Luta pela presidência da CCDR Norte revela dissidências de fundo no PSD autárquico

Nas 86 câmaras da CCDR Norte, 53 deram vitória a Álvaro Santos, mas das 33 que optaram por António Cunha, oito são PSD. Independente chegou a arrecadar 100% dos votos em território "laranja".

Nas eleições que deram a vitória a Álvaro Santos para presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Norte, com 56,2% do total dos votos, os três concelhos que votaram de forma mais esmagadora no adversário são todos liderados pelo PSD.

Recorde-se que António Cunha, nome consensualizado pelo PS e PSD em 2020 para liderar esta estrutura, foi preterido este ano pelos dois partidos, a favor de Álvaro Santos, vice-presidente da Câmara de Gaia, levando a que Cunha avançasse enquanto independente. Ainda assim, apesar de se candidatar contra o candidato acordado entre PS e PSD, Cunha atingiu 40% dos votos do colégio eleitoral no Norte.

Na lista de votações a que o ECO/Local Online teve acesso, a soma dos votos dos vereadores e dos deputados municipais (nestes incluem-se os eleitos para a Assembleia Municipal e os presidentes de junta de freguesia), mostram uma realidade que põe em causa o alinhamento entre algumas estruturas locais do PSD e a sede nacional: Terras de Bouro, Mogadouro e Vila Nova de Foz Côa foram absolutamente esclarecedores na opção por aquele que confrontou o candidato de Luís Montenegro.

Em Terras de Bouro reuniu 100% dos 32 votos — ao todo, existiam 34 potenciais votantes, entre presidente, vereadores, deputados municipais e presidentes de junta. Em Mogadouro, apenas um voto entre 47 “escapou” a António Cunha, e em Foz Côa só um eleitor dos 27 optou pelo nome indicado pelo PSD.

Em Gaia, concelho onde Álvaro Santos chegou a vice-presidente da Câmara há menos de três meses, a votação dos vereadores e deputados municipais foi renhida entre o agora autarca demissionário e o presidente da CCDR Norte dos últimos cinco anos.

Ainda que o vice-presidente de Gaia, António Santos, tenha batido Cunha por 24-18 no seu concelho, o número de eleitores que optaram por si foi exatamente o mesmo dos que votaram em branco. Nenhum outro concelho se aproximou destes 24 brancos. Porto e Póvoa de Varzim, os mais próximos nesta categoria, registaram nove votos brancos, cada.

“As eleições para a Presidência da CCDR Norte foram um momento claro de afirmação da vontade de mudança”, escreveu Álvaro Santos na sua conta de Linkedin. Com tónica na ideia de “novo ciclo”, diz assumir “esta vitória com um profundo sentido de responsabilidade institucional, consciente de que ela representa confiança num projeto coletivo assente na exigência, na ambição e na capacidade de fazer melhor”.

As eleições para a Presidência da CCDR Norte foram um momento claro de afirmação da vontade de mudança. Assumo esta vitória com um profundo sentido de responsabilidade institucional, consciente de que ela representa confiança num projeto coletivo assente na exigência, na ambição e na capacidade de fazer melhor.

Álvaro Santos

Presidente eleito para a CCDR Norte

Nos corredores autárquicos a Norte, o ECO/Local Online ouviu de várias fontes a suspeição de que os autarcas do PS, partido que acordou um candidato único para cada uma das restantes quatro CCDR, furaram a opção por Álvaro Santos e preferiram ficar ao lado de António Cunha.

Ainda assim, nos dez municípios com maior votação no presidente agora eleito, dois são socialistas, Santo Tirso e Paços de Ferreira.

No total de 86 câmaras que compõem a CCDR Norte, 53 deram vitória a Álvaro Santos. Das 33 autarquias que optaram por António Cunha, oito são governadas pelo PSD (Caminha, Armamar, Amares, Melgaço, Braga, Foz Côa, Mogadouro e Terras de Bouro) uma, Vizela, é independente, embora liderada por um socialista, e as demais têm presidência do PS.

Agradeço a todos quantos, corajosamente, apoiaram o meu projeto. Com os diretórios partidários centrais tão fortemente empenhados, estas eleições seriam uma disputa entre David e Golias. Mas não foram. O Norte mostrou o seu carácter. Felicito o vencedor e faço votos para que o Norte prossiga um caminho de crescimento e desenvolvimento, não desistindo do combate contra o centralismo.

