Raio-X dos vinhos do Algarve: o retrato de uma região que quer mais do que sol e praia
Do barrocal à serra, das vinhas ao mar, o Algarve está a apostar na requalificação das vinhas, em enólogos qualificados e no enoturismo. Região quer mostrar que a oferta não é apenas sol e mar.
O Algarve não é apenas sol e mar e a região tem uma ligação inegável à vinha e ao vinho. Em pouco mais de uma década, surgiram novos produtores e novos mercados, com o vinho a assumir um papel de destaque. No entanto, o setor não quer ser reconhecido pela “quantidade, mas sim pela qualidade e a autenticidade”. Da casta rainha à requalificação, descubra o ADN dos vinhos algarvios.
Com uma área total de 1.400 hectares de vinha, a região do Algarve conta com 60 produtores registados de vinho certificado — com a indicação geográfica “Algarve”. É a segunda região vitivinícola com menor área de vinha em produção em Portugal.
A presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA) conta ao ECO que só nos últimos três anos foram concedidos cerca de 180 hectares de novas vinhas, um pouco em contraciclo com o resto do país que vive dos momentos mais dramáticos na história da vitivinicultura portuguesa, com muitos viticultores a deixarem as uvas por colher.

Sara Silva contabiliza ainda que houve uma duplicação de produtores no espaço de oito anos, o “representa um grande dinamismo de novos agentes económicos, cerca de quatro a cinco novos operadores em cada ano”.
O ano passado, a região produziu dois milhões de litros de vinho, um novo recorde. No entanto, a produção de vinho no Algarve deverá registar este ano uma quebra a rondar os 10% em relação ao ano passado, motivada pela instabilidade climática, estima a líder dos vinhos do Algarve. Esta quebra é transversal a várias regiões do país.
Negra Mole, a casta rainha da região algarvia
A casta Negra Mole é a segunda casta portuguesa mais antiga, sendo considerada a casta Algarvia por excelência. A partir de 2010, os produtores perceberam que tinham algo que os diferenciavam de outras regiões, a casta autóctone. Conhecida pela sua versatilidade, a negra mole dá origem a vinhos tintos leves com notas de frutos vermelhos, vinhos rosés, brancos e espumantes.
“Em tempos a Negra Mole foi desvalorizada, muita dela foi arrancada para dar origem a plantações de vinha de outras castas, arrancada para dar origem aos resorts que atualmente conhecemos e aos campos de golfe, mas nestes últimos dez anos temos vindo a assistir à valorização da negra mole e a potenciar-se a sua utilização enológica“, explica ao ECO a líder da CVA.

Joaquim Imaginário, enólogo residente no Morgado do Quintão explica que a “negra mole antigamente era uma casta acima de tudo para fazer lotes, não era uma casta que tinha uma visibilidade muito forte mesmo no próprio Algarve”, destacando que a viragem aconteceu há cerca de dez anos, altura em que os “produtores começaram a olhar para a casta como uma mais-valia, ou seja, a sua casta rainha”.
Face à crescente procura, a presidente da CVA detalha que nos últimos anos a Negra Mole chegou a ser vendida a dois euros o quilo. Estes valores são o reflexo da “sua importância e também um bocadinho da sua escassez, porque não era valorizada, portanto deixámos ter tanta plantação de Negra Mole”. O enólogo residente do Morgado do Quintão contabiliza que no ano passado a negra mole foi vendida entre 1,30 e 1,50 euros por quilo.
Olhando para um panorama geral e não só para a casta negra mole, o enólogo residente do Morgado do Quintão, assegura que “a uva algarvia é neste momento a mais cara a nível nacional”; se contarmos com as ilhas, a mais cara está no Açores.
Região algarvia esgota a produção
A grande maioria (70%) do volume de vinho produzido no Algarve é vendida na região, seja no canal Horeca, seja no enoturismo. A presidente da CVA explica que “não têm produção suficiente” e que a “região esgota o stock”.
“Não temos produção em escala, são produções e áreas bastantes pequenas e quando vamos negociar com grandes superfícies — conhecidas por espremer o preço ao produtor — não conseguimos ter o preço que eles procuram”, afirma Sara Silva, destacando que “é o preço justo” face à qualidade dos vinhos”.
Queremos crescer de uma forma sustentável e com valor acrescentado para os produtores e para a região.
“Queremos crescer de uma forma sustentável e com valor acrescentado para os produtores e para a região”, afiança a líder da entidade que desde 2012 faz a certificação dos vinhos de Denominação de Origem Lagos, Portimão, Lagoa e Tavira e de Indicação Geográfica Algarve.
Sara Silva estima que 70% do vinho algarvio é direcionado aos turistas e os restantes 30% dividem-se entre locais e estrangeiros residentes. Os vinhos são encontrados, essencialmente, em restaurantes de segmento médio alto e em garrafeiras.
A exportação pesa apenas entre 10% a 15%, essencialmente para a Europa (como destaque para a Holanda, Alemanha e alguns países nórdicos), América (EUA e Canadá) e Brasil.
A Quinta do Barranco Longo não exporta os vinhos, com a diretora comercial, Vera Franco, a explicar que “a própria região absorve a produção” e que “não faz sentido procurar a exportação quando têm os turistas à porta”.

