Impresa encurralada pelo peso da dívida e receitas em declínio há 10 anos
Entre resultados negativos, uma dívida que já vale 146% dos capitais próprios, receitas em queda há 10 anos e uma história negra em bolsa, a dona da SIC e do Expresso corre por uma saída.
A Impresa enfrenta a mais grave crise financeira da sua história. Com uma dívida remunerada líquida que disparou para 13% face aos valores finais de 2024 para 148,2 milhões de euros no primeiro semestre de 2025 e um capital próprio corroído pela imparidade do goodwill de 60,7 milhões registada no ano passado, o grupo do ex-primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão procura por uma tábua de salvação que poderá chegar através dos italianos da MFE – MediaForEurope, o grupo fundado por Sílvio Berlusconi.
A situação financeira deteriorou-se dramaticamente nos últimos anos. Após registar prejuízos de 66,2 milhões de euros em 2024 – o pior resultado de sempre, como evidencia o ECO –, a dona da SIC e do Expresso viu o seu capital próprio cair de 156,1 milhões em 2023 para apenas 89,7 milhões no final do ano passado, uma queda de 42,5%. No primeiro semestre deste ano, o grupo voltou a registar resultados negativos de 5,1 milhões de euros, confirmando uma trajetória descendente que se arrasta há vários exercícios. Vamos às contas na última década.
As demonstrações financeiras dos últimos dez exercícios evidenciam um padrão de erosão sistemática das receitas acompanhado por pressões inflacionárias crescentes nos custos operacionais. Apenas em três períodos desde 2015 se verificaram incrementos nas receitas (2019, 2021 e 2024), traduzindo-se numa erosão média anual de 2,6% do volume de negócios durante a última década. O exercício de 2024 demonstrou uma recuperação marginal de 0,16% das receitas para 182,3 milhões euros, ainda assim 23% abaixo dos 234 milhões faturados uma década antes, em 2014
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O segmento televisivo, responsável por aproximadamente 86% das receitas consolidadas do grupo, gerou 157,5 milhões durante 2024, refletindo um crescimento modesto de 0,9%. Contudo, nos primeiros seis meses de 2025, as receitas televisivas já evidenciavam sinais de deterioração acelerada, fixando-se em 73,8 milhões de euros, uma contração de 1% relativamente ao primeiro semestre de 2024 e 10% inferior aos resultados dos primeiros seis meses de 2015.
A divisão de publishing, historicamente o segundo pilar estratégico do conglomerado, mantém-se numa trajetória de declínio estrutural, com receitas de apenas 23,4 milhões em 2024, uma queda homóloga de 5,1%. Esta tendência perpetuou-se no primeiro semestre de 2025 com 10,9 milhões de euros em receitas, menos de metade dos 27 milhões que gerou há dez anos, no primeiro semestre de 2015.
Apesar dos esforços de contenção orçamental, o EBITDA recorrente – métrica utilizada para avaliar a capacidade operacional do grupo – registou igualmente uma deterioração significativa. Em 2024, o EBITDA recorrente situou-se em 15,6 milhões de euros, uma descida de 16,9% face aos 18,8 milhões de 2023. A margem EBITDA recorrente contraiu de 10,3% para 8,6%, evidenciando as dificuldades em preservar a rentabilidade operacional num contexto adverso.
No primeiro semestre de 2025, esta tendência intensificou-se, com o EBITDA recorrente a totalizar apenas 4,3 milhões de euros, representando uma margem de 5%. Mesmo considerando a sazonalidade característica do primeiro semestre, os indicadores sugerem que o programa de redução de custos de 10% anunciado pela administração de Francisco Pedro Balsemão, filho do fundador do grupo e que comanda a Impresa desde março de 2016, ainda não gerou os efeitos esperados.
Endividamento em espiral ascendente
Apesar de todos estes indicadores refletirem uma tendência generalizada negativa nas contas da empresa de Balsemão, o aspeto mais preocupante da situação financeira da Impresa reside na evolução do endividamento e dos seus níveis de liquidez.
Os passivos remunerados líquidos registaram um crescimento explosivo nos anos recentes, escalando de 107,2 milhões de euros em 2022 para 115,5 milhões em 2023, 130,9 milhões em 2024 e 148,2 milhões no primeiro semestre deste ano. Este crescimento de 38% da dívida líquida remunerada em menos de três anos ocorreu simultaneamente com receitas estagnadas, criando uma combinação letal para a viabilidade financeira do grupo.