António Cunha

Presidente da CCDR Norte desde 2020 e candidato derrotado nestas eleições

“Agradeço a todos quantos, corajosamente, apoiaram o meu projeto. Com os diretórios partidários centrais tão fortemente empenhados, estas eleições seriam uma disputa entre David e Golias. Mas não foram”, escreveu António Cunha na sua conta de Linkedin. “Foi um bom combate pelo Norte. Sinto-me recompensado pelo resultado tão expressivo que alcancei”, afirmou, ainda, deixando uma felicitação ao vencedor e o desejo de que não desista do “combate contra o centralismo”.

Única CCDR com luta a dois

Tal como agora acontece com Álvaro Santos, também António Cunha chegou à cadeira de presidente na sequência de um acordo entre PS e PSD, no seu caso em 2020, com António Costa e Rui Rio como líderes nacionais. Para as eleições desta segunda-feira, os social-democratas optaram por um nome que levantou contestação, em parte devido à sua desistência do cargo de vice-presidente de Gaia, onde chegara há menos de três meses.

Em 2020, António Cunha, então o nome consensualizado entre os dois maiores partidos autárquicos, foi eleito com 2.397 votos entre os 3.304 votantes (num colégio eleitoral total de 4.091), naquela que foi a primeira vez que os presidentes das CCDR eram eleitos.

Já nesta segunda-feira, segundo dados a que o ECO/Local Online teve acesso – ainda sem a validação pela Direção Geral das Autarquias Locais (DGAL), de quem se espera a publicação –, houve 3.916 votos, dos quais 2.201 para Álvaro Santos e 1.566 para o seu opositor.

É falso que o PS apoie, em concreto, os nomes indicados pelo PSD para as CCDR’s e vice-versa. O acordo nacional entre PS e PSD assenta na indicação dos candidatos a presidente feita pelo partido mais representado na região em causa. Não pressupõe que o principal partido da oposição nessa mesma região manifeste qualquer apoio explícito aos nomes em causa, portanto nunca significando que as personalidades tenham o apoio concreto e pessoal do outro partido.

João Paulo Correia

Vereador do PS na Câmara de Vila Nova de Gaia e presidente do PS Gaia

Uma das notas das eleições desta segunda-feira é a redução dos votos brancos, refletindo o espírito de confronto que existiu nesta região, a única onde o candidato não estava previamente acordado entre PS e PSD. Se em 2020 votaram em branco 759 eleitores, agora foram apenas 125. Já os nulos desceram de 148 para 25.

Menos clamorosa, mas porventura mais significativa, foi a derrota de Álvaro Santos em Braga, município governado durante 12 anos em maioria absoluta pelo PSD, partido que nas últimas autárquicas praticamente empatou com os socialistas e ficou com apenas três de onze vereadores e somente 11 de 38 deputados municipais. Nesta segunda-feira, 52 eleitores optaram pelo ex-presidente, antigo reitor da Universidade do Minho, e 24 pelo nome acordado este ano entre PSD e PS.

Já em Guimarães, cidade igualmente abrangida pelos polos daquela universidade, mas com uma alteração no partido que governa a autarquia (Ricardo Araújo terminou com 36 anos de hegemonia socialista) Álvaro Santos teve 79 votos, contra 32 do ex-reitor.

O líder da lista socialista nas autárquicas de 12 de outubro, João Paulo Correia, foi, a Norte, uma das vozes mais críticas na praça pública contra a candidatura de Álvaro Santos, tendo negado que pudesse haver apoio do PS local a esta candidatura, ao invés do que anunciou o presidente da autarquia.

É falso que o PS apoie, em concreto, os nomes indicados pelo PSD para as CCDR e vice-versa”, afirmou o vereador socialista de Gaia, depois de Menezes ter escrito nas redes sociais que “Luís Montenegro e o secretário-geral do PSD [Hugo Soares] confirmaram a aceitação [da sua proposta de Álvaro Santos para presidente da CCDR-N] e também o apoio do Partido Socialista a essa eleição”.

Nesta eleição, os deputados e membros do Executivo não se podiam fazer substituir para a eleição, e aqueles que tomaram posse após 3 de dezembro não podiam votar.

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