Cola Europa

  • António Fuzeta da Ponte
  • 24 Março 2025

Um dia pode vir a ser preciso defender a Marca Europa com armas além da diplomacia. E essas armas estarão nas mãos de jovens. Esperemos que tenham feito Erasmus, pois terá sido a melhor recruta.

Todas as grandes marcas têm um denominador comum. Não são os orçamentos, nem a cor, nem sequer alguma manifestação gráfica ou verbal. Até porque a diferença entre elas enriquece todas. O que as grandes marcas têm em comum é uma cola forte. São fatores culturais, sociais, ou valores geracionais, ou outros quaisquer valores de génese que as fortalece desde a raiz. Alguns chamam-lhe ADN e nós chamamos o que quisermos, mas há uma cola, presente nas grandes marcas, que as agrega, que as torna fortes, indivisíveis e permanentes.

A Europa precisa de ser uma destas marcas. Precisa de ser vista e construída como uma marca forte e perene, exemplar até. Que vale a pena seguir, de que vale a pena fazer parte, tal como partilhar com outros. A Europa é um produto tão bom, que perante a sua concorrência, se fosse questionada em focus group mundial, do tipo “em que continente preferias nascer e viver?” sairia de certeza como a preferida. Climas temperados, segurança, saúde, educação, cultura, democracia, ajudam muito, obviamente. A culinária também não é má.

Mas esse apelo constrói-se permanentemente. E são os Europeus que têm essa responsabilidade diária. Somos nós, todos os europeus, que somos os marketers que aplicam a cola na marca europeia.

Um dos primeiros a pegar na cola foi Erasmus. Nascido na Holanda do século XV, foi um académico mas também viajante. Percorreu a Europa, vivendo e trabalhando em França, Inglaterra, Itália, Bélgica, Suíça. Erasmus de Roterdão foi dos primeiros a abrir o boião da cola.

Bastante mais tarde, desde 1987, quando nasceu o programa Erasmus, dedicado ao intercâmbio de educação, já mais de 15 milhões de jovens europeus passaram pela experiência de viver noutro país Europeu, de chocar ou abraçar outra cultura e até chorar ou rir a rever a “Residência Espanhola”. O programa Erasmus parece-me ser das melhores ferramentas que temos para que entendamos bem o que é isto do todo Europeu, algo muito maior que a soma das fronteiras.

Não chega, claro. E por incrível que pareça, um dos maiores aliados do Erasmus surgiu depois e não por decreto de Bruxelas. Foram as low-cost e também os alojamentos locais. Viajar sem amarras de custos. Visitar cidades por menos de 100 euros, fez o que ainda não se tinha feito: agora todos podem conhecer não um só destino, mas imensos. De Ponta Delgada, a Varsóvia. E vivê-los, senti-los. Fazer parte.

E é destas colas que a Europa se faz e são estas colas que também precisamos de fomentar. Porque a marca Europa tem de significar muito para tantos, mas especialmente para os jovens, que são cada vez menos mas farão a futura Europa. E sim, vale a pena consumir Europa, num tempo de guerras de tarifas. Mas é muito mais que isso. Um dia pode vir a ser preciso defender a Marca Europa com armas além da diplomacia. E essas armas estarão nas mãos de jovens. Esperemos que tenham feito Erasmus, pois terá sido a melhor recruta.

PS: eu não fiz Erasmus. Estudei e trabalhei nos EUA muitos anos atrás. O que vejo agora desfaz quase toda a cola que ainda me liga ao que lá vivi. O que vale é que a cola da altura era boa, vai sobrevivendo. Se calhar sou demasiado otimista.

  • António Fuzeta da Ponte
  • Diretor de marca e comunicação da Nos

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