Com as candidaturas à linha IA para PME a suplantar oito vezes a dotação inicial, parte do reforço do novo instrumentos financeiro do Banco de Fomento será destinado à IA, anunciou Castro Almeida.
O novo instrumento financeiro para a inovação e competitividade (IFIC) do Banco de Fomento tem um reforço de 617 milhões de euros com a reprogramação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e parte será dedicado à inteligência artificial, depois da forte procura da linha IA para PME, lançada originalmente com uma dotação de 100 milhões de euros, anunciou o ministro da Economia e da Coesão Territorial, no ECO dos Fundos.
“Tivemos candidaturas de 850 milhões para 100 milhões. Oito vezes mais. A procura é muito superior à oferta. Temos 3.805 candidaturas correspondendo a um investimento de 850 milhões“, detalhou Castro Almeida, no podcast quinzenal do ECO sobre fundos europeus.
“Como agora há tanta procura para a inteligência artificial, com os novos 617 milhões que o IFIC vai ter de acréscimo, vamos pôr mais dinheiro na inteligência artificial”, acrescentou, ressalvando que não será usado todo o reforço, porque a reindustrialização e o deep tech são linhas que o Governo também vai querer “potenciar”.
Para que as empresas portuguesas “não fiquem para trás no uso da inteligência artificial nos seus processos e nos métodos de produção para as tornar mais competitivas”, o Governo está a organizar como IAPMEI, CIP, universidades e os centros de investigação “uma missão muito alargada de apoio às PME para difundir a inteligência artificial”.
“Vamos organizar ações dirigidas aos diferentes clusters para mostrar potencialidades que as empresas têm no uso da inteligência artificial”, explicou Castro Almeida. O ministro da Economia, que tem a tutela dos fundos reconhece que, após a reprogramação do PRR, a sua “preocupação está na componente obras, edifícios, betão, porque está a acontecer muita obra ao mesmo tempo e com prazos muito apertados”.
Feita esta reprogramação do PRR, que ainda precisa de luz verde de Bruxelas, o que é que agora lhe inspira mais preocupação?
No que estou agora focado é no novo instrumento financeiro para a inovação e competitividade (IFIC). Na reprogramação do PRR, nas áreas que estavam a correr bem mantivemos, nas áreas em que vimos que não podíamos fazer 100, mas fazíamos só 90, alterámos o PRR para 90.
Diminuímos a ambição nuns lados e aumentámos a ambição noutros, de maneira a que o resultado final fosse igual. Há uma troca para pôr o dinheiro onde ele era necessário e era possível de ser investido.
A parte de obra que não ia ser feita, colocámos neste instrumento financeiro para a inovação e competitividade, que vai ficar alojado no Banco Português de Fomento. E este instrumento financeiro vai permitir financiar despesas das empresas em inovação e competitividade. Com uma vantagem: basta assinar o contrato com as empresas até 31 de dezembro de 2026.
E a meta do PRR fica cumprida.
As obras podem depois ser executadas depois em 27 ou em 28. Dá-nos mais tempo para executar este dinheiro. Foi esta flexibilidade que demos.
Há projetos suficientes para um IFIC agora com uma dotação a rondar os 900 milhões?
Ainda bem que me coloque essa questão. Há projetos suficientes e o dinheiro não chega. Na primeira fase o IFIC ficou com 315 milhões. Agora foi reforçado com mais 617, o que vai dar 932 milhões de euros. Quando tínhamos 315 milhões no IFIC, abrimos quatro concursos. Um deles era uma dotação de 100 milhões de euros para apoiar as empresas a introduzir inteligência artificial.
Pois bem, tivemos candidaturas de 850 milhões para 100 milhões. Oito vezes mais. Portanto, a procura é muito superior à oferta. Temos 3.805 candidaturas correspondendo a um investimento de 850 milhões. Como agora há tanta procura para a inteligência artificial, com os novos 617 milhões que o IFIC vai ter de acréscimo, vamos pôr mais dinheiro na inteligência artificial.
Será todo para a inteligência artificial ou vai ser dividido entre as várias áreas?
Não, não, não. Também há aqui outras, há também a reindustrialização, o deeptech, também é muito importante, apoio a tecnologias profundas, setores muito densamente tecnológicos e que queremos potenciar.
O dinheiro que está nas empresas não é demais. Aliás, este IFIC é uma forma de superarmos um pecado original que o PRR tinha, que denuncio há muito tempo. O PRR tinha muito dinheiro para o Estado e menos dinheiro para as empresas.
