Um M&A com fundamentais sólidos

  • Ana Leitão
  • 27 Fevereiro 2026

Estamos perante um mercado de fusões e aquisições talvez menos exuberante, mais racional, mais seletivo, mas possivelmente também mais saudável e sustentado.

Estamos atualmente perante um contexto económico, político e tecnológico distinto daquele que tínhamos há dez anos ou mesmo daquele que tivemos nos anos pós-pandemia de 2021 e 2022. A atual atividade de M&A é reflexo dessa mudança de contexto, com investidores mais seletivos no que procuram e ponderados nas decisões que tomam, pese embora os elevados níveis de liquidez de que continuam a dispor. Estratégias adequadamente traçadas, robustas no contexto competitivo e tecnológico onde se inserem, estruturas de gestão sólidas e ângulos de crescimento são invariavelmente os ingredientes que atraem os investidores. Deste cruzamento entre oferta, procura e contexto macro, resulta atualmente um mercado de M&A menos exuberante que outrora, mas ainda assim com bastante dinamismo.

A nível europeu, dados de plataformas como o Mergermarket apontam para um abrandamento do número de transações, com 2025 a confirmar um ligeiro recuo face aos últimos três anos. Taxas de juro mais altas, maior incerteza macroeconómica, tensões geopolíticas e evolução tecnológica incutiram ponderação e seletividade nos investidores. O resultado? Mega deals menos frequentes e mais demorados, devolvendo protagonismo à análise detalhada e aos comités de investimento.

Portugal, curiosamente, tem contado uma história um pouco diferente. Entre 2022 e 2025, de acordo com o Mergermarket, o número de operações cresceu de forma consistente, ainda que a um ritmo progressivamente mais moderado. Não estamos a falar de negócios gigantes, mas de um mercado dinâmico, dominado por transações de menor dimensão — muitas abaixo dos 10 milhões de euros — que refletem bem a estrutura do tecido empresarial português. Em M&A, como na vida, o tamanho importa… mas não é tudo. Em todo o caso, em 2025, entre as transações com valor de transação registado, cerca de 30% eram referentes a transações acima de 50 milhões de euros.

Em termos setoriais, poucas surpresas. Consumo, Tecnologia, Media e Telecomunicações (TMT) e indústria continuam a liderar tanto em Portugal como na Europa, concentrando a maioria das transações realizadas. No mercado nacional, estes três setores representam cerca de 70% do total de deals, com destaque para o dinamismo do TMT e para o crescimento sustentado da Indústria. Já a energia, apesar de não liderar em número de operações, continua a aparecer quando o assunto é valor, como evidenciam os rankings disponíveis.

Outra tendência clara é o papel crescente do private equity. Os investidores financeiros ganharam peso nos últimos anos, na justa medida da perda de protagonismo dos investidores estratégicos, particularmente em patamares de transação até aos 20 milhões de euros. Natural e apenas reflexo de fundos mais ativos, com dry powder acumulado e uma capacidade acrescida para estruturar operações complexas. Em todo o caso, o perfil dominante de investidor continua a ser o estratégico.

Portugal continua a ser um mercado marcadamente cross-border. Compradores estrangeiros mantêm um papel central, com Espanha, França e Reino Unido como origens mais comuns dos investidores. Na Europa, o cenário é diferente: os grandes mercados continuam a privilegiar operações domésticas, confirmando que o M&A também é, muitas vezes, uma questão de escala.

Estamos perante um M&A talvez menos exuberante, mais racional, mais seletivo, mas possivelmente também mais saudável e sustentado. Os fundamentais continuam lá: empresas com necessidade de crescer, consolidar ou transformar; fundos com capital para investir e setores inteiros a reposicionar-se perante tecnologia, sustentabilidade e novas exigências regulatórias. Com estes fundamentais, potencialmente acompanhados por um abrandamento dos níveis de incerteza, as perspetivas são de crescimento sustentado para a atividade de M&A e, com isso, mais histórias de sucesso na montagem e desenvolvimento de negócios, na monetização de valor criado e na transformação e consolidação do nosso tecido empresarial.

  • Ana Leitão
  • Associate Partner da Deloitte

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Um M&A com fundamentais sólidos

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião