvez o último tenha sido aquele menos bem conseguido. Eu fiz parte dele e, portanto, assumo a minha quota parte de responsabilidade, pese embora eu tenha tido funções na área do urbanismo, planeamento, habitação e reabilitação urbana. Aliás, durante a campanha eleitoral referia muitas vezes as questões do urbanismo para mostrar aquilo que eu tinha feito. Nós somos a cidade que mais licencia no país. Tínhamos um Plano Diretor Municipal (PDM) que é o único no país que traz crescimento da área urbana. Portanto, tinha sucessos para mostrar.

E depois há a história do caso Spinumviva — e eu não fujo dele –, que não tenho dúvida nenhuma de que, ao nível da perceção, me prejudicou.

Refere-se à ligação da sua família à Spinumviva?

A ligação da minha família à Spinumviva é muito direta: a minha mulher trabalhava e continua a trabalhar para a Spinumviva, porque a minha mulher trabalha. E era isso que eu dizia muitas vezes. É essa a ligação da minha família à Spinumviva. Nem era enquanto advogada que a minha mulher estava a lidar com a proteção de dados [da empresa].

Presidente da Câmara de Braga, João Rodrigues

Adicionalmente, a gasolineira do seu pai apareceu como um dos maiores clientes da empresa de Luís Montenegro.

Sim, mas o que é que isso tem a ver comigo? Eu não sou sócio. Mas na campanha eleitoral isso foi por arrasto. Nós somos quatro irmãos. O meu pai tem um grupo empresarial com empresas, algumas com mais de 90 anos, lida com dezenas de escritórios. Eu não tenho nada a ver.

Quando fui escolhido [como candidato], eu era relativamente desconhecido, não tinha grande notoriedade. Coloco os primeiros outdoors e duas semanas depois rebenta a história da Spinumviva. E com uma agravante: a única novidade que, durante um mês houve sobre a Spinumviva, é que a minha mulher prestava serviço à Spinumviva.

Portanto, durante um mês o candidato que já era novo –tinha 37 anos –, e que tinha um presidente de câmara [Ricardo Rio] que dizia abertamente que não era o seu candidato preferido, aparece todos os dias no telejornal como candidato [à Câmara de Braga] e a mulher a trabalhar para o Luís Montenegro. Além de que eu era sócio do [secretário-geral e líder parlamentar do PSD] Hugo Soares. Portanto, sempre a fazerem este circo, claro que foi uma coisa que me prejudicou.

E depois há a história do caso Spinumviva — e eu não fujo dele –, que não tenho dúvida nenhuma de que, ao nível da perceção, me prejudicou.

Considerando que o PSD teve maioria absoluta nos anteriores três mandatos, o facto de a oposição usar o argumento da Spinumviva durante a campanha eleitoral aumentou a pressão sobre si?

É muito engraçado que nunca ouvi os partidos da oposição a falarem da Spinumviva diretamente ou em debates, porque tinham memória daquilo que se tinha passado nas eleições legislativas, que tinham decorrido seis meses antes das autárquicas. Já na campanha de rua… Além disso, fui escolhido pelo meu partido para ser candidato ao município.

Então acha que este escândalo, que conduziu à queda do Governo, o prejudicou nas autárquicas de 12 de outubro de 2025?

Claro, não tenho dúvida nenhuma de que fui prejudicado com o caso Spinumviva. Houve quem não percebesse a história, quem nem quisesse perceber a história. Eu tinha a plena convicção de uma coisa: a partir do dia em que as pessoas olhassem para o meu trabalho, e não para aquilo que eventualmente pudesse existir de menos explicável acerca de mim, a opinião mudaria.

Como assim?

Primeiro venci as eleições. E depois estes primeiros 100 dias de mandato vieram demonstrar aquilo que eu já sabia que valia [como presidente do município], e que também sabia quem me escolheu para este lugar, em detrimento de outras pessoas.

Convenhamos que ganhar por 277 votos e ter o mesmo número de mandatos que as duas forças políticas seguintes é uma vitória à justa.

Claro, mas eu prefiro ganhar por 277 votos do que perder por 277 votos.

Mas não conseguiu a maioria absoluta. Como é que vai governar o município e aprovar dossiês como o orçamento e outros?

Como já consegui até agora. Aprovámos mais de 1.600 pontos em reunião de Câmara. Em três meses de reuniões do Executivo, nós aprovámos mais propostas do que no mandato anterior em quatro anos.

