O país dos bustos e embustes
Nas redes sociais, o algoritmo já provou que a naturalidade, menos rigidez e a espontaneidade superam qualquer conceito gráfico. Não estaremos a viver o mesmo com os outdoors políticos?
Com a rentrée, voltamos às estradas, ao trânsito, mas agora ladeados com filas e filas de bustos, em modo “serial-promisses”. Para meu desconsolo, como criativo, vejo que a aposta eleitoral e tecnicista dos partidos e coligações continua feita de caras ampliadas, frases feitas e fundos monocromáticos. É como um catálogo de frames repetidos, em que só muda a cor, o logótipo ou a expressão ensaiada: ora sorridente, ora séria, ora com gravata, ora sem ela. Uma sucessão de tecnicismos políticos que não toca no essencial: não dilata retinas, não entusiasma, e persiste no mesmo erro permanente que não conecta às pessoas.
Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostrou que os eleitores confiam mais no candidato local do que na bandeira partidária. A proximidade pesa porque o voto autárquico é menos ideológico e mais vivido. A questão é: deve esse candidato local surgir apenas como mais um busto em escala XXL, ou deve trazer consigo tudo isto: identidade, mensagem e território?
Embora marcas comerciais e campanhas políticas partilhem ferramentas semelhantes — slogans, produtos, rostos ou cores — a profundidade do trabalho que cada uma exige é muito diferente. A política tende a resumir-se a uma equação quase automática: a cara do candidato, a cor e uma frase de circunstância. Já as marcas não se podem dar a esse luxo: precisam de criar valor percebido, relevância, confiança e diferenciação real, num processo sedutor. E é aqui que reside o problema dos cartazes: não há inovação, é tudo igual. Cansativo, tão cansativo como a relação das pessoas com a política.
Depois há os cartazes do candidato-sombra: figuras locais acompanhadas do líder nacional, quase em segundo plano de si próprias. A semiótica aqui não falha: dependência, subordinação, fragilidade. É a política do partido unipessoal, em que a marca é o chefe e o resto são extensões.
Nas redes sociais, o algoritmo já provou que a naturalidade, menos rigidez e a espontaneidade superam qualquer conceito gráfico. Não estaremos a viver o mesmo com os outdoors políticos?
Bustos presos nas estradas, todos iguais, em série, em que só mudam logótipos e caras também pode não só ser um busto. Pode ser um embuste da comunicação política.
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