O estranho caso do poste elétrico

Não há muito mais a acrescentar sobre o estranho caso do jurista que confunde fatura com recibo. Neste sentido a viagem foi em vão. Mas teve outras utilidades não negligenciáveis.

No fim de semana que passou voltei à Zambujeira do Mar (freguesia de São Teotónio, concelho de Odemira). A Zambujeira é um lugar místico onde passei muitos dias e noites quando era uma criança já com barba. Naquele tempo a humidade, a chuva de agosto, o frio e a água gelada do mar eram devidamente compensadas pelo ambiente descontraído, pelo pôr do sol, pelo Sudoeste do Luís Montez, pelas noites animadas, pela música e pelas pessoas.

O regresso foi produtivo: o Sacas continua a ser um dos melhores restaurantes de sempre. A simpatia da Sílvia e do Luís aumentam com o tempo, os filhos cresceram, todos nós crescemos, e é bom saber que 25 anos depois aquele sítio tem quem saiba tomar conta dele, garantindo futuro, sem sushi misturado com filetes de peixe, assim se espera.

Se no Porto das Barcas nada mudou, pela graça do Senhor, o centro nevrálgico da terra está, estranhamente, igual e melhor. Igual porque não cresceu como boa parte destes sítios de praia, cheios de apartamentos fechados 248 semanas por ano. E melhor porque as ruas estão arrumadas, há uma calma nova trazida pela disciplina, pelos poucos carros no centro, e até as crianças voltaram à rua para jogar à bola. Enquanto isso, os pais e demais bebem umas cervejas no bar que vale a pena, a Casa D’Anita, onde há tempo para cantar parabéns e recordar os anos que a vida nos deu naquele pedaço de terra santa onde (apesar disso) o Chega ganha eleições e os muito imigrantes que garantem a economia da região são tão mal vistos como a máquina a vapor. Todos os paraísos têm contradições e este não foge ao princípio.

Manhã cedo do dia seguinte, o caminho fez-se em direção ao Monte da moda. Sem referências nem informação privilegiada, lá fui até São Teotónio em demanda do desconhecido.

Assim que encontrei umas almas saquei da pergunta que se impunha nesta season de 2026: “Olá, bom dia, sabe como se vai para o monte que anda aí nas notícias?”

Eu não sou de imaginação fácil nem gosto de conclusões precipitadas, mas diria que aquela simpática mulher de faces (muito) rosadas e olhar vago já tinha bebido uns copos ao pequeno-almoço. Que não, que não sabia de nada, “nunca saio daqui, mas talvez o meu marido saiba”.

E sabia. “Vá por aqui em frente, vira à esquerda no cruzamento e depois ande sempre; passa por umas casas, mas não para, vai sempre em frente e depois passa uma placa, mas não é essa, e quando chegar à outra placa que está escondida vira à esquerda e depois é aí”.

E foi.

Não há muito mais a acrescentar sobre o estranho caso do jurista que confunde fatura com recibo. Neste sentido a viagem foi em vão. Mas teve outras utilidades não negligenciáveis.

Foi importante saber que o dito AL da empresa de L Neves e mulher é uma verdadeira sucata a céu aberto. As ervas secas crescem e invadem o tanque (impossível nadar na espelunca de água morta, daí não ser piscina, mas tanque — apesar de ter uma escada de piscina tem água de tanque; ao lado, a horta chora por água: o sistema de rega não rega, a terra seca confirma o deserto.

E depois há a casa propriamente dita, de ar condicionado a fazer de brasão, a parede verde que até assusta e um barbecue nas traseiras inspirado numa revista de decoração dos anos 80.

Nada daquilo faz sentido e é até embaraçante. Será que o co-proprietário é do Sporting? Não, é do Atlético do Feijó, onde até chegou a ser dirigente. Alguém então explique aquela parede.

Talvez na CPI do Chega a verdade venha ao de cima, a não ser que as provas tenham evaporado por força do ataque selvagem ao gabinete parlamentar (o Grupo onde mais se trabalha na nobre arte de fazer tik-toks como agora se demonstra mais uma vez, e começam cedo porque as primeiras minhocas apanham-se cedo).

Foto: Vítor Cunha

Se o verde é um mistério, o caso do poste elétrico (com iluminação) ao lado da piscina com água de tanque e tanque com escada de piscina é um mistério ainda maior. Quem no seu perfeito juízo quer ter um poste de iluminação pública no “jardim” e que serve apenas para iluminar o tal tanque com escada de piscina? É um poste terminal, sem saída, ligado a um outro colocado no caminho de terra exterior.

Aquele poste e aquele tanque contam uma grande história. Agora só precisamos de tempo para a perceber.

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