Presidente executivo da Colep Packaging defende que modelo das agendas mobilizadoras é para manter. Mas o foco deve ser na criação de produtos ou aumento significativo da competitividade das empresas.
A Colep Packaging é a líder da agenda mobilizadora Produtec R3 e optou por não pedir nem mais tempo, nem mais dinheiro no âmbito da reprogramação. “O foco é tão grande na execução que não temos tempo para pensar em outros projetos e pedir dinheiro adicional para outros projetos”, explicou o CEO Paulo Sousa, no ECO dos Fundos, o podcast quinzenal do ECO sobre fundos europeus.
A agenda de 95,65 milhões de euros, que se compromete a apresentar 85 produtos, processos ou serviços (PPS) até ao final do ano tem “produtos que estão mais na base do desenvolvimento tecnológico e de sistemas que já estão mais prontos a estar no mercado, já estão mais maduros” e “produtos que ainda não estão completamente prontos. Estão agora em fases de teste, mas o objetivo é, no final do processo, estarem completamente prontos a ir para o mercado”, explica o responsável.
Para Paulo Sousa as agendas mobilizadoras são um modelo a manter porque é “mobilizador da economia, pode ajudar” a desenvolver “produtos que possam ser vendidos e assim aumentar as exportações e dinamizar a economia”, mas carecem de algumas afinações nomeadamente para reduzir a carga burocrática. Além disso, o CEO da Colep reconhece que algumas “empresas aproveitam-se destas iniciativas para fazer investimentos”, em horizontes temporais mais curtos. Os apoios europeus acabam assim por representar uma melhoria das condições das empresas em projetos “menos interessante para as economias”. Reconhecendo que está a ser “um bocadinho provocador”, Paulo Sousa defende que as agendas do futuro, “se se focarem na criação de produtos ou aumento significativo da competitividade das empresas portuguesas, fazem sentido”.
A Colep é líder da agenda mobilizadora Produtec R3, que junta o maior número de entidades numa agenda só. No entanto, no âmbito da reprogramação, optaram por não pedir mais tempo, nem mais dinheiro. Porquê?
Por duas situações. Somos mais de 100 organizações, dentro das quais temos cerca de 17 streams diferentes, que estão a trabalhar em projetos individuais. Por um lado, isto dificulta toda a coordenação de tantas organizações, mas, por outro lado, permite que fragmentemos um projeto muito grande em projetos relativamente pequenos, conseguindo manter um grau de execução superior a cada um destes projetos. O foco é tão grande na execução que não temos tempo para pensar em outros projetos e pedir dinheiro adicional para outros projetos.
Estamos com um grau de execução elevado. Tivemos uma ou duas organizações que tiveram de sair por questões pessoais dessas organizações, ou questões estratégicas, que foram substituídas por outras que já estavam dentro do grupo. Não creio que precisemos de mais tempo, apesar de alguns fornecedores de equipamentos acabam por demorar muito tempo a entregar.
Quais os três ou quatro PPS mais relevantes da agenda?
Tento sempre a falar do nosso e não dos outros. São todos relevantes. Houve muitos na área da descarbonização, na área de tentar produzir energia através de hidrogénio. Há alguns também na área dos transportes e, portanto, na fabricação de carruagens e da via-férrea, que são importantes. O nosso tem a vantagem de juntar, por um lado, empresas transformadoras, que fazem produtos, com empresas que são demonstradoras desses produtos. Tentamos juntar uma empresa que, por exemplo, está a desenvolver um paletizador [uma máquina que permite empilhar e organizar produtos] super flexível para vários tipos de utilizações, com quatro ou cinco empresas de segmentos diferentes que podem testar esse paletizador e, dessa forma, validar que aquele produto, que é feito em Portugal, agora está apto a ser vendido nos diversos mercados e nos diversos segmentos.
A Colep Packaging entra em cinco ou seis destes streams, o que nos permitiu, juntamente com várias empresas portuguesas, instalar uma linha de montagem para as nossas produções de embalagem que consome cerca de um terço da energia do que uma linha normal consumiria, aumentando a competitividade e reduzindo o consumo dos recursos.
Desses produtos que estão a ser testados, quais já estão prontos a entrar para o mercado?
Há produtos que estão mais na base do desenvolvimento tecnológico e de sistemas, mesmo de sistemas informáticos, que já estão mais prontos a estar no mercado, já estão mais maduros. São produtos como o MES, um sistema de tratamento de toda a informação de produção para permitir otimizar os processos de produção, ou sistemas de monitorização de consumo de energia e otimização da utilização dessas energias.