Não vai criar uma concorrência desleal, ao Portugal 2030, nomeadamente ao Compete?
Porquê?
As empresas podem preferir este tipo de apoio, via Banco de Fomento, em detrimento do Compete, que tem outras exigências e talvez mais burocracia.
O dinheiro que está nas empresas não é demais. Aliás, este IFIC é uma forma de superarmos um pecado original que o PRR tinha, que denuncio há muito tempo. O PRR tinha muito dinheiro para o Estado e menos dinheiro para as empresas. Estamos agora a pôr 932 milhões, é dinheiro, nas empresas e vai ver que vão ser cumpridos. Esta área de inteligência artificial é enorme.
E já agora posso também anunciar outra coisa. Estamos a organizar, com o IAPMEI, uma missão muito alargada de apoio às PME para difundir a inteligência artificial. As grandes empresas estão todas a trabalhar em inteligência artificial e estão a procurar explorá-la e aproveitá-la. Mas muitas PME nem sabem das potencialidades que a inteligência artificial tem na melhoria da competitividade das suas empresas.
Vamos organizar ações dirigidas aos diferentes clusters para mostrar potencialidades que as empresas têm no uso da inteligência artificial. A CIP vai ajudar-nos, vai participar nessa missão, mas vamos também usar as universidades, os centros de investigação para fazer a divulgação.
Queremos que as nossas empresas não fiquem para trás no uso da inteligência artificial nos seus processos e nos métodos de produção para as tornar mais competitivas. Portanto, não vai sobrar dinheiro nenhum nesta área de inteligência artificial.
Usa muitas vezes essa expressão, do pecado original do PRR e do excesso de dinheiro que foi posto no Estado. Estamos a perder uma oportunidade, sobretudo também porque nos fundos europeus, Lisboa e Algarve, são zonas com elegibilidades inferiores e o PRR era uma oportunidade de ter feito projetos a custo zero?
Até podíamos ter colocado os 22 mil milhões de euros apenas em Lisboa e havia onde o gastar. Como é que queremos desenvolver o país? Tem de haver uma visão global para o país. Na minha visão, a componente infraestruturas, equipamentos, edifícios em Portugal não é a causa do nosso atraso. O maior problema hoje dos portugueses é a falta de rendimentos.
As pessoas não têm dinheiro no bolso, têm maus salários e pensões de reforma. O primeiro-ministro foi muito claro no discurso da posse, enunciou a primeira prioridade do Governo: crescimento económico, criação de riqueza para melhorar os rendimentos dos portugueses e para financiar o Estado Social.
Como é que se faz crescer a economia? Com as empresas. Não há alternativa. As empresas noutros países têm grandes ajudas do Estado. Em Portugal, o Estado tem menos tradição de ajudar as empresas e no PRR fez essa opção, do meu ponto de vista errado, de pôr muito mais dinheiro no Estado do que nas empresas. E quem pode mudar os nossos salários é a competitividade das empresas. É a inovação que puder ter nas empresas, que vai poder gerar melhores salários.
A preocupação está na componente obras, edifícios, betão, porque está a acontecer muita obra ao mesmo tempo e com prazos muito apertados.
Disse-me que o seu foco agora vai estar no IFIC, mas a minha pergunta foi qual a sua maior preocupação agora que reprogramou o PRR?
[Breve hesitação] A preocupação está na componente obras, edifícios, betão, porque está a acontecer muita obra ao mesmo tempo e com prazos muito apertados.
E as autárquicas também não ajudaram.
É uma pequena perturbação. Não tenho dúvida que nos últimos meses das eleições a maior concentração dos autarcas não é nas obras e, no princípio do mandato, o autarca tem de ganhar algumas rotinas antes de perceber a importância dos prazos na execução das obras. Não ajudou, de facto.
Tenho uma certa ansiedade sobre a capacidade das empresas de construção civil de cumprirem os prazos todos, porque temos obras para executar dentro de um prazo curto, quer do PRR, quer do Portugal 2030. Aquilo que tenho procurado dizer às empresas de construção é que o mundo não acaba a 31 de agosto de 26, que é o prazo limite para fazer obras do PRR. Há muita obra do Portugal 2030 e depois há muita obra que vamos continuar a fazer.
Com as obras financiadas pelo BEI.
Por exemplo, as escolas. Temos centenas de escolas para renovar que vão ser com financiamentos do BEI e que há-de ser em 27, 28, 29 e 30.
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