Automóvel e aeroespacial têm “muitas soluções críticas comuns”
A terceira e última call do programa europeu SCAIRA decorre até 16 de janeiro. Procuram startups com soluções verdes para o setor aeronáutico, automóvel e indústria transformadora.
Há que “acelerar a convergência industrial” entre o setor automóvel e aeroespacial que hoje não só têm “desafios estruturais” comuns, como “muitas soluções críticas”, defende Miguel Araújo, diretor-geral da Mobinov, cluster automóvel e da mobilidade, e um dos promotores do Startups’ Creation and Acceleration for Industrial Rural Areas (SCAIRA). A terceira e última call do programa europeu decorre até 16 de janeiro. Procuram startups com soluções verdes para o setor aeronáutico, automóvel e indústria transformadora.
A call — a terceira e última do programa europeu a decorrer há três anos e financiado pelo programa Interreg SUDOE, no âmbito da da Política de Coesão da União Europeia, envolvendo um consórcio transnacional de 12 parceiros de França, Espanha e Portugal, entre os quais o português Mobinov — decorre num momento em que a crise no setor automóvel tem levado muitos a defender a reconversão da indústria para outras áreas de atividade, como o aeroespacial e defesa. Esse contexto tem pesado na seleção das startups para o programa de aceleração?
“Desde o início do projeto SCAIRA, esta questão tem sido analisada de forma estratégica e estruturada, assente num estudo sobre os desafios industriais e territoriais dos setores automóvel e aeronáutico, realizado pelo consórcio logo na fase inicial do projeto. Uma das principais conclusões desse estudo é que os setores automóvel e aeroespacial partilham, hoje, um conjunto muito significativo de desafios estruturais, que vão muito além das especificidades de cada indústria”, começa por referir Miguel Araújo, diretor-geral da Mobinov, ao ECO/eRadar.
Uma das principais conclusões desse estudo é que os setores automóvel e aeroespacial partilham, hoje, um conjunto muito significativo de desafios estruturais, que vão muito além das especificidades de cada indústria (…) O critério não é ‘fugir do automóvel’, é acelerar a convergência industrial, uma vez que muitas soluções críticas hoje são comuns ao automóvel e ao aeroespacial (e, em parte, à defesa), em termos de descarbonização, circularidade, digitalização, rastreabilidade e resiliência da cadeia de abastecimento.
“O critério não é ‘fugir do automóvel’, é acelerar a convergência industrial, uma vez que muitas soluções críticas hoje são comuns ao automóvel e ao aeroespacial (e, em parte, à defesa), em termos de descarbonização, circularidade, digitalização, rastreabilidade e resiliência da cadeia de abastecimento”, continua o responsável do cluster automóvel.
“Num contexto em que os fornecedores europeus enfrentam custos a subir, produtividade estagnada e pressão competitiva, precisamos de soluções que ataquem três prioridades: competitividade de custos (menos ineficiências, mais automação/IA), velocidade e inovação (organizações mais ágeis) e resiliência (menos silos, mais colaboração e execução)”, refere ainda.
“O automóvel é um barómetro da saúde industrial europeia, o que funciona, aqui, escala para outros setores. Por isso, valorizamos startups com tecnologia transferível entre setores, com capacidade de industrialização e impacto mensurável em produtividade, qualidade, energia e tempo de ciclo“, diz.
Portugal dispõe de uma base industrial fortemente ligada ao setor automóvel, mas com competências técnicas que podem ser valorizadas noutros setores industriais de elevada exigência tecnológica, como o aeroespacial.
Para Portugal, esta abordagem é “particularmente relevante”, considera Miguel Araújo. E explica porquê. “O país dispõe de uma base industrial fortemente ligada ao setor automóvel, mas com competências técnicas que podem ser valorizadas noutros setores industriais de elevada exigência tecnológica, como o aeroespacial”, diz.
“Ao apoiar startups que trabalham nestas áreas comuns, o SCAIRA contribui para a diversificação inteligente do tecido industrial português, sem perda de know-how, promovendo simultaneamente maior robustez económica e capacidade de adaptação a ciclos de mercado distintos.”
Que startups procuram com esta nova call?
O SCAIRA — que oferece “um programa de mentoria técnica e estratégica, avaliado em 20 mil euros, totalmente financiado”, tendo a Airbus Atlantic, o Renault Group e a HORSE Aveiro como empresas promotoras dos desafios do projeto — apoiou um total de 10 projetos nas duas calls anteriores: quatro na primeira (Aerospace, Made in Tracker, Raul Segura e Setenova) e seis na segunda (Enigma 2040, Blue Smart Robotics, Cero Zero, Planta Smart Homes, AICRUM IT e Janus AIge), das quais duas portuguesas: Aerospace e Planta Smart Homes.
As startups tinham projetos com “foco em soluções de sustentabilidade, circularidade e digitalização com orientação industrial”, tendo o SCAIRA ajudado esses “projetos a passar do slide ao chão de fábrica”.
