Mamdani: a resposta que desarmou o medo

  • Edson Athayde
  • 11 Novembro 2025

Num tempo em que a extrema-direita dita o tema e o tom, Mamdani recusou-se a jogar no campo deles. A estratégia não foi gritar mais alto, foi mudar de idioma.

Quando os candidatos à câmara de Nova Iorque se sentaram frente às câmaras e microfones, a pergunta era previsível (e o espetáculo, também). “Se for eleito mayor, qual será o primeiro lugar que vai visitar?”

E um a um, os candidatos responderam como quem recita um salmo diplomático: “Israel”. Todos, com uma precisão quase coreográfica, escolheram o mesmo destino. Até que chegou a vez de Zohran Mamdani. Este sorriu, respirou, e respondeu outra coisa. Disse que iria ao Bronx. Ou a qualquer outro bairro onde a presença do mayor fosse realmente necessária.

A diferença não era apenas geográfica. Era moral, quase semântica. Onde os outros viram oportunidade para repetir a fórmula, ele viu a armadilha. Não respondeu à pergunta nos termos em que ela foi feita: respondeu à cidade.

A campanha de Mamdani foi, desde o início, um estudo sobre o poder de não ceder. Num tempo em que a extrema-direita dita o tema e o tom, Mamdani fez o oposto: recusou-se a jogar no campo deles. A sua estratégia não foi gritar mais alto, foi mudar de idioma.

Enquanto os adversários falavam em “segurança”, “valores”, “tradição”, ele falava de rendas, de autocarros, de bairros ignorados. Falava do quotidiano. E, curiosamente, foi isso que soou mais revolucionário do que qualquer slogan.

Mamdani percebeu algo que tantos políticos esqueceram: que as ciladas mediáticas não se vencem com respostas melhores, mas com perguntas diferentes. O jornalismo viciado em repetições (no caso, um eterno ciclo das mesmas questões sobre Israel, sobre identidade, sobre radicalismos) encontrou finalmente alguém que quebrou a corrente. A sua resposta não desrespeitou a pergunta. Desarmou-a.

É fácil imaginar o desconforto no estúdio. Um candidato que não responde como deve. Um político que se atreve a não seguir o guião. Num país onde o teatro político se tornou automático, a recusa de Mamdani soou quase subversiva.

Utilizei a ferramenta de marketing político “O Método” para destrinçar o personagem Mamdani. Dentro dos arquétipos junguianos, Mamdani não é o “Governante”, aquele que busca o poder e o controlo, nem o “Herói”, que procura a glória pela força. Ele é uma fusão rara entre o “Explorador” e o “Rebelde”, com umas pitadas q.b. de “Homem Comum”.

O “Explorador” é aquele que recusa as rotas previsíveis. O “Rebelde” confronta as estruturas que o tentam domesticar. E o “Homem Comum” olha para a cidade de baixo para cima, não do helicóptero, mas do passeio.

Há ironia nesta história, claro. A ironia de que, na capital mais cosmopolita do mundo, o gesto mais ousado de um candidato possa ser dizer: “Vou ao Bronx.”

Mas é uma ironia luminosa, não amarga. Uma ironia que devolve o sentido às palavras. Porque o gesto de Mamdani não foi apenas político, foi linguístico. Reescreveu a gramática da conversa pública. Mostrou que é possível derrotar a extrema-direita na única frente que ela realmente domina: a comunicação.

Ao recusar a linguagem do medo, retirou-lhe o palco. Ao responder com autenticidade, desarmou o cinismo. E ao escolher o Bronx, lembrou à cidade que a verdadeira distância política não é entre Nova Iorque e Israel: é entre Manhattan e o resto de Nova Iorque.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “Se não consegues convencê-los, confunde-os.”

  • Edson Athayde
  • CEO e CCO da FCB Lisboa

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