Mais de 20 startups de Portugal estarão em Doha para procurar fundos e oportunidade de negócio na cimeira tecnológica que é 'prima' de Lisboa e terá cerca de 30 mil pessoas. Acompanhe no ECO.
A capital do Qatar recebe, a partir deste domingo, a terceira edição da Web Summit e esta será recordista na presença de empresas nacionais. Mais de 20 startups de Portugal estarão em Doha até à próxima quarta-feira, para procurar oportunidades de negócio na conferência tecnológica que reunirá cerca de 30 mil pessoas, entre investidores, fundadores e gestores de empresas, líderes políticos e representantes de organizações internacionais.
Mais do que ocupar um lugar na exposição ou começar a exportar para o Qatar, o objetivo dos inovadores é explorar uma entrada no Médio Oriente, angariar financiamento e procurar parceiros estratégicos e potenciais clientes com carteiras chorudas, como explica ao ECO o diretor executivo da Unicorn Factory Lisboa.
“O Qatar tem vindo a ganhar relevo em particular na região do Médio Oriente. Independentemente da sua maturidade, as startups têm dois objetivos: entender o mercado — procurar oportunidades de negócio, saber se faz sentido terem uma operação no Médio Oriente, fazerem contactos ou explorarem uma entrada — e levantar fundos“, afirma Gil Azevedo.
O diretor da Fábrica dos Unicórnios de Lisboa destaca que o Médio Oriente é uma “importante fonte de financiamento” através de “fundos públicos e programas de aceleração agressivos de atração de startups para os seus mercados”, pelo que a cimeira acaba por ser uma forma de conhecerem que mecanismos e instrumentos locais existem.
Mas atenção: os empreendedores não devem ir com a expectativa de fechar negócio mal aterrem no Qatar. “Isso só acontece depois, quando se ganha confiança e se cria uma relação. A Web Summit não deve ser o único contacto. É uma porta de entrada. Estudem a lição e saibam bem com que organizações vão falar”, aconselha Gil Azevedo, que morou cerca de 10 anos nos Emirados Árabes Unidos.
Esta foi uma das mensagens que passou aos CEO portugueses que vão à Web Summit Doha, naquela será a maior comitiva de sempre, depois de, na primeira edição, Portugal ter estado representado com 13 startups e, em 2025, com 17.
A Web Summit Qatar terá um número recorde 1.600 startups, entre as quais mais de 20 portuguesas, e 900 investidores, como Amino Capital, Greycroft, B Capital e Initialized Capital.
“O Médio Oriente é uma região importante para a internacionalização das nossas startups, e esta missão é uma oportunidade concreta para continuar a criar parcerias, atrair investimento e dar visibilidade à inovação desenvolvida em Portugal. A Web Summit, enquanto conferência estratégica também para Portugal, permite-nos chegar a este mercado de forma mais próxima e qualificada”, garante o presidente da Startup Portugal, Alexandre Santos.
Na edição passada, a Startup Portugal assinou um Memorando de Entendimento com a Invest Qatar. Questionado sobre os resultados desta parceria, o CEO da Startup Portugal, Miguel Aguiar, disse que este primeiro acordo “serviu ainda para mapeamento de oportunidades que agora iremos ativar” e está “previsto um novo encontro conjunto neste ano, querendo também que participem ativamente em mais iniciativas do nosso ecossistema”.

A DareData Engineering, na qual a Nos comprou uma participação de 20%, foi uma das 17 empresas nacionais presentes na conferência de 2025. Em declarações ao ECO, o sócio e cofundador Ivo Bernardo fez um balanço positivo da presença da tecnológica em Doha — através do seu sócio e cofundador Nuno Brás –, embora alerte que os qataris esperam que os empreendedores entrem (mesmo) no país. Ou seja, é importante ter abertura para criar uma subsidiária.
Honestamente, acho que foi um bom evento para criar conexões, conhecer outras realidades e nos expormos um pouco a outros mercados. Não tivemos nenhuma oportunidade concreta vinda de lá, mas tivemos alguns contactos que depois nos deram oportunidades mais locais”.
A principal dificuldade é a necessidade de presença local. “Isso é transversal a outros mercados, mas principalmente nos árabes. Pareceu-nos que é importante ter uma presença local e abrir a empresa para obter acesso a oportunidades, porque é difícil ter exportações, pelo menos, na área B2B”, detalha o empreendedor que vende sistemas de processamento de dados por IA a empresas.
Em relação às diferenças para a Web Summit de Lisboa, Ivo Bernardo explica que o formato é bastante semelhante, uma “feira de várias tecnologias que pode dar ideias para o futuro”, exceto a localização e a cultura da maioria dos participantes.
Desde logo, pela presença dos governantes do Qatar. Entre os nomes mais sonantes na lista de oradores estão o sheikh Mohammed bin Abdulrahman bin Jassim Al Thani, primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros, e e as sheikhas que estão na presidência da Qatar Museums e Qatar Foundation, Al Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani e Moza Bint Nasser, respetivamente. A presença de mulheres denota-se nas sessões, mesmo a nível internacional, com figuras como Justina Nixon-Saintil, Chief Impact Officer da tecnológica IBM.