Depois há produtos, como por exemplo o paletizador ou outro tipo de produtos, que ainda não estão completamente prontos. Estão agora em fases de teste, mas o objetivo é, no final do processo, estarem completamente prontos a ir para o mercado. Isso são produtos que já são mais desenvolvidos à medida das necessidades dos clientes e que a experimentação que é feita em cada um dos segmentos permite afinar algumas coisas para que o produto possa ir para o mercado sem pejo nenhum de poder fazer aquilo para o qual é desenhado.
Estamos com um grau de execução elevado. (…) Não creio que precisemos mais tempo, apesar de alguns fornecedores de equipamentos acabam por demorar muito tempo a entregar.
Está confiante no impacto económico que as agendas possam ter na economia nacional, em termos de exportações, de inovação?
Pela primeira vez se juntou várias organizações para tentar fazer produtos. Isso acaba por ser um bocadinho mais mobilizador da economia, pode ajudar a que tenhamos produtos que possam ser vendidos e assim aumentar as nossas exportações e dinamizar a nossa economia.
Do seu ponto de vista, é um modelo a manter?
É um modelo a manter esta interligação entre academia, produção e utilização dos recursos. Também há sempre uma utilização destes recursos às vezes para fazer investimentos que fariam sentido, mas que o valor total é demasiado elevado. Portanto, as empresas aproveitam-se destas iniciativas para fazer esses investimentos. Isso acaba por ser mais no sentido de melhorar as condições das empresas, às vezes investimentos que teriam paybacks muito mais elevados e que, portanto, são feitos em soluções mais curtas. Sendo um bocadinho provocador, isso que acaba por ser um bocadinho menos interessante para as economias. Estas agendas, se se focarem na criação de produtos ou aumento significativo da competitividade das empresas portuguesas, elas fazem sentido.
O modelo deveria ser mais pequeno? Agendas com menos intervenientes? A sua agenda, por exemplo, teria sido mais dinâmica?
Teria sido mais fácil a coordenação. O esforço de coordenação que estamos a ter, a Colep Packaging como líder da Produtec, a AIMMAP e também o Catim, várias entidades que estão a fazer a gestão de tudo isto, é um esforço grande, nomeadamente, na carga burocrática. Todos estes processos têm uma carga burocrática muito elevada, que obriga a que haja muita coordenação e que se gastem muitos recursos nesta coordenação. De três em três meses, como somos líderes, só nós é que podemos introduzir determinado tipo de coisas no sistema, portanto, temos de ter as pessoas lá na fábrica a introduzir as coisas no sistema com a nossa password, porque mais ninguém o pode fazer. Acho que isto pode ser melhorado.
Dizendo isto, esta coordenação é muito grande. Sim, se as agendas fossem mais pequenas permitiria fazer mais. É verdade que, da forma como as coisas estão montadas, também requerem capitais muito elevados, coisas que façam muito impacto, e para empresas de média/grande dimensão, obrigar a que se juntem várias para conseguir criar o volume necessário para poder entrar nestas opções.

A Colep está a equacionar, recorrer a outros fundos? No arranque do ano vão ser lançados os quatro primeiros concursos STEP, que são dirigidos a grandes empresas. Estão a pensar candidatar-se?
Sim, temos um pipeline de investimentos e de transformação que queremos fazer na nossa organização. E esse pipeline é independente de termos ou não os fundos. A questão da utilização de fundos permite-nos acelerar esse pipeline e conseguir muitas vezes trazer para dentro outras organizações que nos permitem até ter uma solução melhor do que aquela que estava inicialmente proposta. Desse ponto de vista, estamos atentos aos grandes fundos que estão a ser disponibilizados para nos ajudar nesta transformação.
Queremos transformar a organização numa organização mais competitiva. Temos concorrência quer de mercados europeus, quer de mercados extra Europa. Para nos mantermos na crista da onda do ponto de vista tecnológico, às vezes nem é preciso o último modelo ou o Rolls Royce daquele equipamento — às vezes basta uma Passat: uma solução que melhor se adapta às necessidades dos nossos clientes e aos mercados em que nos inserimos. Não há necessidade de gastar tanto dinheiro, mas escolher bem onde o gastamos e que permita ter a competitividade que precisamos para os nossos negócios.
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“Foco é tão grande na execução das agendas do PRR que não temos tempo para pedir mais dinheiro”
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