Fomos a Alverca ver construir os drones da Beyond Vision

A Beyond Vision está a expandir a sua fábrica em Alverca. Já com 2.000 metros quadrados, deverá duplicar área e capacidade. Em 2026 querem fazer voar da fábrica 500-800 drones por mês.

O cheiro a tinta de edifício novo e o zumbido constante de berbequins invade os sentidos mal entramos nas novas instalações de Beyond Vision em Alverca. Passada a porta de entrada, no fundo vislumbramos diversas fuselagens, em várias fases de montagem, a serem ultimadas para expedição para os diversos clientes da fabricante de drones nacional com presença na Europa, EUA ou América Latina. Em 2026, o plano de voo está definido: alcançar entre 30 a 40 milhões de euros em vendas, na sua maioria na Europa, e crescer a equipa dos atuais 100 para 250.

Atualmente, com 2.000 metros quadrados, distribuídos por dois pisos, nas instalações em Alverca há um frenesim de atividade. Fosse este um aeroporto estava com os slots de voo totalmente preenchidos.

No rés do chão, tiras laranja marcadas no soalho assinalam as diversas bancadas onde os colaboradores apressam-se a montar os drones. Em dezembro, o ritmo é, no mínimo, intenso.

Fábrica de drones da Beyond Vision, em Alverca Hugo Amaral/ECO

“Este mês [dezembro] vão sair 70 drones [da sala de assemblagem]”, adianta Tiago Marques, head of design da Beyond Vision. “Não é a nossa média normal, mas agora estamos a fazer isso. Este mês, temos bastantes pessoas a fazer horas extras, porque temos uma encomenda grande”, explica. Fosse este um período ‘normal’ da linha de assemblagem sairiam entre 15 a 25 drones.

Em cima das várias bancadas espalhadas pela sala, com cerca de 800 metros quadrados, estão drones cinzentos VTOL. “São drones que aterram e levantam voo verticalmente, não precisam de uma pista e que, depois, quando estão no ar, começam a voar horizontalmente”, explica o head of design.

O drone tem capacidade para voar cerca de três horas e pode, consoante a missão prevista, transportar várias câmaras. “Agora não temos nenhuma montada, são as peças mais valiosas, e as últimas a serem montadas”, justifica.

Fábrica de drones da Beyond Vision, em Alverca. Pormenor da câmara que pode ser instalada no drone.Hugo Amaral/ECO

“Temos mais de 40 tipos de payloads integrados no drone. Ou seja, desde câmaras multiespetrais, para mapeamento, câmaras térmicas para inspeções. Temos um payload que, por exemplo para a Proteção Civil, é muito interessante, que é um simcatcher. Permite identificar todos os telemóveis no solo e dá as coordenadas desses telemóveis, de forma semelhante ao que fazem as operadoras [de telecomunicações] com as várias estações”, explica Dário Pedro.

Com uma ‘vantagem’. “Como o drone é quase como uma estação aérea que se está a mexer, vai ter vários pontos de medição e consegue identificar onde é que a pessoa se encontra em vários cenários, por exemplo, de catástrofes, de incêndios, resgate”, detalha o cofundador e CEO da Beyond Vision.

Foi precisamente para um cenário de emergência que a fabricante nacional fechou um contrato de 15 milhões nos Estados Unidos, para fornecer 300 drones até 2028. “De 15 milhões, mínimo. Ou seja, tem compras mínimas de 15 milhões, mas o nosso target é que se aproxime dos 30 ou 40 milhões. Já estamos a começar a nossa expansão para lá, para ter um polo lá”, explica Dário Pedro.

“Numa primeira fase será de representação e de business development, numa segunda instância, evoluirá para termos alguma pré-assemblagem nos Estados Unidos, ou seja, uma pequena fábrica. A longo prazo, a ideia é depois expandir essa fábrica para agregar o máximo de tipo de produção, sub-assemblies, entre outros, que façam sentido fazer nos Estados Unidos”, detalha. Essa unidade deverá exigir um investimento de 50 milhões de euros.