Ainda assim, a personalidade que fez esgotar a Web Summit Doha foi o fundador e CEO da Upscrolled, Issam Hijazi, que criou uma rede social pró-Palestina que está a fazer frente ao Tik Tok nos Estados Unidos.
O empreendedor palestino-jordaniano-australiano discursa logo na noite de abertura e a ele seguir-se-ão representantes de outras empresas como o próprio TikTok, Goldman Sachs, Canva, Cisco, Huawei, Siemens, Meta, Uber, Microsoft, Reditt, Palp Alto Networks, Mastercard e Visa e as consultoras Alvarez & Marsal, Bain & Company e Mckinsey.
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Entre as figuras do contexto político e económico estão também Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, e Pedro Lopes, secretário de Estado para a Economia Digital de Cabo Verde. Do desporto sobressaem Par Helgosson, diretor da aceleradora do Paris Saint-Germain (PSG Labs), e a antiga estrela do basquetebol Metta Sandiford-Artest, também conhecido por Ron Artest. O ex-jogador na NBA é agora presidente da casa de investimento Artest Management Group.
Impacto económico superior a 185 milhões
Certo é que do centro de congressos de Doha também podem sair injeções de capital com capacidade de dar fôlego às empresas recém-criadas. “Um grande exemplo, no nosso primeiro ano, foi o de uma empresa irlandesa, a TechMet. O CEO esteve aqui, conseguiu reunir-se com representantes da QIA – Qatar Investment Authority [fundo soberano] e essa única conversa resultou num investimento de 180 milhões de dólares [152 milhões de euros]”, contou o Chief Events Officer da Web Summit Craig Becker à Euronews.
E vice-versa. Depois de receber o Mundial de 2022, e posicionar-se enquanto palco do melhor desporto internacional, o Qatar acolheu esta cimeira tecnológica para estar nos holofotes da inovação global e está a colher os frutos. Segundo um estudo da consultora Silverlode, a Web Summit Qatar de 2025, onde estiveram mais 25 mil pessoas, teve um impacto económico de 185 milhões de euros no país. A expectativa é que, devido à marca dos 30 mil participantes, o valor aumente.
Qatar é “mercado de nicho com expressão crescente”
O ex-protetorado britânico é hoje um dos países mais ricos do mundo por causa do petróleo e gás natural. Entre os investimentos qataris mais relevantes em Portugal encontram-se participações na EDP e na Vinci Energies Portugal, bem como o empreendimento turístico W Algarve, que representa um investimento de 300 milhões de euros e 500 postos de trabalho diretos e indiretos.
No entanto, no ranking de clientes de Portugal, o Qatar ocupa a 83ª posição. O número de empresas portuguesas a exportar para o país ultrapassa as três centenas. A Associação Empresarial de Portugal (AEP) considera que o Qatar é um “mercado de nicho com expressão crescente”, mas como tem uma importância “residual” em termos de exportações, desde 2020, deixou de colocar este destino no roteiro das missões.
O que levou a AEP a parar as missões empresariais no Qatar? Após a pandemia de Covid-19 “vários mercados e operadores retardaram a iniciar uma atividade mais dinâmica e, por outro, as grandes obras relativas ao boom da construção, como o Campeonato do Mundo de Futebol e toda a construção associada, tiveram o seu término”, o que se tornou “menos atrativo” para as empresas portuguesas, justifica a associação liderada por Luís Miguel Ribeiro ao ECO. Em termos gerais, a importância do mercado é “residual” para o tecido empresarial, “mas existe uma base para crescimento e diversificação”.
As grandes obras relativas ao boom da construção, como o Campeonato do Mundo de Futebol e toda a construção associada, tiveram seu término, logo menos atrativo para as empresas nacionais. Por estas paragens, a AEP tem apostado forte nos Emirados Árabes Unidos.
Entre 2010 e 2019, a AEP desenvolveu várias ações no Qatar, nomeadamente na Project Qatar & Stone Tech, a feira mais importante para a fileira da construção, tecnologias, energia e ambiente. A partir daí deixou e este ano volta a deixar o país fora do calendário. A escolha recaiu sobre os países vizinhos.
“A AEP tem apostado forte nos Emirados Árabes Unidos, mais concretamente no Dubai, geograficamente vizinho do Qatar, que apresenta boas oportunidades de negócio”. É um país que também estará amplamente representado neste evento em Doha com a presença de empresas e sociedades de investimento como a Beco Capital, a plataforma de business intelligence ligada a capital de risco Magnitt ou a Xpanceo, que está a desenvolver lentes para óculos à base de IA.
Nos próximos dias, o ECO estará em Doha para perceber se, daqui para a frente, haverá mais empresas portuguesas a entrar (ou exportar) para o Qatar.
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Empresas portuguesas voltam à Web Summit Qatar para tentar vir com cheques dos sheiks
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