Colep admite deslocalizar produção. “Não podemos ser infantis ao ponto de não olharmos para isso”

Presidente executivo da Colep Packaging admite estar a estudar possibilidade de deslocalizar produção. Mas garante que "não está nos planos imediatos", porque isso seria reagir a quente às tarifas.

Não podemos ser infantis ao ponto de não olharmos para isso.” É desta forma que o CEO da Colep Packaging responde se está a analisar a possibilidade de deslocalizar a produção tendo em conta a guerra tarifária em curso. Uma deslocalização que poderá ocorrer para “qualquer mercado fora da Europa”. No entanto, Paulo Sousa garante que essa possibilidade não está “nos planos imediatos”.

“Não está nos nossos planos imediatos, mas sim, estudamos as possibilidades, até porque toda esta situação a nível de trade na Europa ainda não está completamente definida”, afirmou no ECO dos Fundos, o podcast quinzenal do ECO sobre fundos europeus. “Qualquer movimento, neste momento, seria uma reação espontânea àquilo que está a acontecer“, acrescentou.

“Se estivermos a falar de deslocalizações por causa das questões tarifárias e tal e qual como estão as questões tarifárias, qualquer mercado fora da Europa faria sentido”, sublinhou precisando que “os mercados mais próximos e mercados que já são muito fortes ao nível da embalagem, como a Turquia ou mesmo o Egito” são uma possibilidade. “Mas operações na China ou noutras áreas são todas possíveis”, disse.

O CEO da Colep espera que haja bom senso na Europa para ajudar a indústria do aço em todas as suas vertentes e não apenas as aciarias, porque isso é, na sua opinião, repetir o erro cometido pelos Estados Unidos no passado.

“Eles sabem que o têm de fazer, mas não sabem como podem fazer e têm urgência em mostrar que estão a fazer alguma coisa. Com toda esta urgência vão fazer alguma coisa para suportar o aço e depois vão tentar arranjar uma solução para o resto da indústria”, defende. Uma solução que, no seu entender deve passar por “um aumento das tarifas não só para a matéria-prima, mas para todos os outros subprodutos dessas matérias-primas”.

O contexto em que as empresas estão inseridas é desafiante. No caso específico da metalomecânica têm as novas tarifas à importação de 50% e agora a nova ameaça de Donald Trump de impor tarifas adicionais de 10% por causa da Gronelândia. Como é que uma empresa altamente exportadora e altamente penalizada por estas quotas e estas tarifas se posiciona perante tudo isto?

Não tínhamos um grande foco na área de trade. E mesmo nas associações não estávamos tão preocupados com a área de trade porque a OMC resolvia. A Europa sempre foi bastante justa a nível de trade. Os parceiros que existiam também eram. Havia situações de anti-dumping que eram resolvidas. Nos últimos dois anos as coisas alteraram-se significativamente. Temos os Estados Unidos com uma política de trade quase como castigo para quem não fizer aquilo que eles querem que seja feito e também para dinamizar a sua economia. Já agora, uma política de trade, se calhar, bastante melhor do que aquela que eles fizeram antes. Temos uma Europa também a tentar salvaguardar as suas indústrias, mas a pensar um bocadinho como os Estados Unidos o fizeram há dez ou 15 anos e que na realidade as destruíram.

Porquê?

Porque protegem apenas uma parte da indústria, protegem apenas uma parte da matéria-prima e esquecem-se de proteger a indústria como um todo. E a segunda questão é, as medidas protecionistas, desse ponto de vista, fazem sentido sempre que, associadas a isso, vêm medidas de aumento de competitividade significativa das indústrias. Se isso não acontecer, basicamente o que estamos é a criar um protecionismo que depois leva a que as indústrias sejam laxistas, deixem de ter a sua competitividade e operem num mercado que está sob um protetorado.

São artificialmente protegidas.

Artificialmente protegidas. Isso aconteceu nos Estados Unidos: quando protegeram a indústria do aço nos Estados Unidos, as aciarias, não protegeram a indústria downstream. O que aconteceu foi um não investimento na indústria do aço dos Estados Unidos, uma completa falta de competitividade desta indústria, com os parceiros exteriores a aproveitarem para enviar para lá aço. Neste momento, a política norte-americana já contempla toda a cadeia de valor.

Temos os EUA com uma política de trade quase como castigo para quem não fizer aquilo que eles querem que seja feito e também para dinamizar a sua economia. Já agora, uma política, se calhar, bastante melhor do que a que fizeram antes.

Sente que Bruxelas está sensível ao vosso argumento? Ciente que não pode apoiar só a siderurgia, mas também as empresas que trabalham com o aço?

Eles sabem que o têm de fazer, mas não sabem como podem fazer e têm urgência em mostrar que estão a fazer alguma coisa. Com toda esta urgência vão fazer alguma coisa para suportar o aço e depois vão tentar arranjar uma solução para o resto da indústria.

