Drones no céu, pés na terra
Num país que não tem 'história moderna' na produção de equipamento militar, a indústria de drones será das poucas onde o país começa, literalmente, a levantar do chão.
Depois de anos de ‘batalhas de drones’ na frente de combate ucraniana, a Europa avançou esta semana com uma estratégia para não só proteger o Velho Continente de ataques de drones — usados para perturbar voos civis ou atacar infraestruturas de energia —, como incentivar a produção made in Europe destes equipamentos.
A Comissão Europeia quer mobilizar 400 milhões de euros, dos quais “150 milhões destinados à segurança das fronteiras, à aquisição de equipamento de vigilância, que servirá não apenas para uso individual dos Estados-membros, mas também para operações conjuntas lideradas pela Frontex. Os restantes 250 milhões vão servir para comprar diretamente sistemas de drones”, referiu Magnus Brunner, comissário da Administração Interna e Migração, aquando da apresentação do “Action Plan on Drone and Counter Drone Security”.
O plano não passa, obviamente, só por atirar um envelope financeiro para cima da mesa, se assim o fosse até pareceria ‘poucochinho’ para a procura que se antecipa e ainda menos ambicioso se olharmos para o está a planear a Alemanha: investir 536 milhões de euros em compras de drones a duas startups alemãs, a Helsing e a Stark Defence, parte de um acordo mais amplo na ordem dos 4,3 mil milhões de euros. A desproporção evidente fala por si.
Acelerar a implementação de soluções inovadoras no mercado — removendo, temporariamente e em zonas específicas, obstáculos à realização de testes com tecnologias de drones e antidrones ou reforçando a rede de centros de testes para demonstrar e validar sistemas militares ou de duplo uso em ambiente real, por exemplo — está igualmente nos planos da Comissão. Hackathons (neste caso dedicado às ameaças dos balões); mapear o ecossistema de fabricantes, adaptar o quadro regulamentar do setor — até ao terceiro trimestre de 2026, vai propor um “Drone Security Package” [Pacote de Segurança de Drones] —, ou uma marca UE para drones são outras das várias medidas propostas. Usar as antenas 5G como ‘radares’ para deteção de drones é outra, mas só essa vai dar pano para mangas.
Num país que não tem ‘história moderna’ na produção de equipamento militar, a indústria de drones será das poucas onde o país começa, literalmente, a levantar do chão.
Mas defesa não se faz sem produção. E é aí que a nova estratégia poderá trazer boas novas para Portugal. “O nosso país poderá ter um papel muito relevante no cenário da Defesa e do dual use, se continuar a apostar em tecnologias de drones e contra-drones”, considera José Neves, presidente do AED Cluster. Para mais, “quando a soberania tecnológica é uma prioridade europeia, com foco total em soluções home-grown (europeias) e na redução da dependência de fornecedores externos à UE”, disse ao ECO/eRadar.
Num país que não tem ‘história moderna’ na produção de equipamento militar, a indústria de drones será das poucas onde o país começa, literalmente, a levantar do chão. A unicórnio Tekever tem vindo a expandir a sua operação em mercados chave como Reino Unido — em marcha tem um investimento de 470 milhões de euros a cinco anos —, França (com o investimento de 100 milhões a levantar voo com a unidade de Cahors) ou Ucrânia, onde há muito voam os drones da empresa e está a reforçar.
A Beyond Vision é outro caso. Em Alverca está a expandir a sua unidade de produção, fechou contratos nos EUA, onde planeia uma abertura de fábrica, tal como no Brasil, só para referir alguns dos projetos. E esta semana, soube-se, está a enviar drones também para a Ucrânia.
Como pode o país potenciar esta estratégia europeia? Portugal “tem uma oportunidade clara, se atuar de forma coordenada”, posicionando-se em “nichos tecnológicos de alto valor, em vez de competir em volume com grandes fabricantes”, defende Dário Pedro, CEO da Beyond Vision.
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