E se corre mal?
Há uma frase atribuída a Shackleton a que regresso muitas vezes. Não diz que as dificuldades são pequenas. Não promete que tudo vai correr bem. Apenas recusa dar-lhes a última palavra.
Por vezes sinto falta de heróis. Não no sentido clássico da palavra, de figuras perfeitas colocadas num pedestal, mas de pessoas que admiramos, que nos desafiam e que, de alguma forma, funcionam como uma estrela polar quando precisamos de encontrar direção.
Se, por vezes, temos dificuldade em encontrá-las no presente, há sempre uma alternativa: olhar para o passado. Uma das figuras históricas que mais admiro chama-se Ernest Shackleton. E há algo de extraordinariamente atual na sua história.
Shackleton é hoje estudado e citado em livros e cursos sobre liderança. O curioso é que não ficou conhecido por ter alcançado o objetivo a que se propôs. Ficou conhecido porque tudo correu mal.
No início do século XX, durante a chamada Idade Heroica da Exploração da Antártida, Shackleton ambicionava realizar uma das últimas grandes proezas por concretizar: atravessar o continente antártico de costa a costa, passando pelo Polo Sul. Em 1914, partiu a bordo do Endurance. Eram 28 homens. Não chegaram sequer a iniciar a travessia.
Em janeiro de 1915, o Endurance ficou preso no gelo do Mar de Weddell. Durante meses, a tripulação viveu dentro do navio, à espera que o gelo libertasse o casco. Não libertou. A pressão foi aumentando até que, em outubro, o Endurance acabou por ser esmagado e abandonado. Pouco depois, desapareceu sob o gelo.
A partir desse momento, o objetivo mudou completamente. Já não havia Polo Sul. Já não havia expedição. Já não havia sequer navio. Havia 28 pessoas para trazer para casa.
E talvez seja aqui que começa verdadeiramente a história de Shackleton.
Num dos ambientes mais hostis do planeta, isolados e com a Europa mergulhada na Primeira Guerra Mundial, aqueles homens passaram meses sobre placas de gelo, navegaram em pequenos botes por mares quase impossíveis e acabaram por chegar à desolada Ilha Elefante.
Mas ninguém sabia que estavam lá.
Shackleton percebeu que esperar significava provavelmente morrer.
Partiu então com cinco homens num pequeno bote, atravessando um dos mares mais hostis do mundo em busca de ajuda. Depois de uma viagem quase impossível, conseguiu chegar à Geórgia do Sul e organizar o resgate. Meses depois, voltou pela sua equipa. Todos os 28 homens do Endurance sobreviveram.
O objetivo da expedição foi um fracasso absoluto. A liderança foi um sucesso extraordinário.
E é precisamente isso que me fascina nesta história.
É relativamente fácil falar de liderança quando existe um plano, recursos, condições favoráveis e resultados positivos. Muito mais difícil é liderar quando o plano desaparece, os recursos são escassos e ninguém consegue garantir que amanhã será melhor do que hoje. Shackleton percebeu algo essencial: quando já não conseguia controlar o contexto, concentrou-se naquilo que ainda podia controlar. Talvez seja também por isso que esta história continua tão relevante mais de um século depois.
Vivemos novamente tempos marcados por enorme incerteza. Geopolítica, guerras, transformação tecnológica, inteligência artificial, alterações climáticas, pressão económica. Por vezes parece que acabámos uma crise apenas para descobrir que a seguinte já estava na sala de espera.
Há uma frase atribuída a Shackleton a que regresso muitas vezes: “As dificuldades são, afinal, apenas coisas que temos de superar.” Gosto da simplicidade quase desconcertante da frase. Não diz que as dificuldades são pequenas. Não promete que tudo vai correr bem. Apenas recusa dar-lhes a última palavra.
Quero acreditar que, perante circunstâncias difíceis, o engenho humano, a cooperação, a confiança e uma dose saudável de teimosia acabam por encontrar um caminho. Mesmo quando corre mal.
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