Do seu ponto de vista qual deveria ser a solução?

Podemos ir a dois extremos. Ou temos um extremo que é a liberalização completa — o investimento total da Europa em tornar a indústria do aço competitiva na Europa e dessa forma impedir que haja vinda de outras matérias-primas, de outras regiões. Neste momento e dado o processo que aconteceu isso não é possível, portanto, é preciso mesmo salvaguardar de alguma forma. Mas para fazer esta salvaguarda precisamos de pôr tarifas em tudo o resto. Teria de ser um aumento das tarifas não só para a matéria-prima, mas para todos os outros subprodutos dessas matérias-primas. Se exportarmos um equipamento para os Estados Unidos, a quantidade de alumínio ou de aço no produto está sujeita às mesmas tarifas que estaria a matéria-prima. Isso impede que venham produtos semi-acabados ou já acabados de fora.

Algo que acontece neste momento na Europa?

Neste momento permite-se isso.

Produtos chineses? Turcos?

Sim, de várias economias, quer seja da Turquia, quer seja da Ásia. A entrada é feita por códigos pautais. O código pautal da matéria-prima está protegido. Todos os códigos pautais que sejam diferentes da matéria-prima podem entrar. Desde máquinas, linhas de produção, embalagens vazias ou partes das embalagens, podem entrar dos mercados fora da Europa, livremente na Europa, sem pagar qualquer tipo de tarifas. O que significa que esses mercados podem comprar a matéria-prima mais barata internacionalmente e incorporá-la nos seus produtos.

O comissário dizia que isso não era um grande problema porque o impacto da incorporação dos materiais num automóvel são dez euros e numa máquina de lavar são cinco. Mas, se estivermos a falar de coisas tão simples como postos de eletricidade ou uma lata de tomate, que são cerca de 50% a 60% de matéria-prima e o resto é a transformação que fazemos, o impacto já é muito significativo. Estamos a falar de bens, alguns de primeira necessidade para os consumidores, outros são equipamentos que gastamos constantemente nas nossas cidades.

“As medidas protecionistas fazem sentido sempre que associadas a isso vêm medidas de aumento de competitividade significativa das indústrias”, defende Paulo Sousa, CEO da Colep, em entrevista ao podcast “ECO dos Fundos”.Hugo Amaral/ECO

Isso deve ter um impacto na vossa atividade. Para 2026, qual o acréscimo de preço que uma embalagem que vocês produzem vai sofrer por via destas tarifas?

A estimativa, que é feita, inclusive pela Orgalim, é que o impacto possa ir até 30% nos mais diversos materiais. Pode ir entre 7% a 30%, dependendo dos tipos de materiais.

A Colep vai aos 30% ou vai tentar incorporar o aumento do custo, reduzindo a sua margem para tentar não aumentar os preços?

A Colep sempre teve uma postura não completamente exposta aos mercados exteriores. Sempre apostámos numa capacidade de reação ao mercado e, portanto, temos uma grande parte da nossa matéria-prima europeia e apenas uma pequena parte é exposta internacionalmente. Mas sabemos que há determinados segmentos e determinados operadores no mercado que estarão menos expostos à Europa e mais expostos aos mercados externos. Alguns dos mercados de embalagens em que sentimos aumentos na casa dos 20%, 30%.

A fábrica no México é uma forma de conseguirem contornar as tarifas, ou seja, deslocalizar partes da produção?

Essa, particularmente, não. Há uma necessidade, de facto, do tipo de embalagens que produzimos no mercado de Centro-América, desde México, Colômbia, agora Venezuela com possibilidades, e outros países no Centro-América. Essencialmente, 90% da produção dessa fábrica vai para o Centro-América. Haverá 10% que provavelmente irão para os Estados Unidos e que são pontuais. Acredito que haja mais probabilidades de, através do México, continuar a fornecer os Estados Unidos, até porque os governos acabam por se alinhar e entender. Mas sim, existem outras oportunidades que se calhar poderão fazer sentido, nomeadamente a nível europeu.

Não podemos ser infantis ao ponto de não olharmos para isso. Não está nos nossos planos imediatos, mas sim, estudamos as possibilidades. (…) Qualquer movimento, neste momento, seria uma reação espontânea àquilo que está a acontecer.

Como por exemplo?

A continuidade de tais tarifas e a continuidade da possibilidade de entrada de produtores externos no mercado europeu pode fazer com que algumas das empresas, quer seja de embalagens, quer seja de outro tipo, procurem outros mercados onde instalar as suas produções para poder tirar benefícios da matéria-prima mais barata e continuar a poder entrar no mercado europeu.

A Colep está a analisar alguma dessas oportunidades neste momento?

