A Netflix afastou-se… E agora?
A Netflix escolheu não ultrapassar uma linha vermelha. Reforço, houve disciplina de um dos lados desta história.
A Netflix afastou-se. E isso pode vir a ser mais relevante do que o próprio negócio. Digo-o claramente: acredito nos mercados livres, acredito em portefólios fortes e em eficiência operacional. E sei que a escala pode ser necessária em determinadas circunstâncias. Mas há momentos em que a escala se torna reflexo em vez de estratégia.
Ao longo da minha carreira estive no “olho do furacão” aquando das fusões DIRECTV/AT&T, AT&T/Warner e Warner/Discovery. Foi, por isso, com muito interesse e genuína expectativa que acompanhei esta combinação entre a Netflix e a WBD (Warner Bros. Discovery). Tratava-se de uma fusão verdadeiramente diferenciada, desde logo por exigir à velha guarda capacidade de adaptação à nova geração, e vice-versa. Na verdade, um negócio com tamanho impacto não acontece assim tantas vezes. Com consequências que nos deixam desconfortáveis, até por exigirem mudanças operacionais reais. Só por isso, teria valido a pena ir até ao fim. E acredito que seria bem-sucedida.
Em vez disso, a Netflix decidiu não esticar a sua proposta perante os números apresentados pela Paramount. Isso diz-me que a disciplina ainda existe. E sai deste processo com 2,8 mil milhões de dólares em caixa para reinvestir.
Ficamos agora com uma consolidação mais clássica, que resulta de um esforço extraordinário. No final de toda esta negociação, o resultado é claramente positivo para os Executivos e para os acionistas da WBD. Afinal, um prémio é um prémio, para mais, pelos valores que têm sido divulgados. Mas, sejamos honestos, aqueles que realmente absorvem a pressão em negócios deste cariz são, como habitualmente, os colaboradores, o talento e a massa crítica das organizações. Já passei por muitos processos destes, sei bem onde é que as tão famosas sinergias se vão sentir, será no capital humano, nas pessoas. Inevitavelmente, a Netflix teria eliminado alguns postos de trabalho, mas o novo modelo vai muito mais longe.
Outra área que não está a receber atenção suficiente é o portefólio dos canais de cabo. Toda a gente quer falar dos estúdios, do streaming e da HBO. O movimento correto teria sido separar os canais de cabo. Selecionar a CNN, TNT, TBS e CBS e permitir que o mercado valorizasse esse negócio de forma independente, com base no seu fluxo de caixa e numa gestão disciplinada da sua decadência. Apesar de tudo, ainda têm impacto pelas suas taxas de distribuição, pelos direitos desportivos que adquiriram, pelo seu poder de retransmissão e alcance nacional. No seu todo, alteram o equilíbrio de poder com os distribuidores. E isso é alavancagem real para a Paramount.
Todos estão cientes de que o jornalismo nos Estados Unidos está sob pressão, com uma sociedade desconfiada e uma economia desafiante. Concentrar mais influência em menos mãos corporativas até pode fazer sentido financeiro, mas não acontecerá sem consequências. E, caso se adicione um impulso relevante, como 70 mil milhões de dólares ou mais, a um mercado já de si maduro e em declínio, então a margem de erro é reduzidíssima.
Separados os canais de cabo, os negócios de entretenimento poderiam operar com uma estrutura de capital mais limpa e um mandato claro. Especialmente o streaming, que nos últimos quinze anos ganhou uma relevância extraordinária, mas que continua muitas vezes a tentar resolver os problemas de ontem com balanços financeiros cada vez maiores. A certa altura temos de perguntar se a escala é estratégia ou, simplesmente, proteção.
Dois negócios. Duas estratégias. Com uma responsabilidade clara em cada caso. Mas, se juntamos tudo no mesmo pacote, a tarefa adivinha-se ciclópica. Não, nem sempre a consolidação é a resposta aos problemas identificados. Às vezes compra tempo, até pode resolver a fragmentação. Mas outras tantas vezes apenas adia a mudança estrutural.
A Netflix escolheu não ultrapassar uma linha vermelha. Reforço, houve disciplina de um dos lados desta história. Vamos agora perceber se, neste caso, a dimensão vai realmente resolver os dilemas identificados ou se apenas absorverá um dos players mais relevantes da indústria.
Ah. E quanto aos reguladores, isso fica para outro artigo.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
A Netflix afastou-se… E agora?
{{ noCommentsLabel }}