Entre a oposição tem um ex-líder no seu espetro, a direita. Rui Rocha, candidato da Iniciativa Liberal (IL), afirmou, na campanha não estar disponível para acordo de governação pós-eleitoral consigo, em parte devido ao “caso Spinumviva”. Como lidou com isso?

Até maio do ano passado eu tinha conversas com a IL, que escolheu um candidato a Braga que depois foi afastado e apareceu o Rui Rocha. Ora, o Rui Rocha perdeu as legislativas e impôs-se à Concelhia de Braga. Isso muito depois do caso Spinumviva.

Mas estava em cima da mesa uma coligação com a IL?

No pré-eleitoral tentámos e a IL também tentou fazer connosco. Isso é público.

Rui Rocha perdeu as legislativas e impôs-se à Concelhia de Braga.

Mas depois a coligação não foi para a frente…

Depois não chegámos a entendimento. Por exemplo, a IL queria cinco juntas de freguesia. Não se querem juntas de freguesia. As juntas de freguesia ganham-se. Nós escolhemos para liderar processos das juntas de freguesia as melhores pessoas da freguesia. E arrisco dizer que mais de 70% dos presidentes de junta eleitos pela coligação nas juntas de freguesia em Braga não são filiados em qualquer partido.

Só que isto é a diferença entre um partido, se calhar com alguma maturidade e [com] alguém que anda neste mundo há algum tempo, e quem chegou agora. Nós não escolhemos o candidato porque é do PSD, do CDS ou da IL. E se calhar a IL tinha dificuldade em perceber isso.

Aquilo que oferecíamos à IL, no período pré-eleitoral, é melhor do que àquilo que a IL conseguiu com o líder nacional. Portanto, eu acho que o partido não fez uma boa opção.

Aquilo que oferecíamos à IL, no período pré-eleitoral, é melhor do que àquilo que a IL conseguiu com o líder nacional. Portanto, eu acho que o partido não fez uma boa opção.

Foi invulgar, no panorama nacional, ter vencido as autárquicas com menos de 25%?

É invulgar, embora ache que vai acontecer cada vez mais. Aliás, já ocorreu em Lisboa, no Porto, nos Açores e na Madeira. Nós é que nos vamos esquecendo esses casos. A primeira vez que António Costa ganhou as eleições em 2007, em Lisboa, aconteceu-lhe uma coisa muito parecida. Em Espanha isto também acontece.

Mas estes casos têm em comum a particularidade de no primeiro mandato haver uma coisa muito partida, e depois, no segundo e terceiro mandatos esse equilíbrio vai-se esbatendo com o trabalho que o Executivo fez.

Havia muita gente que vaticinava quase uma incapacidade da Câmara de Braga a ser governável.

Porque é que acha que isso acontece?

Por várias razões. Primeiro, nas eleições autárquicas de Braga houve uma multiplicidade de candidaturas que não existiu noutras alturas. Nós tivemos como candidato da IL alguém que foi candidato a primeiro-ministro seis meses antes das autárquicas. Tinha dezenas, senão centenas de horas de televisão, de programas, de horário nobre.

Concorda que a campanha eleitoral às autárquicas em Braga foi uma luta renhida?

Claro, embora Rui Rocha tenha tido mais 1% do que teve nas legislativas. Portanto, também não teve um grande resultado. Muito pelo contrário.

Nós vencemos as eleições com um resultado muito próximo do segundo classificado. Mas, mais do que o resultado eleitoral propriamente dito, ou a tradução de mandatos um bocado atípica – – três, três, três, um, um — em 100 dias aprovámos praticamente tudo o que é grande instrumento de gestão municipal. E que, às vezes, até quando se tem maioria, não se consegue aprovar, como o Plano Diretor Municipal (PDM), além de um plano e orçamento municipal para 2026 que é o maior de sempre, no valor de 285 milhões de euros.

Portanto, havia muita gente que vaticinava quase uma incapacidade da Câmara de Braga de ser governável.

No seu caso, foi escolhido diretamente por Luís Montenegro para encabeçar a candidatura do PSD às autárquicas?

Não. Isso foi uma narrativa que se tentou vender e que a história da Spinumviva veio, tipo cereja no topo do bolo, como que a embrulhar a prenda para quem queria usar esse argumento [durante a campanha eleitoral]. O meu processo de escolha até começou pela Concelhia do PSD, e eu tinha um grupo de presidentes de junta — ao contrário até do que achava o anterior presidente da Câmara de Braga [Ricardo Rio] — a dizer que eu é que deveria ser o candidato às autárquicas.

