A economia da confiança tem som

A rádio é uma fábrica de consistência. Porque tem regularidade, tem humanidade e tem contexto. Quando entretém, está a criar relação. Quando informa, está a reforçar credibilidade.

Há dias em que penso que a rádio é o meio de comunicação mais moderno que temos. Não por ser novo, mas por continuar a resolver um problema muito atual: a atenção é escassa, o ruído é enorme e as pessoas precisam de alguém que lhes faça companhia, que seja de confiança.

A rádio faz isso com uma simplicidade desarmante. Está presente quando estamos a viver as nossas vidas, seja a conduzir, a cozinhar, a trabalhar, a arrumar a casa, a caminhar. Não compete pelo ecrã. Não exige foco total. Acompanha. E essa palavra, “acompanha”, é uma das mais subestimadas na discussão sobre media. Porque acompanhar cria hábito. E hábito cria relação.

E relação, num tempo de saturação de conteúdos, é sinónimo de confiança.

A confiança não é um sentimento vago. É um ativo. E vale a pena assumir isto desta forma: confiança é uma moeda. Marcas, empresas, instituições e líderes dependem dela para vender, para recrutar talento, para gerir crises, para manter reputação. A confiança não se compra com alcance. Constrói-se com consistência.

A rádio é uma fábrica de consistência. Porque tem regularidade (está lá todos os dias), tem humanidade (há uma voz do outro lado) e tem contexto (fala do que se está a passar agora, na vida de quem está a ouvir). Quando entretém, está a criar relação. Quando informa, está a reforçar credibilidade.

Há também uma dimensão económica muitas vezes ignorada. A rádio é um dos grandes meios de “escala” com toque local. Consegue ser massiva e, ao mesmo tempo, próxima. Isso é ouro para negócios que precisam de resultados reais, não apenas métricas cegas.

A rádio continua a ser particularmente eficaz para ativação: levar pessoas a agir, a ir, a procurar, a experimentar. E fá-lo com uma vantagem brutal na economia da atenção: não interrompe a vida, entra nela.

É indiscutível que a rádio não ficou parada no tempo. O áudio hoje circula por todo o lado: stream, app, carro conectado, auscultadores, colunas inteligentes, conteúdos on-demand, formatos curtos para redes sociais, vídeo de estúdio, podcast. A rádio aprendeu a viver nesse ecossistema sem perder a essência. Mudou a distribuição, refinou a linguagem, ganhou ferramentas de dados e medição (e aqui ainda temos em Portugal muito para explorar), mas manteve aquilo que realmente a distingue: a capacidade de estar “ao vivo” na vida das pessoas.

E há algo mais: num mundo em que quase tudo parece editado, filtrado e demasiado perfeito, o som da rádio em direto tem uma autenticidade difícil de imitar. O riso que sai antes do tempo. A emoção que se ouve na voz. A pausa. O improviso. A rádio lembra-nos que comunicação não é só mensagem: é presença.

No Dia Mundial da Rádio, mais do que celebrar, prefiro lembrar o que a rádio já aprendeu há muito: os meios que sobrevivem não são os que gritam mais alto, são os que criam confiança. E a rádio, com toda a sua simplicidade tecnológica e complexidade humana, continua a ser uma das formas mais eficazes de produzir essa confiança: dentro da cabeça (e do coração) de quem a ouve.

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