“Se há região onde se consegue vender bem os vinhos é aqui, porque o turismo está cá. Eu não preciso de ir a Lisboa buscar turistas, eles já estão aqui”, afirma o enólogo residente do Morgado do Quintão, realçando que “há procura pelos vinhos do Algarve, pelos produtores do Algarve”.
Apesar de a exportação ser pouco expressiva, a líder dos vinhos do Algarve afirma que “não é estratégico explorar mercados que pedem dois euros por litro“. A responsável esclareceu que a exportação “está concentrada no máximo entre 15 produtores”, porque a maior parte “vende tudo na própria região”.
Preço médio do vinho certificado superior ao valor nacional
A líder dos vinhos do Algarve conta ao ECO que o preço médio do vinho certificado no Algarve é superior ao valor nacional, com o preço médio a rondar os 17 euros por litro na restauração e distribuição, enquanto a nível nacional, o preço médio ficou pouco acima dos 4,50 euros.
Os dados da Nielson referentes ao ano passado mostram que os valores médios dos vinhos algarvios estão fixados em 9,31 euros por litro na distribuição, enquanto na restauração situam-se nos 21,78 por litro, uma subida de 0,61 cêntimos e uma descida de 0,35 cêntimos face a 2023, respetivamente. A nível nacional, os vinhos da restauração têm uma média de 8,08 euros e de 2,94 euros na distribuição.

“Queremos valorizar os vinhos e não banalizar a região“, assegura a diretora comercial da Quinta do Barranco Longo. O presidente do Turismo do Algarve corrobora a ideia: “sendo um produto premium da região o que queremos é que ele e se destaque pela qualidade e não pela quantidade”.
Turismo “casa na perfeição” com o enoturismo
Dos 60 produtores, cerca de 25 oferecem experiência de enoturismo, o que mostra o potencial do negócio, diz ao ECO o presidente do Turismo do Algarve, André Gomes.
“O enoturismo, a par da gastronomia, acaba por ser a cola de toda a diversidade da oferta que temos na região”, assegura o líder do turismo do Algarve, destacando que “é um complemento à oferta do Algarve”.
O enoturismo, a par da gastronomia, acaba por ser a cola de toda a diversidade da oferta que temos na região do Algarve.
André Gomes destaca ainda que “os turistas procuram, cada vez mais, aquilo que é a autenticidade dos destinos” e nota que é “o mercado internacional que mais procura este tipo de experiências de enoturismo”, com destaque para o mercado norte-americano, britânico, alemão e irlandês.
“O enoturismo tem sido uma das nossas visões estratégicas para o Vinho do Algarve”, assegura a presidente da CVA, que nota que os consumidores procuram vinhos mais leves, mais frescos e menos alcoólicos, o que contrasta com a gastronomia e o clima.
Os produtores não têm dúvidas que o enoturismo é uma aposta rentável e uma forma de dar a conhecer os vinhos e todo o processo envolvente. A título de exemplo, no Morgado do Quintão o enoturismo já pesa 50% da faturação, com a herdade a receber 12 mil visitantes por ano oriundos essencialmente da Holanda, Canadá e EUA. Nos Vinhos Cabrita o enoturismo pesa 35% do volume de negócios.