Em setembro de 2024, portanto, um ano antes das eleições, quando as pessoas perceberam que era o momento dos partidos escolherem quem seriam os candidatos, eu fui escolhido no plenário da Concelhia do PSD. Na altura, 23 presidentes de junta de freguesia — do meu partido e independentes — do concelho de Braga assinaram um abaixo-assinado de três páginas. Não era um abaixo-assinado qualquer, era um abaixo-assinado onde tratavam as coisas pelos nomes, a dizer que eu é que devia ser o candidato à Câmara Municipal.

“Não me assusta nada governar em minoria”

Presidente da Câmara Municipal de Braga, João Rodrigues.CM Braga 5 março, 2026

À semelhança do seu homólogo do Porto, Pedro Duarte, também atribuiu o pelouro da Cultura a uma vereadora eleita na lista do PS. Pretende atribuir mais pelouros à oposição para alcançar maioria?

Logo no início do mandato falei com os primeiros eleitos de cada uma das forças com presença no Executivo municipal. O primeiro eleito do PS, António Braga, abandonou o barco, literalmente. Ainda tentei entrar em contacto com ele, mas desapareceu completamente. Portanto, falei com a segunda da lista, Catarina Miranda, que chegou a acordo connosco para vereadora da cultura.

Já o movimento independente Amar e Servir Braga impôs-lhe uma condição para assumir um pelouro…

A conversa foi, basicamente, ou vamos os três [vereadores eleitos], e estamos os três a tempo inteiro com o salário ao fim do mês, ou não vale a pena falar. Não concordei. Até porque isto não é uma central de emprego; a minha primeira preocupação não é dar emprego aos três para estarem calmos e votarem comigo.

Isto não é uma central de emprego. A minha primeira preocupação não é dar emprego aos três para estarem calmos e votarem comigo.

Se não aceita essa condição do cabeça de lista Ricardo Silva, como é que vai agora conseguir governar a autarquia?

Como tenho feito até agora, que é governar em minoria. Está previsto na lei, não há problema nenhum, e não me assusta nada governar em minoria. É a coisa mais normal no mundo em qualquer democracia. O bipartidarismo em Portugal é que fez com que, muitas vezes, houvesse maiorias, e geralmente estivessem entre o PS e o PSD. Mas já há muitos casos de minoria, desde os governos regionais até ao próprio Governo da República, e funciona muito bem. Claro que com a maioria é muito mais fácil.

Precisamente por não ter essa maioria, a governação tem exigido diálogo constante com as forças da oposição.

Com a oposição a dizer que é impossível governar-se o município, eu já aprovei, e com maioria, uma reestruturação orgânica que vai gerar uma poupança de 100 mil euros, quando normalmente se demora entre um a dois anos a fazê-lo.

É óbvio que as coisas podem ser chumbadas, mas não andamos aqui a fazer coisas malucas, perdoe-me a expressão. Quando levo uma proposta à reunião do Executivo, é algo com lógica. Até agora, ainda não houve impedimento nenhum. Dá-me é mais trabalho.

Como assim?

A oposição votou contra duas propostas: uma obra financiada em 2,3 milhões de euros por fundos comunitários e o Plano Diretor Municipal (PDM), que, uma semana depois, voltei a levar para aprovação numa reunião extraordinária, e aprovaram. Não mudei uma linha do documento. Claramente, protelaram a decisão para fazer um jogo político à volta da nossa proposta. Acho que inicialmente se queria passar a ideia de que a Câmara era ingovernável. Eu dizia desde o início que não.

Mas acha que esse jogo político, como lhe chama, vai prosseguir?

Acho que não vai acontecer e não tem razão para isso. Primeiro, porque já o experimentaram e perceberam que correu mal. Em segundo lugar, porque a oposição não está aqui para ser irresponsável. Uma coisa é reprovar uma proposta porque se considera má; já outra é reprovar uma proposta para fins políticos e egoísticos. Mas eles são livres de fazer isso. Agora eu também sou livre depois de fazer uso disso da forma que eu bem entender.

É da opinião que a oposição queria passar a ideia de que o município é ingovernável?

Talvez quisessem, mas correu-lhes muito mal.

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