Tiago Marques, head of design da Beyond Vision, na unidade de Alverca da empresa de drones.Hugo Amaral/ECO

Para este cliente — cujo nome, para já Dário Pedro prefere manter reservado — vão desenvolver um drone mais pequeno, com cinco quilos. O drone é ainda BlueOS e é NDAA compliant [ou seja, cumpre as diretrizes da Lei de Autorização de Defesa Nacional dos EUA (NDAA)] . “O que significa que todos os componentes, desde os chips que utilizamos nas nossas boards, aos motores, os carbonos, que adquirimos na nossa supply chain têm de ser ou da União Europeia ou dos Estados Unidos”, explica o cofundador.

O drone cumprir com o requisito NDDA não é uma exigência do contrato, mas para “forças de segurança e defesa nos EUA é, e como queremos abranger o máximo número de entidades lá, vai ser desenvolvido com esse propósito”, explica.

“Os drones são 80-90% feitos com componentes europeus, alguns dos Estados Unidos e o resto tem que vir da China porque não há fornecedores [desses materiais]. Mas já estamos a fazer um drone que é inteiramente feito só com peças europeias ou dos Estados Unidos: o 418″, explica Tiago Marques. O nome está relacionado com o número e o tamanho das propelas que o fazem movimentar.

Internalização da produção

A empresa está igualmente a internalizar o máximo possível a produção. Sinal disso é a produção da fuselagem do drone. “A partir deste ano [2025] já começámos a fazer o produto desde zero. Antigamente o fornecedor de carbono era externo. Agora temos uma equipa toda que faz a laminação e toda a fuselagem”, descreve o head of design da Beyond Vision.

Fábrica de drones da Beyond Vision, em Alverca.Hugo Amaral/ECO

A equipa de laminação — na sua maioria mulheres — está separada da sala de assemblagem por uma divisória transparente, fazendo o corte do carbono que depois é colocado em moldes, a partir dos quais é criada a fuselagem. “Agora não temos nenhum, estão todos retirados dos moldes”, comenta Tiago Marques enquanto acompanhamos o trabalho feito pela equipa. O material usado é 95% carbono, com o remanescente em Kevlar a ser colocado na zona das ‘asas’ do drone. “Assim fica mais resistente”, justifica.

Mesmo ao lado, da área de moldes, está a equipa de pintura que, com fatos macaco e máscaras, fazem os acabamentos à fuselagem do drone antes do mesmo seguir para a fase de montagem, onde as diversas peças, como partes da asa, eletrónica ou câmaras, são montadas antes dos testes finais.

Fábrica de drones da Beyond Vision, em Alverca Hugo Amaral/ECO

Um processo de internalização que decorre há cerca de seis meses e com vantagens.Ganhámos tempo e fiabilidade“, diz o head of design, quando questionado sobre quais os ganhos em ter a área de carbono/laminação in-house. “Sabemos os erros que acontecem e vamos corrigindo mais rapidamente. Não temos de estar sempre à espera e o tempo agora é muito importante”, acrescenta.

“Desenvolvemos toda a parte de eletrónica, por isso qualquer coisinha podemos corrigir nós, não temos que estar à espera de fornecedores ou componentes externos”, destaca ainda.

“Desenhamos o drone, temos uma equipa de engenharia que dá umas regras e daí sai um design, testa-se tudo, faz-se as modificações necessárias e depois de fazer todas as modificações é que se faz a parte de divisão da fuselagem, para fazer as peças de carbono e de plástico”, descreve.

Fábrica de drones da Beyond Vision, em Alverca.Hugo Amaral/ECO

Do conceito ao produto, um drone leva um ano a ganhar asas. “Tudo o que estamos a conseguir fazer in-house encurta o prazo de produto. Conseguimos corrigir o erro muito mais rápido, o que que ajuda imenso, e depois, a nível produtivo, consegue-se tirar logo um protótipo muito mais rápido para testar, porque uma coisa é testar no computador, outra coisa é testar na realidade”, realça o head of design.

E nem a chuva impede a equipa de pilotos de testar os drones e a suas capacidades em campo, como comprovámos no dia da visita à fábrica. Apesar da chuva torrencial, uma equipa aguardava na portaria uma carrinha para levar equipamento e pilotos para realizar testes em campo.

