Este é o tempo dos ROC

  • Virgílio Macedo
  • 13 Abril 2026

Em muitas empresas, sobretudo nas que operam com maior pressão financeira ou maior exposição ao exterior, o primeiro passo para proteger o futuro não é necessariamente encontrar mais financiamento.

A economia voltou a lembrar-nos de uma coisa que, durante demasiado tempo, foi tratada como acessória: a confiança não é um detalhe técnico da vida das empresas, é uma condição de sobrevivência. Num ambiente instável, já não basta vender bem, produzir bem ou ter presença no mercado. Evidentemente que isso continua a ser decisivo, mas deixou de ser suficiente. Hoje, uma empresa distingue-se também pela forma como conhece os seus riscos, pela capacidade de antecipar choques e pela qualidade das decisões que consegue tomar quando o contexto se torna menos previsível.

É precisamente isso que estamos a ver. A desaceleração europeia, a incerteza no comércio internacional e a nova tensão geopolítica com impacto direto nos preços da energia vieram recordar que a atividade económica não se faz num vazio. As empresas portuguesas continuam a mostrar ambição, continuam a querer crescer, exportar e afirmar-se, mas fazem-no num enquadramento muito mais exigente e mais volátil. E quanto mais expostas estão ao exterior, mais essa pressão se sente.

A questão, por isso, já não é apenas saber quem tem capacidade comercial ou dimensão suficiente. A questão é saber quem está realmente preparado para resistir quando o contexto se deteriora. Nestes momentos, percebe-se com clareza que a solidez de uma empresa começa muito antes dos resultados. Começa na qualidade da informação de que dispõe, na robustez dos seus mecanismos de controlo, na forma como acompanha a tesouraria, na capacidade de detetar sinais de fragilidade antes de estes se transformarem em problemas sérios. Uma empresa pode ter mercado, pode ter produto, pode até ter ambição, mas se decidir mal, se conhecer mal o seu próprio risco ou se operar com informação pouco fiável, fica inevitavelmente mais vulnerável. E é aqui que tantas vezes se falha, porque ainda há quem olhe para estes temas como meras obrigações formais, quando na verdade eles estão no centro da boa gestão.

É também por isso que o papel dos Revisores Oficiais de Contas (ROC) ganha hoje uma importância acrescida. Em tempos de maior incerteza, a transparência financeira deixa de ser apenas uma exigência legal para se afirmar como um verdadeiro ativo estratégico. Não se trata apenas de validar números ou de assegurar conformidade. Trata-se de reforçar a confiança, melhorar processos, identificar fragilidades, apoiar a leitura do risco e ajudar a construir decisões mais sólidas.

Em muitas empresas, sobretudo nas que operam com maior pressão financeira ou maior exposição ao exterior, o primeiro passo para proteger o futuro não é necessariamente encontrar mais financiamento. É perceber, com independência e rigor, qual é de facto a situação da organização e onde estão os seus pontos de maior vulnerabilidade.

As pequenas e médias empresas sentem isto de forma particularmente intensa. Têm de competir mais, responder mais depressa, lidar com maiores exigências de reporte, sustentabilidade, financiamento e prestação de contas. Tudo ao mesmo tempo. E fazem-no, muitas vezes, com estruturas mais leves, com menos margem de erro e com menor capacidade para absorver choques prolongados.

Falar de apoio ao tecido empresarial, nestas circunstâncias, não pode resumir-se a discutir incentivos ou liquidez. Isso seria manifestamente insuficiente. Apoiar as empresas é também ajudá-las a ser mais sólidas por dentro, mais disciplinadas na gestão, mais preparadas no controlo e mais credíveis perante quem as financia, supervisiona ou acompanha.

É nesse ponto que a OROC (Ordem dos Revisores Oficiais de Contas) pode e deve afirmar-se com particular clareza. Não apenas como entidade representativa de uma profissão essencial à confiança na economia, mas como voz qualificada num debate que hoje ultrapassa largamente o universo técnico da contabilidade e da auditoria. O que está em causa é a competitividade das empresas, a estabilidade das decisões e a capacidade de resistir num contexto internacional mais duro. Defender o valor dos ROC é, por isso, defender empresas mais bem preparadas, governações mais responsáveis e uma economia mais credível.

Num país que precisa de crescer com ambição, mas sem ilusões, seria um erro persistir na ideia de que a confiança é apenas um tema de especialistas. Não é. A confiança é parte da infraestrutura económica de que depende a continuidade das empresas. E quando o ruído externo aumenta, quando os mercados se tornam mais hesitantes e quando os riscos se acumulam com mais velocidade, essa confiança deixa de ser um fator desejável para passar a ser uma necessidade absoluta. É exatamente por isso que este é também um tempo em que a OROC e os ROC devem ser ouvidos com particular atenção.

  • Virgílio Macedo
  • Bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas

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