Sonhos de uma noite de verão
O inquieto leitor pergunta agora: mas o que tenho eu a ver com esta deriva insana? Tem pouco ou nada, mas, por favor, respeite a minha vontade de não falar de assuntos sérios.
William Shakespeare terá escrito “Sonho de uma noite de verão” (“A Midsummer Night’s Dream”) há 430 anos — uma história algo cómica, algo mágica, de amores desencontrados que se reencontram numa floresta — e com final feliz. Em 1983, os Stranglers lançaram o disco “Feline” e uma das melhores músicas chama-se “Midnight Summer Dream“.
“I wake up on a good day
And the world feels wonderful
A midnight summer dream has me in its spell”
Um destes dias acordei com calor a pensar nas noites de verão, especialmente naquilo que tinham de bom quando éramos novos, um pensamento nada shakespeariano: faltava-lhes complexidade e virtude humanas.
“É amanhã dia 1 de agosto e tudo em mim é um fogo posto”, diziam os Xutos, e nós confirmávamos, bebendo cerveja por volta das três da tarde para acalmar o incêndio que perpassava na juventude inquieta dos anos 80 (“Rumble Fish”, 1983)
Eram tempos normais, apesar de sermos todos um pouco malucos, pseudo-alternativos e estruturalmente deprimidos, porque o “amor vai dilacerar-nos”, ou “separar-nos” (Ian Curtis). A URSS e os EUA disputavam o mundo numa harmonia singular e simétrica, apesar do medo da bomba. É certo que havia terrorismo na Europa; nacionalismos ferozes, como no País Basco; havia também muita miséria em largas partes do Sul; o comunismo a Leste empobrecia, matava e desiludia; e, em Portugal, os mais velhos pagavam o preço de uma evolução democrática ténue e de muito desvario pós-revolucionário.
Isto já parece um episódio do “Conta-me como foi”: tendemos a valorizar o passado e menosprezar o presente, porque temos má memória e o sentido crítico desorientado. Já é assim há séculos, mas palpita-me que a sacralização do passado se deve mais à noção da morte que aí vem do que à saudade do que já foi.
O verão convoca alegria, família, praia, aspirações e um regresso melhor, apesar do cartão de crédito esgotado, do início das aulas e do trânsito, e da chuva. A ansiedade pelo futuro devia ser substituída pela ansiedade do presente, do imediato. Mas o presente nem sempre é solar e nessa demanda louca pela felicidade pensamos que dar saltos no tempo minimiza a dor. Pontapés para a frente, quais Diogo Costa rodeado pela triste defesa do FC Porto (da época passada, claro, porque este ano é que vai ser).
O inquieto leitor pergunta agora: mas o que tenho eu a ver com esta deriva insana? Tem pouco ou nada, mas, por favor, respeite a minha vontade de não falar de assuntos sérios, de não falar de autárquicas, de presidenciais, de incêndios ou das relações EU/USA, da empresa, de empresas, de comunicação — de nada.
Agora é verão, é tempo de parar para ler ou reler e regressar ainda mais revigoradamente deprimido em setembro. Porque depois dos sonhos das noites de verão chegará o Inverno do nosso descontentamento (Ricardo III):
“Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York”
E aí, quando e se lá chegarmos, veremos se haverá primavera ou uma noite obscura.
Tenha umas boas férias e volte em setembro com toda a força do mundo. Uma coisa posso garantir: as cidades estarão mais limpas. Pelo menos até 12 de outubro.
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