Os produtores que ainda não apostaram neste segmento estão a investir nesse sentido, como é o caso da Quinta do Barranco Longo, que está a desenvolver um projeto de enoturismo há cerca de um ano, com conclusão prevista para o final do próximo ano, um investimento que varia entre três a quatro milhões de euros.
“É uma aposta que faz todo o sentido na região, já temos cá os turistas só temos que os chamar até às adegas para presenciarem o que de bom se faz na região e mostrar que a região não é só sol e praia”, diz Flávia Luz, enóloga na Quinta do Barranco Longo, que tem uma produção de 170 mil garrafas ao ano.
O enólogo residente nos Vinhos Cabrita elogia o trabalho que tem vindo a ser feito por todos os intervenientes do setor. “Para além da qualidade dos vinhos, o Algarve tem trabalhado muito bem na oferta do enoturismo”, enfatiza Dinis Gonçalves.
O vice-presidente da associação Portuguesa de Enoturismo (Apeno), Luís Sá Souto, contabiliza ao ECO que o enoturismo é responsável por uma faturação de 350 milhões por ano, embora os números não sejam claros porque não existe um CAE ou sub-CAE para este segmento.
Para além do casamento perfeito, a líder dos Vinhos do Algarve refere que o enoturismo é um aliado para reduzir a sazonalidade ao “contribuir bastante para trazer mais pessoas em épocas diferentes do ano”.
Escassez de agua, o calcanhar de Aquiles
O Algarve sempre se deparou com o problema da escassez de água. Com mais de três mil horas de sol anuais e uma fraca precipitação média, o clima distingue-se por ser quente, seco, pouco ventoso e com amplitudes térmicas reduzidas.
“O Algarve é das zonas do país e, que menos chove, por isso temos que utilizar a água disponível de uma forma muito controlada”, afiança Dinis Gonçalves, enólogo residente nos Vinhos Cabrita.
Furos e barragens próprias são algumas das soluções dos produtores para combater a escassez da água. “Como técnico, o que nós temos é que arranjar processos para que as nossas videiras não sucumbam à secura”, diz o enólogo Joaquim Imaginário.
O recurso a novas tecnologias e o controlo e monitorização dos consumos de água são algumas das medidas que têm vindo a ser aplicadas pelos produtores. “Cada vez mais temos que utilizar técnicas e instrumentos que nos permitam aproveitar ao máximo algo que é tão escasso como a água“, diz o enólogo do Morgado do Quintão, destacando que o setor tem que apostar na tecnologia.
A líder dos vinhos do Algarve recorda que “existem muitos investimentos em curso para a região”, de forma a “criar mais reservas de água e uma utilização mais eficiente de água”. No entanto, evidencia que “já estão habituados a trabalhar com restrições de água e que mesmo assim conseguem ter uma agricultura bastante eficiente”.
No entanto, Sara Silva alerta que, “para serem competitivos, precisam de água” e que é “preciso continuar a pressionar as entidades governativas para fazerem os investimentos que estão perspetivados”, nomeadamente a dessalinizadora do Algarve. O equipamento terá uma capacidade inicial de produção de 16 milhões de metros cúbicos de água por ano, podendo ser ampliada para 24 milhões, e deverá estar concluído até ao final de 2026.
Do Barlavento ao Sotavento, a diferença está no terroir
No Algarve existem quatro regiões com Denominação de Origem: Lagos, Portimão, Lagoa e Tavira. É ainda produzido em toda a região vinho com Indicação Geográfica Algarve. O que distingue as regiões é acima de tudo o terroir.
A zona do Barlavento tem mais influência atlântica, por isso tem condições mais frescas e húmidas, enquanto o Sotavento distingue-se por condições edafoclimáticas mais quentes e secas devido a proximidade do mar mediterrâneo.
Joaquim Imaginário afirma que o “Algarve ainda não foi totalmente explorado” e que o objetivo passa por começarem a explorar os terroirs na serra, principalmente na Serra de Monchique. “Podemos ter vinhos de altitude, por exemplo Monchique tem uma altitude máxima de cerca de 900 metros, isto pode diferenciar ainda mais os nossos vinhos, a nível de frescura e componente aromática”.
Da destruição das vinhas até à aposta na produção própria e enólogos especializados
Como região vitivinícola, o Algarve tem uma longa tradição que remonta à época dos Fenícios e Gregos, que introduziram o vinho na região através não só do comércio, como também do seu cultivo, entre os séculos VIII a.C. e VI a.C.
Em 1994, o setor vitivinícola da região encontrava-se fortemente desprotegido e economicamente fragilizado. Os principais agentes económicos, as adegas cooperativas, passavam enormes dificuldades financeiras. Esta situação teve o seu pico com o encerramento da Adega Cooperativa de Tavira (1992), da Adega Cooperativa de Portimão (1997) e com a fusão, anos mais tarde (2007), da Adega Cooperativa de Lagoa com a Adega de Lagos, dando origem à única Adega Cooperativa do Algarve.
A acrescentar a esta instabilidade, entre os anos 80 e 90 grande parte das vinhas e terras agrícolas do Algarve cediam ao crescimento do turismo. “Houve uma invasão brutal de turismo, especulação imobiliária, portanto, muitas pessoas começaram a destruir suas próprias vinhas onde nascerem grandes infraestruturas hoteleiras”, lamenta o enólogo do Morgado do Quintão, recordado que “deu-se um decréscimo brutal da área vitícola do Algarve”.

