E tu, Ricardo Costa?

  • António Fuzeta da Ponte e Ricardo Costa
  • 15:48

Pedi ajuda ao Ricardo Costa e perguntei: e tu, Ricardo, também pensas que o aparelho de TV pode estar a deixar de ser uma janela para o mundo para se transformar num espelho dos nossos interesses?

Aqui há uns tempos o meu filho mais novo tirou as amígdalas e com isso tivemos oportunidade de estar mais tempo juntos, em casa, durante a sua recuperação. E foi fácil e giro encontrar assuntos comuns em frente à televisão.

A televisão tem tido sempre esse papel central nas casas das famílias. Aglutinador. E se antigamente eram a Cornélia e as primeiras novelas brasileiras, depois poderá ter perdido alguma dessa capacidade até que o Covid chegou e nos sentou a todos em casa. E, de novo, a TV ganhou centralidade e nova vida com os canais a registarem audiências recordes, mas também com novas realidades como o streaming e o Youtube que começou aí a sua evolução de saltar do ecrã pequenino do telefone para o ecrã gigante das smartTV´s. E essa evolução é tal que já vemos tudo ou quase tudo lá, desde música a séries e até mesmo jogos do Campeonato do Mundo de futebol.

Voltando às amígdalas do meu filho e às horas que passamos juntos em frente ao ecrã da televisão a vermos YouTube, admito que me maravilhei: devorámos horas e horas de episódios de “outdoor boys” e muitas outras coisas relacionadas. Ou seja, tudo o que são os nossos interesses comuns estavam e estão lá para maratonas. Mas depois foi cansando. Vimos muito, mas quando mais víamos, mais me parecia mais do mesmo.

E foi aí que me chegou a dúvida em relação a esta utilização nova do equipamento TV. É que se sempre vi a televisão e a sua programação, desde entretenimento a informação, como uma janela para o mundo, para me abrir horizontes. Mas agora ela deixou de ser uma janela e parece-me mais um espelho. Um espelho aumentado de todos os meus interesses, mas de onde o algoritmo não me deixa sair facilmente e quase que, mesmo com muitas horas de conteúdo, não me mostra tanto o novo, mas só o reflexo de mim, um reflexo do que gosto agora, permitindo pouca descoberta para o que eu não estava à espera.

Por isso, porque achei que poderia estar a ser injusto e porque há quem sabe muito mais de televisão do que eu, pedi ajuda ao Ricardo Costa, ex-jornalista e administrador do grupo Impresa e perguntei-lhe: e tu, Ricardo, também pensas que o aparelho de TV pode estar a deixar de ser uma janela para o mundo para se transformar num espelho dos nossos interesses? Ou estamos só numa fase híbrida e evolutiva, em que curadoria de programação e conteúdos estão a aprender a conviver?

 

Resposta Ricardo Costa:

Caro António, ao contrário do Nuno Jerónimo na crónica anterior, vou discordar. Talvez seja vício dos painéis de comentário, mas convém não concordarmos em tudo. Primeiro temos de circunscrever o que estamos a discutir: a televisão é programada por um algoritmo? Não. Mas existem hoje conteúdos que se veem na televisão e que são condicionados ou programados por algoritmos? Sim e sim.

Para situar a questão convém recuar muito além da operação às amígdalas do teu filho. A televisão, como os jornais ou a rádio, nasceu como mass media. Ora, como o nome indica, a televisão trabalha para audiências vastas, cruzando dois conceitos claros: grandes denominadores comuns e simultaneidade. Mesmo num contexto de declínio de consumo, os dois conceitos mantêm-se inalterados.

Estou a escrever(-te) numa terça. Ontem, o último segmento do Jornal da Noite — o SIC Verifica, dedicado integralmente a fact checking — durou 30 minutos, com 9,7 pontos de rating, quase 1 milhão de espectadores em média. Logo de seguida — após um simpático break — veio o último episódio da novela Vitória e, com mais um simpático break, a nova novela Destino Maior, as duas com 8,2 e 8,1 pontos de rating.

As duas novelas, tal como a que se seguiu, Páginas da Vida — podes contar ao teu filho que viste a original da Globo, que esta tem um elenco estupendo e que a versão da Carminho do Wave está ao nível da do Tom Jobim — estão disponíveis em simultâneo na Disney e na Amazon Prime. Porquê? Tu sabes a resposta. Denominador comum e recorrência. E muita qualidade, claro. Tudo bens escassos.

A net está cheia de fact cheking. Se ficares interessado pelo tema, o algoritmo vai dar-te fact cheking, queiras ou não. Se fores de direita, vai expor-te a políticos de esquerda. Se fores de esquerda, é ao contrário. Se detestares um político, vai dar-te gasolina para o regares. Se gostares de outro, tê-lo-ás a saltar de nenúfar em nenúfar no teu ecrã.

Quem quiser consumir o SIC Verifica tem por onde escolher. Está no site da SIC Notícias inteiro ou por assunto, e, claro, está desagregado em redes, comandado pelos algoritmos das plataformas. Mas há quase 1 milhão de pessoas que preferem vê-lo num alinhamento linear. Porquê? Tu sabes a resposta. Curadoria, alinhamento bem feito, boa televisão.

Sabemos desde sempre que um algoritmo é o contrário de linearidade. Sabemos há cem anos que um ecrã de televisão é plano. Sabemos há vinte anos que o mundo é plano, no sentido que Thomas Friedman lhe deu, com a globalização e a tecnologia a nivelarem a concorrência económica em todo o planeta. E sabemos agora que estamos a assistir à convergência desses conceitos — linearidade, algoritmo e mundo plano — no ecrã de televisão.

Esse ecrã é janela e é espelho, depende do que se faça dele e do que se faça para ele.

  • António Fuzeta da Ponte e Ricardo Costa
  • Diretor de marca e comunicação da Nos e administrador do grupo Impresa

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