O Carpinteiro e o Megafone
O storytelling importa. A vitória de Seguro mostra que ainda há espaço para narrativas que não tratam o povo como uma plateia enfurecida, mas como coautor de um projeto comum.
Havia numa aldeia dois candidatos a guardião da ponte. Um prometia reparar as tábuas gastas, reforçar os pilares quando a água subisse. Não gritava. Não garantia milagres. Dizia apenas: “a ponte aguenta, se cuidarmos dela todos os dias”.
O outro subia a um caixote e berrava que a ponte estava podre, que só ele via as fissuras invisíveis, que todos os guardiões anteriores eram cúmplices do desabamento iminente. Não trazia ferramentas, trazia certezas absolutas.
A aldeia ouviu ambos. E, no fim, escolheu atravessar com quem conhecia o peso da madeira e a força da corrente.
As eleições presidenciais portuguesas deste ano foram, no essencial, isto: uma escolha entre duas narrativas. Não entre dois programas, mas entre duas histórias sobre quem somos e para onde vamos.
De um lado, António José Seguro, político de centro, de coerência quase monástica, cuja maior virtude foi apontada por alguns como o seu maior defeito: não precisar de se reinventar todas as manhãs. Seguro não apareceu como salvador, nem como justiceiro. O seu storytelling não foi épico, foi ético. Não prometeu um novo país, lembrou o país que já existe quando a democracia funciona sem foguetório.
Do outro lado, André Ventura, fiel a si mesmo, apresentou-se como o homem-providência, o intérprete exclusivo de um povo alegadamente silenciado. A sua narrativa assenta numa dramaturgia simples: há culpados, há vítimas e há um único protagonista capaz de pôr ordem no caos. É um guião conhecido, repetido nesta fase da história em várias latitudes do planeta.
Centro contra extremos. Estoicismo contra fúria. Prego e martelo contra megafone.
E, no entanto, num mundo politicamente polarizado, em que o ruído muitas vezes vence a razão, o povo português escolheu, por larga maioria, o homem da voz baixa. Isto diz muito. E diz bem.
Diz que o eleitorado português, apesar de crítico e algo desencantado, continua a distinguir indignação de proposta. Diz que não confunde gritar com liderar. Diz que, quando chamado a decidir a figura simbólica máxima do Estado, prefere uma história de estabilidade a um enredo de confronto permanente.
Sobretudo, diz que o storytelling importa. A vitória de Seguro mostra que ainda há espaço para narrativas que não tratam o povo como uma plateia enfurecida, mas como coautor de um projeto comum.
Num tempo em que muitos países escolhem o incêndio para se aquecer, Portugal optou pela lareira: menos espetáculo, mais calor duradouro. Ao menos assim evitamos que a casa arda.
No fim, talvez a aldeia tenha aprendido uma lição do Tio Olavo: “Pontes não se salvam com promessas de demolição, mas com histórias que nos lembram porque vale a pena atravessá-las juntos”.
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