Comunicação e Poder: quase tudo deixa rasto

  • Lúcia Cavaleiro
  • 12:06

A verdadeira maturidade passa por reconhecer uma coisa bastante simples: o acesso ao poder é sempre temporário, enquanto a reputação é cumulativa.

Confundir proximidade ao poder com autoridade própria é um erro comum, mas na era digital é também um erro perigoso. Num tempo em que tudo deixa rasto, os jogos de bastidores duram cada vez menos.

Vivemos no tempo do comentário instantâneo. A velocidade com que se emite um julgamento ultrapassou, há muito, o tempo necessário para compreender a complexidade de qualquer fenómeno. Na esfera pública e, cada vez mais, nos contextos profissionais, criticar, desconstruir e apontar falhas tornou-se quase um reflexo pavloviano.

Mas talvez o fenómeno mais interessante não esteja apenas em quem critica. Está também em quem, por se encontrar próximo de quem exerce influência, começa a confundir proximidade com margem de ação e espaço de intervenção.

Há uma confusão recorrente nas relações de poder: a confusão entre influência e autoridade.

Uma posição de proximidade, uma rede de contactos ou o acesso privilegiado a determinados centros de decisão podem criar a sensação de que se tem autoridade sobre territórios que, na realidade, não nos pertencem.

Ter influência não é ter poder de decisão. Ter acesso não é ter autoridade. E estar próximo de quem decide não transforma automaticamente uma vontade pessoal numa orientação legítima.

Há quem confunda essas coisas e, nessa confusão, tente condicionar o trabalho de outros, interferir onde não lhe compete ou limitar o espaço de quem identifica como ameaça à sua própria posição.

O mais curioso é que este poder raramente se apresenta como tal. Aparece muitas vezes diluído numa tarefa, num conselho, numa preocupação, numa interação habitual ou numa suposta defesa do interesse comum. Mas a intenção revela-se quando o conselho deixa de ser apenas conselho, a interação habitual ultrapassa a sua fronteira natural e a discordância deixa de ser reconhecida como legítima e passa a ser reinterpretada. É aí que a ilusão começa a ganhar contornos perigosos.

Porque o poder pode continuar a ser exercido nos bastidores, mas já não existe verdadeiramente um mundo fechado à informação. Uma mensagem, uma instrução, uma tentativa de condicionamento ou uma intervenção informal podem sobreviver ao contexto em que surgiram. Nem tudo ganha expressão, mas isso não significa que desapareça.

A comunicação contemporânea deixou uma característica incómoda para quem acredita controlar os bastidores: quase tudo deixa rasto.

E há ainda outro detalhe que o poder tende a esquecer: as lealdades são menos sólidas do que parecem.

Quem hoje aceita determinada dinâmica por conveniência, receio ou proximidade pode amanhã olhar para ela de outra forma. Não necessariamente por coragem súbita ou por qualquer imperativo moral. Às vezes, simplesmente porque as circunstâncias mudaram.

O poder é, por definição, uma relação. E as relações mudam.

É por isso que a sensação de controlo absoluto é uma das ilusões mais frágeis de quem ocupa posições de influência. O problema não está em ter influência. O problema começa quando alguém confunde influência com autoridade e proximidade com legitimidade.

A verdadeira maturidade passa por reconhecer uma coisa bastante simples: o acesso ao poder é sempre temporário, enquanto a reputação é cumulativa.

Cada decisão acrescenta alguma coisa à forma como uma pessoa é percebida. Cada tentativa de interferência, cada gesto de arbítrio ou cada esforço para limitar o espaço de ação de terceiros pode parecer insignificante quando acontece. Mas as reputações raramente são construídas por um único episódio, sendo padrões que acabam por se tornar visíveis.

É também aqui que a comunicação deixa de ser apenas uma ferramenta de construção de imagem. Passa a ser o mecanismo através do qual a conduta real se sobrepõe à imagem pretendida.

Podemos escolher cuidadosamente as palavras com que queremos ser vistos. O que se torna muito mais difícil é controlar indefinidamente tudo aquilo que as nossas ações dizem por nós.

Talvez seja essa a grande ironia destas dinâmicas. Quanto maior a sensação de controlo, maior pode ser a tentação de esquecer que quase tudo deixa rasto.

A verdadeira inteligência estratégica talvez não esteja em descobrir até onde se consegue ir sem ser visto, mas em saber que há coisas que simplesmente não vale a pena fazer, mesmo quando, por um breve instante, se acredita que ninguém está a olhar.

  • Lúcia Cavaleiro
  • Comunicóloga

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Comunicação e Poder: quase tudo deixa rasto

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião