Viver da criação ou viver para criar: do escanhoado Rick Astley ao barbudo Rick Rubin
Ah pois é, falhar e falhar melhor, como dizia Samuel Beckett. O criador deve abraçar o processo de pé no acelerador sem desvios, mesmo quando os obstáculos parecem escorregadios ou insuperáveis.
“Never Gonna Give You Up” do Rick Astley e o livro “O Ato Criativo: Um Modo de Ser” do produtor Rick Rubin, à primeira vista, podem parecer elementos de mundos absurdamente diferentes. Um é um clássico do pop dos anos 80 que vamos trauteando até hoje, enquanto o outro é uma reflexão profunda de 300 páginas sobre o processo criativo, e como este pode ser vivido de forma autêntica, ao longo de uma estranha e maravilhosa forma de vida. No entanto, ambos compartilham um eixo central: a persistência, o compromisso inabalável e a confiança no próprio caminho. Neste caso, o caminho da música, que faz parte de todos nós.
O “Never Gonna Give You Up” é a expressão do compromisso absoluto. Astley canta sobre um amor fiel, onde se compromete a nunca desistir, a nunca abandonar, a estar sempre lá por inteiro, no matter what. Essa ideia de “nunca desistir” ressoa com o espírito de qualquer pessoa verdadeiramente criativa, que decide seguir o seu impulso artístico e transformar este num guião de vida, enfrentando todos os altos e baixos da jornada criativa sem se ajoelhar diante da dificuldade. Ressoa no peito, pois sim.
Por outro lado, o Rick Rubin, em “O Ato Criativo,” explora de forma magistral a ideia de que a criatividade não é algo que surge de forma esporádica, ou mágica, ou lá o que for. É, isso sim, algo que exige olhar atento, dedicação contínua e uma postura muito consistente diante das contrariedades — nunca esquecendo que um brief mal passado pode eventualmente virar filet mignon, mesmo que o budget seja um reles pojadouro. Rubin recorda-nos que ser criativo é, muitas vezes, uma questão de persistir nas ideias que parecem certas às entranhas, mesmo quando o caminho se torne deveras árduo. Criar é dar-se a uma prática constante — como o suposto compromisso de Astley com o seu amor incondicional que virou canção. Ou historieta. Até hoje.
Se, na canção do primeiro Rick, a repetição de um compromisso reforça a certeza de que não haverá desistência, Rubin também nos propõe que a criação precisa ser constante e sem medo de falhar. Ah pois é, falhar e falhar melhor, como dizia Samuel Beckett. O criador deve abraçar o processo de pé no acelerador sem desvios, mesmo quando os obstáculos parecem escorregadios ou insuperáveis. Rubin argumenta que a verdadeira criatividade surge quando aceitamos a imperfeição e continuamos a avançar, ainda que o caminho não seja claro. E há décadas que somos viciados na clareza dos percursos. Agora, pior, na clareza da luz azul dos ecrãs, onde tudo soa a déjà vu.
Ambos os Ricks– Astley e Rubin — falam sobre a importância de não se afastar do que é afinal verdadeiro e essencial. Enquanto a música do Astley nos oferece uma metáfora romântica de lealdade, o livro do Rubin oferece-nos uma filosofia verdadeiramente prática sobre a beleza do ato de criar, sugerindo que, assim como no amor, a persistência no processo criativo é o que leva à verdadeira expressão de quem somos.
Digamos então que “Never Gonna Give You Up” é uma ode, um hino à dedicação. Ao mesmo tempo que Rick Astley se compromete a nunca desistir do seu amor, o Rick Rubin assume que, para criar de forma genuína, devemos assumir um compromisso igualmente fiel com a nossa própria jornada criativa — sem medo de erros ou de falhas, sabendo que a beleza do processo está na fidelidade ao que realmente importa: alimentar o amor. Para que se possa criar para viver e viver para criar.
Agora, o mais engraçado: o tema cantado pelo Rick Astley não é da sua autoria. Vem de uma tripla — Stock, Aitken e Waterman (conhecidos como SAW), uma powerhouse criativa de hits musicais dos 80’s e 90’s — que escreveram para os Dead or Alive, Bananarama, Donna Summer ou até para a australiana Kylie Minogue. Foram criativos ao ponto de perceber que para dar corpo a esta letra, nada como uma figura vulnerável e assética, sem toques de latin lover, que apenas conseguiria dançar este eurobeat com a destreza de um Trump ou com a segurança de um Tozé Seguro, mas que, contudo, apresentava uma voz de matriz quase africana. Foram com tudo. O resultado? Um mash up de estranheza que se entranhou nos ouvidos do mundo, atravessando gerações e gerações.
Agora, ainda mais engraçado que o mais engraçado: o Rick Rubin tem nove Grammys na prateleira. Não entende patavina de música, nem consegue entender os significados das luzinhas na mesa de mistura ou tocar um instrumento decentemente. Mas a verdade é que produziu gigantescos sucessos de bandas como os Beastie Boys, os Red Hot Chilli Peppers, os Black Sabbath, os Public Enemy, os Run DMC, o Kanye West ou — pasmem-se — a lacrimosa Adele. Acredita piamente que qualquer pessoa pode transcender as suas limitações, se tentar resgatar um estado puro de inocência e inspiração dentro de si. E porque não, caro leitor? Na perspetiva de Rubin, a arte e a criatividade estão à disposição de cada um de nós, como um direito à nascença. Muito antes de nos escanhoarmos, depilarmos ou assumirmos uma barba que se torne imagem de marca. Há que ser fiel à criança interior que pode ficar para a vida.
E haja vida para criar e criação para que se viva.
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