No entanto, Joaquim Imaginário destaca que “hoje em dia essa área começa a recuperar pouco a pouco, por parte do investimento não só dos próprios produtores, mas também de investidores estrangeiros que escolhem viver a sua reforma neste paraíso chamado Algarve e acabam por dedicar-se à produção de vinho”. A acrescentar aos grandes tubarões do setor que também rumaram em direção ao sul do país, como por exemplo a Casa Santos Lima (maior produtor da região) e a Aveleda.
“Obviamente que é uma produção muito residual, mas que sempre vai aumentando o volume do vinho algarvio e o próprio volume de negócios de uma produção vitivinícola”, diz o enólogo do Morgado do Quintão, herdade com mais de dois séculos de história.
Apesar da longa tradição, o vinho regional do Algarve só começou a ser certificado a partir da viragem do milénio. “A partir dos anos 2000 alguns produtores que entregavam uva na adega cooperativa começaram a fazer as suas produções particulares”, explica a líder da CVA.
A partir dos anos 2000 alguns produtores que entregavam uvas na adega cooperativa começaram a fazer as suas produções particulares.
Dinis Gonçalves, enólogo residente nos Vinhos Cabrita, realça que “há 20 anos, os vinhos do Algarve não tinham identidade — e a identidade que tinham não era bem vista — não tinham notoriedade nem posicionamento no mercado. Quem provava os vinhos não notava Algarve”.
O enólogo residente nos Vinhos Cabrita considera que a partir de 2015 começa uma “nova era para os vinhos do Algarve”, com particular enfoque na casta negra mole — que dá origem a vinhos mais leves, com menos álcool e menos cor.

Sara Silva afirma que os “produtores investiram muito na requalificação das suas vinhas e das suas adegas, na capacitação dos seus recursos humanos e na contratação de enólogos qualificados por esse efeito” e que passados 20/25 anos “estão a colher os frutos do investimento”.
“Alguns produtores mais resilientes, com marca própria, começaram a desenvolveram outro tipo de práticas, a criar vinhos mais frescos, com menos teor alcoólico e tudo isto veio revolucionar os vinhos do Algarve”, diz Joaquim Imaginário, enólogo residente do Morgado do Quintão.
Os consumidores reconhecem já se fazem vinhos com qualidade no Algarve.
Todo este trabalho que tem vindo a ser desenvolvido já está a dar frutos com “os consumidores reconhecerem que já se fazem vinhos com qualidade no Algarve “, diz com orgulho o enólogo do Morgado do Quintão.
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