Abstenção Orçamento
A Inteligência Artificial nasce do expoente do capitalismo para garantir o socialismo. Vamos inscrever esta cláusula no orçamento.
O orçamento está entregue e com viabilização garantida. Não importa o conteúdo pois o mais importante é a prudência perante o mundo que não se entende e a miragem da estabilidade na ausência de eleições. No fundo, o orçamento é o documento da paz podre, da demissão, do medo. Pensar o futuro é o ofício do tarot. Pensar a política é iludir o futuro. Vamos governar como se o presente fosse para sempre. Que importa o futuro se no longo prazo estamos todos mortos?
O PS agradece a licença para viver e o Chega agradece a licença para matar. O governo agradece a licença para se elogiar. A política portuguesa está transformada num filme de série B com muito drama diluído num aquário muito pequeno.
O primeiro-ministro numa visita ao país profundo exerce o seu talento de estadista com vocação internacional. Numa reflexão prodigiosa, o chefe do executivo condena a conjuntura internacional difícil que leva à “insensatez” da subida do preço do petróleo e que penaliza a economia e o nível de vida dos portugueses. Mais ainda, o primeiro-ministro recomenda às grandes potências que a questão tem de ficar resolvida nas próximas semanas ou é o futuro do mundo civilizado que ficará à beira do colapso. Mas Montenegro sublinha também que resolver a questão dos combustíveis não será suficiente, uma vez que “há outros factores de instabilidade” tais como as “guerras políticas, geopolíticas e comerciais”. Não existe nenhum factor de instabilidade na acção de um Governo que apenas se pretende manter no poder em nome das tão famigeradas reformas?
As declarações são fantásticas do ponto de vista político pois o chefe do executivo apresenta-se como vítima de uma situação internacional que não controla nem imagina quando será controlada. O que Montenegro exibe é a impotência de uma pequena economia aberta ao exterior e exposta a choques económicos e políticos vindos da complexidade da política internacional. Há um pormenor que faz toda a diferença e que revela a hipocrisia do Governo – O preço dos combustíveis atinge valores record em Portugal porque o Executivo confisca em impostos cerca de 50% do valor final pago pelos portugueses. O Governo está viciado em impostos e esta é matéria do orçamento que o primeiro-ministro opta por deixar à margem da discussão. Aos portugueses fica a periferia de um desconto semanal ao estilo de uma promoção de uma grande superfície comercial chamada Portugal.
Enquanto o primeiro-ministro mostra ao mundo a referência de Portugal, o país enche as ruas das cidades para protestar contra o aumento do custo de vida mais a subida constante dos combustíveis mais a crise da habitação. A esquerda pós-moderna faz a festa da desgraça com bandeiras da Palestina e keffiyeh ao pescoço numa declaração óbvia de que as grandes causas da classe trabalhadora estão mortas e enterradas. As manifestações parecem viagens excitadas em direcção ao próximo festival de rock com as bandas mais bem pagas do mundo e com bilhetes em regime de tarifa dinâmica apenas ao alcance de uma classe alta e privilegiada. Surgem acampamentos espontâneos contra o capitalismo selvagem e contra todas as iniquidades do mundo.
Perante este cenário de pré-insurreição, a “esquerda clássica” que foi capaz de construir o estado social europeu não tem uma palavra política, uma ideia renovada, uma visão para o futuro. A ascensão da rua é sempre o sintoma da impotência das instituições e é sempre a continuação da política como um estado permanente de agitação pré-revolucionário. Perante a ausência do “centro vital”, a política está a ser feita de forma inorgânica entre os extremos da esquerda e os extremos da direita. O orçamento de estado está a leste deste novo paraíso.
As redes sociais dão eco global aos protestos. Seja com imagens reais, seja com recurso a versões geradas por Inteligência Artificial. A mesma Inteligência Artificial que fez parte do elenco governamental que elaborou o orçamento. Mas esta é a Inteligência Artificial que promete acabar com os empregos correntes que serão substituídos por novos empregos ainda por definir e descrever. A esquerda combate a Inteligência Artificial como o estádio último do desenvolvimento capitalista com vista a um mundo sem trabalho. Os “tecno-oligarcas” prometem um novo mundo em que os ganhos de produtividade superam toda a riqueza das nações numa espiral exponencial de produtividade e bem-estar. Apenas um detalhe – Em troca da distribuição de um rendimento universal garantido e da abolição do trabalho a Inteligência Artificial elimina a necessidade da democracia e da liberdade de escolha.
Na era da abundância a liberdade deixa de fazer sentido e a democracia é um mecanismo que gera ineficiência no sistema. A Inteligência Artificial nasce do expoente do capitalismo para garantir o socialismo. Vamos inscrever esta cláusula no orçamento.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Abstenção Orçamento
{{ noCommentsLabel }}