O rácio entre passivos remunerados líquidos e capital próprio deteriorou-se dramaticamente, escalando de 68% em 2022 para 146% no final do ano anterior, um nível crítico que compromete a continuidade operacional da empresa. A situação agravou-se com o aumento dos encargos financeiros, que subiram de 8,7 milhões em 2022 para 11,1 milhões em 2023 e 12,4 milhões em 2024, reflexo tanto do incremento do endividamento como da subida das taxas de juro.
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No plano da gestão de liquidez, a Impresa revela uma fragilidade estrutural que se agravou significativamente nos últimos anos, com indicadores consistentemente abaixo dos níveis considerados seguros.
O rácio de liquidez corrente (current ratio) manteve-se sempre baixo ao longo dos últimos seis anos, oscilando entre 0,41 em 2023 e 0,62 em 2020, evidenciando uma incapacidade sistemática dos ativos correntes cobrirem as responsabilidades de curto prazo.
Em termos práticos, significa que a Impresa tem, em média, apenas 75 cêntimos de ativos correntes para cada euro de dívidas de curto prazo – um rácio que, embora não seja incomum em empresas de media com forte componente de fundo de maneio negativo, exige uma gestão rigorosa dos fluxos de caixa.
Da liderança na televisão ao sufoco financeiro
A atual crise da Impresa não surgiu do vazio, mas representa o culminar de múltiplas decisões estratégicas e eventos que marcaram os seus 25 anos em bolsa. O grupo entrou na Euronext Lisboa a 6 de junho de 2000, com as ações a encerrarem o primeiro dia nos 5,7 euros, conferindo uma capitalização inicial de 745 milhões de euros.
Nos primeiros anos após a entrada em bolsa, a SIC mantinha uma posição dominante no panorama televisivo português. Durante a década de 1990, o canal comandava as audiências com quotas superiores a 40%, beneficiando do sucesso das novelas brasileiras e de uma programação que revolucionou a televisão portuguesa. Em dezembro de 1999, “Terra Nostra” liderava com 26,8% de audiência e 68,9% de share, ilustrando o domínio absoluto da SIC.
Contudo, este domínio começou a ser desafiado com a chegada do “Big Brother” à TVI em setembro de 2000, que marcou o início de uma nova era na televisão portuguesa. O reality show revolucionou o panorama mediático, conseguindo 32,5% de share na sua estreia e forçando a SIC a adaptar-se a uma nova realidade competitiva.
O registo de uma perda de 60,7 milhões de euros em imparidade de goodwill nas contas de 2024 resulta de uma reavaliação pessimista das perspetivas futuras dos negócios da SIC e da Infoportugugal.
A liderança da SIC manteve-se até 2004, quando começou a perder terreno para a TVI. Em 2005, pela primeira vez em quase uma década, a SIC perdeu a liderança das audiências para a TVI, que registou uma quota média anual de 30%, contra 27,2% da SIC. Esta perda de liderança prolongou-se até 2018, período durante o qual a empresa enfrentou desafios significativos na sua principal fonte de receitas.
Durante este período de crise competitiva, a Impresa tentou diversas estratégias para recuperar a liderança, incluindo investimentos em ficção nacional e reformulações na grelha de programação. O canal recuperou brevemente a liderança em janeiro de 2005 com 30,2% de quota, mas não conseguiu sustentá-la face à agressividade do canal de Queluz de Baixo.
Um marco na história recente da empresa ocorreu em março de 2016, quando Pedro Norton deixou o cargo de CEO após quatro anos na liderança, sendo substituído por Francisco Pedro Balsemão. Pedro Norton havia assumido a liderança executiva em 2012, sucedendo ao próprio Francisco Pinto Balsemão, numa altura em que a empresa já enfrentava desafios significativos.
A entrada de Francisco Pedro Balsemão como CEO representou um retorno do controlo direto da família à gestão operacional da empresa. O novo líder, que “não caiu aqui de pára-quedas” nas palavras do fundador, iniciou uma reestruturação do grupo numa tentativa de reverter a trajetória negativa.
Sob a nova liderança, a SIC conseguiu recuperar a liderança das audiências em 2019, mantendo-a desde então e tornando-se o canal privado com mais anos de liderança na história da televisão portuguesa. Este sucesso, contudo, não se traduziu numa recuperação financeira sustentável, como evidenciam os resultados dos últimos anos.
