Três semanas de Fórmula 1 com 5.000 pessoas por dia. “Agora vem a parte complicada”
Feito o anúncio do regresso da F1, os bastidores começam a agitar-se. O presidente da Parkalgar descreve uma exigente lista de tarefas. Já na segunda-feira virá a FIA para inspeção ao autódromo.

Cinco mil pessoas por dia, em média, durante três semanas, vão invadir o Algarve em 2027 e 2028 para prestarem serviços às equipas e prepararem o Autódromo Internacional do Algarve (AIA) para o Grande Prémio de Portugal em Fórmula 1. A estes juntar-se-ão, segundo perspetiva da organização, entre 60 mil e 80 mil espetadores nas bancadas.
A concentração de todos os que prepararam a prova e a asseguram começará duas semanas antes e prolongar-se-á pela semana após o fim de semana em que os pilotos estarão em palco na pista de 4.684 metros, antevê o presidente da Parkalgar, entidade gestora do autódromo.
“Não é um campeonato do Mundo de futebol, mas trata-se de um espetáculo de grande dimensão. Por alguma razão o chamam de ‘circo’”, destaca Jaime Costa em entrevista ao ECO/Local Online. “Agora vem a parte complicada. Não que a negociação para trazer a Fórmula 1 tenha sido fácil”, realça o CEO da Parkalgar.
Não é um campeonato do Mundo de futebol, mas trata-se de um espetáculo de grande dimensão. Por alguma razão chamam de ‘circo’
Entre os trabalhos necessários, enunciados por Jaime Costa estão “algumas melhorias, não muito expressivas, na pista e nas infraestruturas”.
Em 2020, por exemplo, quando a Fórmula 1 regressou a Portugal, fruto de um plano de contingência da Fórmula 1 determinado pelos constrangimentos provocados pela pandemia de Covid-19, a Parkalgar teve de reasfaltar a pista.
A presença do Moto GP desde há vários anos, com contrato assinado ainda para 2026 (e negociações em curso para três anos mais), não é garantia de adaptação da pista, afirma Jaime Costa, já que as especificações para a corrida dos monolugares de Fórmula 1 são distintas.

“É impossível rentabilizar estes eventos do ponto de vista financeiro”
Jaime Costa terá em 2027 a sua primeira prova de fogo enquanto líder da estrutura que receberá o Grande Prémio de Fórmula 1. Nas edições de 2020 e 2021, a sua função estava confinada a diretor financeiro, mas com a morte de Paulo Pinheiro (grande dinamizador do AIA e seu presidente até ao falecimento em 2024), Jaime Costa subiu ao lugar mais alto da hierarquia.
A grande rentabilização é pelo impacto económico gerado. É evidente que houve contributo do Estado. O grande retorno disto não é financeiro, é económico. Os principais beneficiários dos eventos são os operadores económicos que não pagam pelo evento.
Com a experiência de 15 anos à frente das finanças da estrutura – desde o primeiro ano da chegada da troika a Portugal, em tempos em que a Parkalgar teve de lidar com pedidos de insolvência –, Jaime Costa pode afirmar que, quando se trata de apoios públicos, “normalmente, a guerra é grande”.
Das autarquias, o principal suporte vem de Portimão, onde o autódromo se encontra, de Albufeira e também da vizinha Lagoa. Ocasionalmente, Lagos também participa, resume. Apesar de a região ter 16 municípios, os apoios autárquicos ficam por aqui, assegura.
“É impossível rentabilizar estes eventos do ponto de vista financeiro. Ninguém, com receitas do evento consegue pagar o fee de F1 nem Moto GP. É impossível um privado rentabilizar financeiramente um investimento destes”, assegura o CEO da Parkalgar.