Uma fase importante para a recolha de dados que depois são usados na melhoria do modelo. “A nível de computador, consegues ler muitos logs do drone. E o próprio piloto visualmente consegue dizer muitas coisas: a nível de tempos, se está a voar bem… E nós conseguimos corrigir erros mais rapidamente”, sintetiza Tiago Marques.

Área de produção deverá duplicar em 2026

A produção de drones em ritmo acelerado é acompanhada — em ritmo que desejar-se-ia mais acelerado — pela construção da segunda fase de expansão da unidade de Alverca. O espaço, agora com dois mil metros quadrados, deverá em 2026 atingir os quatro mil metros quadrados. Num investimento global, na ordem dos cinco milhões de euros.

“Infelizmente em Portugal a construção é muito complicada, era suposto termos este espaço pronto em abril-maio e, por múltiplos motivos, tem vindo a atrasar”, lamenta Dário Pedro.

“Temos três espaços, em Lisboa, Aveiro e no Porto, mas [com o crescimento da equipa] o de Alfragide era o que estava realmente com grandes problemas de constrangimentos de espaço, ou seja, nós passámos de cerca de 300 metros quadrados para 2.000 metros quadrados e quando se fizer a segunda metade deste espaço serão 4.000 metros quadrados”, adianta.

Idealmente, gostaria que em março-abril de 2026 tivéssemos o espaço todo construído“, diz esperançado.

Quando se concretizar, “deve-nos cerca de triplicar ou quadruplicar a nossa capacidade de produção atual”. Em 2026, o “objetivo é ficarmos com capacidade de produzir cerca de 500 VTOL, ou seja, estes drones de asa com multirotores, e cerca de 800 multirotores”, adianta.

E não é o único espaço que a Beyond Vision está a apostada em investir. “Temos novas instalações em Aveiro. No Porto também temos capacidade de produzir alguns componentes e estamos à procura de uns escritórios que nos deem capacidade de ainda contratar mais pessoas e continuar a crescer no Porto, que está exatamente igual como estava há seis meses o nosso espaço em Alfragide, ou seja, a rebentar pelas costuras. Vamos ter um novo espaço a partir de janeiro, semelhante à dimensão deste, em Oeiras, no Oeiras Tech Valley“, refere o CEO.

Indústria em crescimento

O crescimento da companhia surge num momento geopolítico que faz com que na Europa, mas não só, os orçamentos de defesa estejam mais robustos e muita da aposta esteja a ser feita nas chamadas tecnologias de uso dual (ou seja, uso civil e militar) da qual os drones é uma das faces mais visíveis.

“O momento atual da Europa e com praticamente todos os países a querer aumentar a sua capacidade na área da defesa, impulsiona muito esta área”, admite o CEO da Beyond Vision. Neste momento, o setor de defesa é o que tem tido maior procura.

“Esse é o principal neste momento, o que até há três anos não trabalhávamos de todo, por isso ainda somos bastante recentes nesta área, mas o produto está a ter bastante boa aceitação e é uma área que está a crescer exponencialmente”, reconhece.

Em Portugal, a empresa já desenvolveu projetos com a Marinha e o Exército Português, tendo a nível europeu no primeiro Operational Experimentation (OPEX) da European Defense Agency (EDA), em Itália, por exemplo.

Mas não só. “Nos últimos dois, três anos, a perceção das capacidades dos drones tem evoluído muito. Pela quantidade de notícias que as pessoas são bombardeadas deste setor, começam a perceber muitas capacidades, mesmo no setor civil, da utilização dos drones,” na área de infraestruturas, transporte de energia, construção.

“Infelizmente, na área de logística na Europa ainda existe muita burocracia, mas é uma área que acho que tem muito potencial para crescer no futuro com drones”, aponta. “Já fazemos operações interessantes quer na Alemanha, no Médio Oriente e alguns países de África”, diz.

A conversa sobre os planos de crescimento da Beyond Vision prossegue no segundo piso onde as marcas do atraso da construção são igualmente visíveis. Depois de subir as escadas de metal, deparamo-nos com dois drones montados apoiados nas suas caixas de transporte, dois exemplos do produto da empresa, ao lado de um pequeno auditório para apresentações com um video-hall. Mais à frente, passada a copa, deparamo-nos com uma outra sala, com mais de 800 metros quadrados.