A grande volatilidade da tesouraria
Na gestão da tesouraria da operação, o working capital mantém-se negativo e deteriorou-se progressivamente de -65,5 milhões de euros em 2019 para -78 milhões em 2024, refletindo uma pressão crescente sobre a tesouraria e uma dependência excessiva de financiamento externo para sustentar as operações correntes.
Os relatórios de contas dos últimos seis anos mostram que a gestão de tesouraria da empresa conheceu períodos de maior fôlego, particularmente em 2021 e 2022, quando os níveis de caixa e equivalentes atingiram os 21,1 milhões e 20,3 milhões de euros, respetivamente, representando cerca de 30% dos ativos correntes e proporcionando algum alívio à pressão de liquidez. Contudo, esta melhoria temporária não se sustentou, com o montante em caixa a contrair para 9,3 milhões em 2023 antes de recuperar parcialmente para 14,8 milhões em 2024.
A volatilidade extrema destes níveis – que variaram entre 2,5 milhões em 2019 e o pico de 21,1 milhões em 2021 – ilustra as dificuldades da empresa em manter uma gestão estável da tesouraria, agravadas pelo contexto de endividamento crescente e pela necessidade recorrente de refinanciamento das suas responsabilidades financeiras.
A tentativa falhada de alienar a sede da empresa ao fundo BPI Imofomento por 37 milhões de euros mostra as dificuldades que a Impresa enfrenta para gerar liquidez e administrar a sua tesouraria. A operação, que previa um pagamento inicial de 25 milhões de euros seguido de uma segunda tranche de 12 milhões de euros após 48 meses, poderia ter aliviado significativamente a pressão financeira e permitido a amortização antecipada de financiamentos no valor de cerca de 14,9 milhões de euros.
O falhanço desta operação, numa altura em que a empresa procura ativamente alternativas de financiamento, reforça a perceção de que os ativos da Impresa podem estar sobreavaliados face às condições atuais, não apenas no plano do mercado imobiliário, mas também no âmbito dos seus principais ativos, como foi visível com a perda por imparidade de goodwill de 60,7 milhões de euros nas contas do ano passado.
Esta perda, que se divide entre 58,2 milhões de euros na unidade de televisão da SIC e 2,5 milhões de euros na Infoportugal, segundo o relatório e contas de 2024, significa que a administração da empresa reconheceu que estes negócios valem hoje menos do que aquilo que estava registado na contabilidade da empresa.
O desempenho da Impresa em bolsa constitui também uma narrativa de desilusão continuada. Da capitalização bolsista inicial de 745 milhões de euros, restam hoje apenas 41,7 milhões de euros.
“Durante o exercício de 2024, face à evolução de determinadas atividades nos segmentos de Televisão e da Infoportugal, bem como à tendência perspetivada dos principais mercados onde estas se enquadram, foram revistos os pressupostos-chave utilizados nos testes de imparidade destes negócios”, reconhece a administração da Impresa no relatório e contas do ano passado.
O goodwill consiste no valor adicional que uma empresa tem para além dos seus ativos físicos, como edifícios, equipamentos ou dinheiro em caixa. É como o valor da marca, da reputação, da carteira de clientes fiéis, da experiência da equipa ou da posição no mercado – elementos intangíveis que fazem com que uma empresa valha mais do que a simples soma dos seus bens materiais.
O registo desta imparidade no montante de 60,7 milhões de euros nas contas do ano passado resulta de uma reavaliação pessimista das perspetivas futuras dos principais negócios da Impresa, forçando a empresa a reconhecer que a SIC e a Infoportugal não conseguirão gerar os fluxos de caixa que anteriormente se esperavam.
- No caso da televisão, a administração reviu em baixa as expectativas sobre a evolução do mercado publicitário, as quotas de audiência, as receitas de publicidade e os ganhos com a venda de conteúdos a terceiros
- No caso da Infoportugal todos os pressupostos foram revistos negativamente devido às dificuldades do mercado de cartografia digital.
Esta perda de imparidade, embora não tenha impacto direto na tesouraria da empresa, corroeu dramaticamente o capital próprio da Impresa, contribuindo decisivamente para os prejuízos de 66,2 milhões de euros em 2024 e evidenciando que os ativos mais valiosos do grupo perderam valor numa altura em que a empresa enfrenta crescentes dificuldades financeiras e procura uma solução para o seu endividamento através da possível entrada dos italianos da MFE.