“A grande rentabilização é pelo impacto económico gerado. É evidente que houve contributo do Estado. O grande retorno disto não é financeiro, é económico. Os principais beneficiários dos eventos são os operadores económicos que não pagam pelo evento. Hotéis, energia, telecomunicações, restaurantes, rent-a-car, lavagem de roupa e outros fornecedores de hotéis”, descreve.
À Parkalgar caberá pagar parte do fee e os custos operacionais, salienta. “É natural que o Estado, para promover emprego e crescimento económico, apoie”, realça o gestor.
Entre os pontos onde o investimento será necessário estão os acessos e mobilidade. Para tal, reunir-se-á em breve um grupo de trabalho com a Parkalgar, os ministérios da Economia e das Infraestruturas e Habitação e, em princípio, também a Câmara de Portimão, para estudo do reforço das estradas que servem o AIA, desvenda o gestor.
“É uma das prioridades. O grupo de trabalho vai procurar soluções”, revela, notando que para lá do acesso direto à A22 e à EN125, existem estradas com menos tráfego proveniente da zona da serra. “Não vamos criar novas estradas, mas há trabalhos para infraestrutura de menor débito que existe à volta”.
O caderno de encargos para 2027 começará a desenhar-se já a 22 de dezembro, durante a visita de inspeção da Federação Internacional do Automóvel (FIA). “Temos que ter a pista homologada. Vêm inspecionar a pista e parte dos trabalhos a fazer virá dessa inspeção. Não esperamos grandes disrupções, mas haverá sempre coisas para fazer”, diz o responsável máximo da Parkalgar.
Cada vez mais, estes eventos têm muito a ver com o lazer, temos de pensar muito bem que tipo de produto vamos desenvolver para os espetadores, criar entretenimento.
No interior do autódromo, terá que haver algum aumento das bancadas, mas “nada de substancial”, assegura. Num cenário menos otimista, de 60 mil espetadores, o autódromo “não necessitaria de grande investimento”, enquanto para o máximo do intervalo projetado pela Parkalgar, o de 80 mil fãs a assistir, a organização irá projetar trabalhos mais profundos.
Mais crítica para a experiência dos fãs é a designada “hospitalidade”, diz. “Cada vez mais, estes eventos têm muito a ver com o lazer, temos de pensar muito bem que tipo de produto vamos desenvolver para os espetadores, criar entretenimento”, descreve, acrescentando: “Sem ser exato nos timings, temos ano e meio para trabalhar”.
Com o calendário de provas para 2027 ainda longe de estar fechado, a F1 deverá correr em Portimão entre junho e outubro, sendo agosto pouco provável, destaca Jaime Costa, visto que apenas uma prova do campeonato se disputa nesse que é o mês mais forte para o turismo algarvio.
Para promover as duas provas, em 2027 e 2028, junto do público internacional, a Parkalgar começará em breve a construir uma equipa de marketing do evento fora de Portugal, desvenda.
Ainda é cedo para avançar preços de bilhetes, explica Jaime Costa, cuja organização irá agora “estudar preços dos outros circuitos com produtos parecidos. Temos ano e meio de inflação. Ainda não começámos a definição de preços, produtos e campanhas. Só podemos vender bilhetes a meio de 2026”, destaca o líder da empresa gestora do AIA.
Instado pelo ECO/Local Online a olhar para outro destino ibérico, Barcelona, o CEO da Parkalgar nota que os preços de bilhetes para o Grande Prémio de Espanha têm intervalos entre 100 e 900 euros. Entre as variáveis para democratizar a modalidade está a oferta de lugares no designado “peão”, zonas em pé junto da rede. “Não temos essa prática”, realça, e isso tem sido visível no Moto GP, a outra prova de nível mundial realizada em Portimão.
Certo é que a região terá de se adaptar a uma torrente de gente que, duas semanas antes, aparecerão para iniciar o trabalho de segurança e credenciação de participantes, montar sistemas de televisão e telecomunicações para o “Grande Circo”. Hotelaria, rent-a-car, restaurantes, telecomunicações e energia, comércio local e supermercados serão os pontos de afluência destes milhares de pessoas.
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