Não podemos ser infantis ao ponto de não olharmos para isso. Não está nos nossos planos imediatos, mas sim, estudamos as possibilidades, até porque toda esta situação a nível de trade na Europa ainda não está completamente definida. Qualquer movimento, neste momento, seria uma reação espontânea àquilo que está a acontecer. As normativas e as regulamentações ainda não saíram na sua totalidade, serão votadas no dia 27 de janeiro nas comissões e depois mais tarde no Parlamento. Ainda espero que haja um pouco de bom senso e que haja formas de, rapidamente, defender melhor a indústria europeia e permitir que a indústria europeia, de facto, tenha fundos para aumentar a sua competitividade.

Quais seriam os mercados onde faria sentido a Colep pensar essa deslocalização?

Se estivermos a falar de deslocalizações por causa das questões tarifárias e tal e qual como estão as questões tarifárias, qualquer mercado fora da Europa faria sentido. Porque permitia ter matéria-prima mais barata, e, dessa forma, exportá-la para a Europa sem tarifas. Claro que os mercados que estão aqui mais próximos e mercados que já são muito fortes ao nível da embalagem, como a Turquia ou mesmo o Egito têm algumas questões. São mercados que estão mais próximos. Mas operações na China ou noutras áreas são todas possíveis.

Neste momento, por exemplo, os agricultores italianos estão a tentar colocar uma medida de anti-dumping à importação de tomate, enlatado da China. Já não é apenas uma questão da embalagem, é uma questão do produto já feito vir diretamente da China. Um estudo alimentar relativo a milho doce, também enlatado, revela que o consumidor preferia o milho chinês, apesar da quantidade de açúcar que tinha versus a quantidade de açúcar do milho europeu. Começa a haver produção exterior, não apenas da embalagem em si, mas também do produto final, que pode entrar na Europa.

Os “mercados que estão mais próximos” são uma opção de eventual deslocalização de produção. “Mas operações na China ou noutras áreas são todas possíveis”, diz Paulo Sousa, CEO da Colep, em entrevista ao podcast “ECO dos Fundos”.Hugo Amaral/ECO

A União Europeia devia ser mais aguerrida na tentativa de equilibrar as regras de competitividade?

Claro que sim. A Europa tentou fazer isso via sustentabilidade, queria ser, como eu lhe chamava, a Califórnia do mundo. A Califórnia, nos Estados Unidos, começou com toda a questão ambiental e da sustentabilidade, fazendo disso uma bandeira. A Europa tentou fazer isso. O grande problema é que os compromissos que existem dos diferentes grupos económicos internacionais não são os mesmos. A Europa foi a única que disse que até 2030 iria ter uma redução significativa da sua pegada de carbono. Todos os outros diziam que iam fazer o melhor que pudessem para lá chegar. E com isto a Europa criou um sentido de urgência e uma série de normativas que, em vez de serem normativas que podem gerar competitividade da indústria europeia, estão basicamente a criar mais burocracia e mais custos a essa indústria europeia.

No vosso setor foram mesmo criadas novas regras em dezembro de 2025 a aplicar a 1 de janeiro de 2026.

Sim. Temos várias burocracias, várias regras, alterações do quadro tal como está e, acima de tudo, temos uma Europa focada na sustentabilidade e na pegada ambiental e em criar todo um peso a esta indústria.

E que torna tudo o que é importado mais barato.

Por um lado, tudo o que é importado mais barato, por outro, a falta de competitividade das nossas indústrias, porque nem sequer se conseguem modernizar. Por exemplo, o Cibam, o mecanismo de ajuste de carbono transfronteiriço, supostamente iria equalizar a entrada de determinados produtos na Europa, que neste momento já pagam créditos de carbono e que iriam obrigar os outros produtores a pagarem também esses créditos de carbono. No entanto, a Europa resolveu que quem tem o ónus de verificar qual a pagada de carbono desses produtores e quanto é que pagam, é da pessoa que importa, da empresa europeia. Existem milhões de euros, neste momento, a serem gastos por empresas europeias a reportar isto à comunidade económica europeia para que depois eles façam a coleção deste dinheiro.

Os Estados Unidos adotam uma medida completamente diferente. Se quisermos vender medicamentos para os Estados Unidos, temos de ser aprovados. Contratamos um instituto norte-americano que vem cá aprovar-nos, só depois podemos vender medicamentos para os Estados Unidos.

Ainda espero que haja um pouco de bom senso e que haja formas de, rapidamente, defender melhor a indústria europeia e permitir que a indústria europeia, de facto, tenha fundos para aumentar a sua competitividade.

Essa seria a solução ideal também na vossa área?

Para mim seria a solução ideal. Ou seja, temos de pôr o ónus e os custos burocráticos de todo o sistema fora da União Europeia e não dentro das empresas da União Europeia. Tudo isso são mecanismos que podiam ser adotados. Entendo a falta de credibilidade, às vezes, dos exteriores para reportarem, mas teriam de se encontrar mecanismos, inclusive alguns mecanismos que pudessem ser fontes de rendimento para empresas europeias fazerem eles próprios a inspeção desses players externos e, com isso, termos mais resultados para a União Europeia.

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