O desempenho da Impresa em bolsa constitui também uma narrativa de desilusão continuada. Controlada em 50,31% pela Impreger, uma holding detida em 71% pela holding da família Balsemão (Balseger), a Impresa conta com uma desvalorização de 96,5% desde a entrada na Euronext Lisboa a 6 de junho de 2000 – e isto já contabilizada a subida de 96,8% das ações na segunda-feira.
Da capitalização bolsista inicial de 745 milhões de euros, restam hoje apenas 41,7 milhões de euros, com as ações a terminarem na sessão de segunda-feira nos 24,8 cêntimos, muito distante dos 5,7 euros com que encerraram no primeiro dia de negociação há cerca de 25 anos.
A empresa não integra o PSI, o principal índice da bolsa portuguesa, e cerca de 95% do volume de negociação das ações da Impresa concentra-se no mercado nacional, evidenciando o caráter eminentemente doméstico do investimento. A trajetória de destruição de valor em bolsa reflete não apenas os desafios operacionais da empresa, mas também a erosão da confiança dos investidores ao longo de mais de duas décadas.
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Os ativos que brilham na carteira da Impresa
Apesar das dificuldades, a Impresa mantém ativos valiosos que justificam o interesse de investidores estratégicos. A SIC continua a ser um dos principais canais de televisão em Portugal, com uma quota de mercado de 18,9% considerando todos os canais do grupo e 14,7% para o canal generalista, segundo dados do final de 2024. A marca manteve também a liderança nas manhãs e no horário nobre no target comercial no ano passado, representando 46,1% da quota de mercado publicitário entre os canais generalistas.
Além disso, a SIC tem sido a verdadeira “cash cow” do grupo, ao ter distribuído 127 milhões de euros em dividendos nos últimos 10 anos. Só no último ano foram 8,3 milhões de euros que o canal televisivo entregou à empresa-mãe, cerca de 12% acima dos 7,4 milhões distribuídos em 2023.
O Expresso permaneceu em 2024 como o jornal mais vendido em Portugal pelo oitavo ano consecutivo, com uma média de 84 mil exemplares por edição, dos quais 48,5 mil correspondem à circulação digital paga. A aposta no digital tem-se mostrado acertada, com os websites do grupo a registarem audiências significativas e o negócio dos podcasts em forte crescimento, com 45 milhões de downloads em 2024, um aumento de 58% face ao ano anterior.
As negociações com a MFE – MediaForEurope representam potencialmente a solução para os problemas estruturais da Impresa. O grupo italiano, controlado pela família Berlusconi através da Fininvest (33,8% do capital), possui uma solidez financeira que contrasta com a fragilidade da empresa de Francisco Pinto Balsemão.
Em 2024, a MFE registou receitas consolidadas de 2,95 mil milhões de euros e um lucro de 137,9 milhões de euros, e demonstrou recentemente a sua ambição europeia ao garantir mais de 75% da alemã ProSiebenSat.1, posicionando-se para se tornar a maior emissora aberta da Europa.
A parceria com a Impresa ofereceria ao grupo italiano uma porta de entrada no mercado lusófono e acesso ao know-how da SIC na produção de conteúdos, particularmente em ficção, área onde os canais portugueses têm demonstrado crescente competitividade internacional.
Para Francisco Pedro Balsemão, que há quase uma década comandaa Impresa, as negociações com os herdeiros de Berlusconi podem representar uma oportunidade de preservar o legado jornalístico e empresarial da Impresa.
A análise das demonstrações financeiras da Impresa dos últimos anos revela inequivocamente que o grupo atravessa a sua mais grave crise financeira. A conjugação de receitas em queda, custos e dívida em crescente e deterioração dos rácios de solvabilidade criou uma situação que exige uma intervenção urgente.
O plano estratégico 2025-2028, nomeado de “Impresa 2028”, que prevê uma redução de custos na ordem de 10% e uma adequação da estrutura de financiamento, representa um primeiro passo, mas pode não ser suficiente para inverter a trajetória negativa sem um reforço significativo dos capitais próprios.
As conversações com a MFE surgem assim não como uma oportunidade de crescimento, mas como uma necessidade existencial. O grupo italiano oferece não apenas o músculo financeiro necessário para sanear as contas da Impresa, mas também as sinergias operacionais e a experiência internacional que podem reposicionar a empresa num mercado mediático em profunda transformação.
Para Francisco Pedro Balsemão, que há quase uma década comanda um dos principais grupos de media nacional, as negociações com os herdeiros de Berlusconi podem representar uma oportunidade de preservar o legado jornalístico e empresarial da Impresa, numa altura em que os números da operação deixam pouca margem de manobra.
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