“Está a ver ali? É para ser os Phone Boths”, diz Dário Pedro, apontando para uma zona onde, por agora, só vimos cabines e vidros e pouco mais. “Ali ao fundo vamos derrubar aquela parede e vai ficar a fachada”, relata.

E na sala, onde vários trabalhadores distribuídos por ilhas fixam o olhar nos computadores, não faltam cabos negros a cair do teto para se ligar aos equipamentos. “Acredita que ainda não temos eletricidade?”, confidencia meio estupefacto Dário Pedro, “andamos a trabalhar com geradores.”

Fábrica de drones da Beyond Vision, em AlvercaHugo Amaral/ECO

Dores de crescimento numa empresa em fase de expansão. E nem são os EUA a empurrar o maior crescimento. “Nem são dos nossos principais mercados, comparando com a Europa se calhar representa 10%”, diz Dário Pedro. “Estamos a fazer o mesmo crescimento no Brasil. Temos feito bastantes vendas para lá, já temos pessoas contratadas e estamos a abrir agora escritórios em São Paulo”.

O plano é “criar uma primeira linha de sub-assembly e depois ter alguma capacidade de produção lá para a América Latina toda”, explica. “Estamos a explorar duas joint ventures para o Médio Oriente, uma na Arábia Saudita e outra nos Emirados. E estamos a abrir múltiplos escritórios em países europeus. Estão a ser estudados Espanha, Alemanha, Polónia”, relata.

“Este ano tivemos muitos pedidos da Polónia, estávamos já com o pipeline completamente cheio e a maior parte deles foram migrados para o próximo ano, mas é um mercado que queremos expandir fortemente no próximo ano”, diz.

“Temos tentado o máximo que conseguimos trabalhar em contínuo mas o dia só tem 24 horas e chega a uma altura que não dá para crescer mais rápido. Estamos a tentar fazê-lo ao ritmo mais elevado que conseguimos. Este ano deve ter aumentado na ordem entre os 700 e 800%.”

Fábrica de drones da Beyond Vision, em Alverca.Hugo Amaral/ECO

Nada sendo possível sem talento. Hoje a Beyond Vision conta com 100 trabalhadores, mas até ao final de 2026 a ambição é chegar aos 250.

Mas este — apesar dos diversos cursos de engenharia nacionais colocarem no mercado profissionais — não é um setor de fácil contratação. “Short answer: é muito difícil”, reconhece Dário Pedro. Trata-se de um produto que exige múltiplos talentos de engenharia.

“Temos muita gente quer com mestrados quer com doutoramentos. Desenvolvemos soluções com drones de ponta a ponta, ou seja desde o desenho aeroespacial e mecânico — temos engenheiros mecânicos e aeroespaciais e designers de produtos também trabalhar com essas equipas —; fazemos todo o desenho e desenvolvimento de eletrónica, as nossas boards são totalmente desenvolvidas por nós; o desenvolvimento de robótica, e aí são mais perfis de informática, engenharia eletrotécnica, mecatrónica, em que fazemos algoritmos para os próprios drones, firmwares, kernels para módulos que estão no drone, controladores de voo…”, descreve o cofundador.

“Depois temos equipas de desenvolvimento mais tradicional de software para controlar os nossos drones pela cloud. E com isso conseguimos entregar uma solução final ao cliente em que tem desenvolvimento ponta a ponta.”

“Isso faz com que precisemos de pessoal de engenharia de todas as áreas, praticamente. E embora o ensino em Portugal seja muito, muito bom, os recursos em Portugal são escassos“, sintetiza.

Uma escassez que se estende igualmente ao pessoal técnico. “Pessoal técnico para esta área é também muito difícil de se contratar. Hoje em dia, toda a gente vê quase o futuro dos estudos como seguir uma carreira universitária, em todas as áreas e mais algumas, e em algum trabalho mais técnico — às vezes de grande valor — perdeu-se a ideia de tirar cursos profissionais nessas áreas e trabalhar em empresas focadas nessas áreas. Também existe uma escassez muito, muito grande de recursos para produção de compósitos, para trabalhar com eletrónica. É complexo recrutar também nessas áreas.”

Veja aqui em campo os drones da Beyond Vision:

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