Porque importa a cimeira de Paris
A parceria com os EUA, sendo importante, não pode ser a única via. Tal como no passado, a Europa deve reinventar-se para assegurar a sua autonomia na exploração espacial.
Começa hoje, em Paris, a International Space Summit. Esta cimeira, convocada por iniciativa do Presidente da República Francesa e realizada no Grand Palais, tem como objetivo reforçar o debate sobre o futuro do setor espacial, que ultrapassa largamente a ciência e a exploração. O espaço é hoje um tema económico, industrial e geopolítico de primeira ordem.
Embora a organização do encontro possa parecer fruto do acaso, a verdade é que dá continuidade a um percurso que remonta a 2021, à organização, em Portugal, da Reunião Ministerial Intermédia da ESA, onde os Estados-membros aprovaram por unanimidade uma resolução estratégica batizada de Manifesto de Matosinhos.
Em 2022, e no âmbito da sua presidência do Conselho da União Europeia, Emmanuel Macron organizou a Space Summit em Toulouse. Esta conferência foi um marco político crucial para definir as ambições e a autonomia estratégica da Europa no espaço. Num contexto pré-guerra na Ucrânia, mas já no pós-Covid-19, foi neste encontro que se decidiu avançar com uma nova infraestrutura de conectividade segura baseada em satélites, que, pouco tempo depois, daria origem ao programa IRIS2, bem como com a criação de um grupo consultivo de alto nível sobre exploração espacial.
A organização da International Space Summit por parte da França, ao congregar decisores políticos, forças militares, cientistas, agências e líderes industriais de mais de cem nações, evidencia que o setor aeroespacial se consolidou como um pilar estratégico nas agendas globais de segurança, competitividade e economia.
Já em 2023, sob a presidência espanhola, em Sevilha, a Space Summit reuniu os ministros europeus, que tiveram de tomar decisões financeiras e operacionais drásticas devido à crise no acesso europeu ao espaço, com o Ariane 6 atrasado, o Vega C em terra e o fim do acesso à Soyuz na sequência da guerra na Ucrânia. Se 2022 foi tempo de definir ambições, 2023 foi altura de resolver uma crise.
A organização da International Space Summit por parte da França, ao congregar decisores políticos, forças militares, cientistas, agências e líderes industriais de mais de cem nações, evidencia que o setor aeroespacial se consolidou como um pilar estratégico nas agendas globais de segurança, competitividade e economia. Esta abordagem confirma a transição definitiva do espaço, que deixou de ser uma área puramente voltada para a exploração científica e assumiu o estatuto de infraestrutura basilar e crítica para o funcionamento da economia mundial.
Do ponto de vista europeu, esta cimeira alinha-se com as anteriores. Se em 2022 tínhamos a definição de ambições e autonomia estratégica, e em 2023 a resolução da crise de lançadores europeus, agora, em 2026 temos como tema central a exploração espacial.
Neste domínio, assistimos hoje ao regresso da corrida à Lua, com a China e os Estados Unidos à frente. No programa Artemis, liderado pela NASA, a Europa participa através da ESA, juntamente com a japonesa JAXA e a canadiana CSA. O tempo é escasso e a primeira missão tripulada à superfície lunar está prevista para 2028. Isto levou a NASA a reestruturar os seus planos, com grande impacto na estratégia da ESA. E não podemos esquecer que, no Ocidente, apenas a SpaceX tem hoje a capacidade para levar humanos ao espaço. O fim da Estação Espacial Internacional, após 2030, abre ainda caminho a estações privadas, todas americanas, como as que estão a ser desenvolvidas pela AXIOM, a VAST e a Voyager.
Há sinais de que a reinvenção europeia já começou. Há apenas quatro dias, a alemã Isar Aerospace colocou um conjunto de pequenos satélites em órbita, a partir do porto espacial de Andøya, na Noruega. Foi também o primeiro fruto do European Launcher Challenge, a resposta nascida em Sevilha. Pela primeira vez, a Europa chegou à órbita a partir do continente europeu. Poderá Portugal contribuir para esta reinvenção em breve a partir dos Açores? Falta, ainda assim, o passo mais exigente: a exploração humana continua a depender totalmente da cooperação.
Esta situação deixa a Europa e a ESA numa posição em que a parceria com os EUA, sendo importante, não pode ser a única via. Tal como no passado, a Europa deve reinventar-se para assegurar a sua autonomia na exploração espacial.
Na semana passada vimos a SpaceX e a Blue Origin retirarem-se da Space Summit, segundo parece por pressões da Casa Branca. A Europa e as empresas espaciais americanas trabalham muito proximamente, numa excelente relação de cooperação. Esta cooperação irá manter-se e é extremamente importante no contexto global. No entanto, estas ações mostram também outro lado: mesmo dentro da cooperação, além de um objetivo comum, o espaço é também um poderoso instrumento de diplomacia.
Há sinais de que a reinvenção europeia já começou. Há apenas quatro dias, a alemã Isar Aerospace colocou um conjunto de pequenos satélites em órbita, a partir do porto espacial de Andøya, na Noruega. Foi também o primeiro fruto do European Launcher Challenge, a resposta nascida em Sevilha. Pela primeira vez, a Europa chegou à órbita a partir do continente europeu. Poderá Portugal contribuir para esta reinvenção em breve a partir dos Açores? Falta, ainda assim, o passo mais exigente: a exploração humana continua a depender totalmente da cooperação.
É por tudo isto que esta cimeira importa. A Europa e a ESA têm de encontrar um caminho comum: para não privar os europeus de uma das atividades mais fascinantes da humanidade, a exploração espacial, para os deixar sonhar também em ser astronautas e para que os Estados-Membros da ESA tenham acesso a laboratórios de investigação em gravidade zero, as estações espaciais.
Para cooperar é necessário estar ao mesmo nível e, por isso, é urgente que a Europa se reforce. Para isto, é importante manter a coesão entre os estados europeus. Sem esta coesão, corremos o risco de nos fragmentarmos e não avançarmos nesta reinvenção europeia.
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