O que se pretende com esta nova call? “Procuramos startups com soluções prontas para chegar ao chão de fábrica e à cadeia de abastecimento, com tecnologia que aumente produtividade, reduza custos e acelere a transição verde e digital nos setores automóvel e aeroespacial. Inovação que não chega à fábrica não aumenta a produtividade, e o SCAIRA existe para fechar esse ciclo”, explica.
Procuramos startups com soluções prontas para chegar ao chão de fábrica e à cadeia de abastecimento, com tecnologia que aumente produtividade, reduza custos e acelere a transição verde e digital nos setores automóvel e aeroespacial. Inovação que não chega à fábrica não aumenta a produtividade, e o SCAIRA existe para fechar esse ciclo.
“Queremos projetos com vocação industrial, escaláveis e com capacidade de validação em contexto real, alinhados com desafios estratégicos definidos pelo consórcio e identificados em estreita colaboração com grandes grupos industriais europeus”, diz.
Desafios como “circularidade dos sistemas de produção na aeronáutica, a implementação de cadeias de abastecimento sustentáveis e resilientes, a economia circular e a rastreabilidade digital no setor automóvel, a mobilidade sustentável, eletrificação, armazenamento de energia e soluções de transporte net-zero, bem como um desafio transversal de economia circular aplicável aos setores automóvel e aeronáutico”, elenca o diretor-geral do Mobinov.
O que retira Portugal deste programa?
As startups participantes no programa têm oportunidade de testar a sua solução em ambiente real. No caso da Aerospace — que desenvolve uma solução para a redução de emissões e captura de gases poluentes —, o trabalho realizado foi, sobretudo, “de preparação para validação industrial, em termos de clarificação do problema e do caso de uso, mapeamento de requisitos técnicos e operacionais para aplicação em ambiente real, estruturação do modelo de negócio e definição do caminho de industrialização e escalabilidade”, diz o responsável da Mobinov.
Ou seja, “em termos práticos, o programa “ajudou a transformar uma solução promissora em proposta pronta para piloto, com alinhamento com necessidades concretas da indústria e ligação a redes europeias para futuras colaborações e financiamento”, explica Miguel Araújo.

Já no caso do Planta Smart Homes — que está a “desenvolver um sistema operativo para edifícios inteligentes e sustentáveis, aplicável tanto ao setor residencial como ao ambiente industrial, integrando inteligência artificial, automação energética e princípios de design ético” — através do programa validou a sua proposta na HORSE Aveiro, “focada em eficiência energética e gestão inteligente de recursos, com potencial de aplicação também em contexto industrial e mobilidade”.
Um programa que dá às startups nacionais “uma oportunidade concreta de exposição internacional, permitindo-lhes testar e adaptar as suas soluções a diferentes mercados, desenvolver projetos com empresas espanholas e francesas e estabelecer parcerias estratégicas que dificilmente seriam alcançadas num contexto exclusivamente nacional”, refere Mário Araújo quando questionado sobre a interação promovida pelo programa entre os países envolvidos.
“A dimensão transnacional é um pilar do SCAIRA, através de aceleração em rede e acesso direto a players industriais e investidores em Portugal, Espanha e França. Na prática, isto é operacionalizado com momentos estruturados de B2B (startups – indústria) e B2F (startups – investidores), e com um percurso de aceleração que promove cocriação, validação e preparação de pilotos com dimensão internacional”, diz.
Além disso, “os desafios são colocados com envolvimento de parceiros industriais como Airbus Atlantic, Renault Group e a entidade associada HORSE Aveiro, o que abre portas a testes e oportunidades de mercado fora de Portugal”, acrescenta.
O programa “não se limita a promover networking genérico, não é apenas visibilidade, é criação de pipeline de negócio e pilotos transnacionais”, garante.
Mas estes não são os únicos benefícios para o país, garante o responsável do Mobinov. “O SCAIRA não é apenas um programa de aceleração clássico, mas sim uma plataforma de aproximação entre startups, indústria e territórios, com especial atenção às zonas rurais”, começa por destacar.
“O impacto do SCAIRA em Portugal traduz-se não apenas nos projetos apoiados, mas, também, na criação de um ecossistema mais preparado para a inovação industrial sustentável, no reforço da ligação entre startups e indústria, e na capacidade de posicionar Portugal como um território atrativo para o desenvolvimento e teste de soluções inovadoras nos setores automóvel e aeronáutico, alinhadas com os objetivos europeus de neutralidade carbónica e competitividade industrial”, continua.
O impacto do SCAIRA em Portugal traduz-se não apenas nos projetos apoiados, mas, também, na criação de um ecossistema mais preparado para a inovação industrial sustentável, no reforço da ligação entre startups e indústria, e na capacidade de posicionar Portugal como um território atrativo para o desenvolvimento e teste de soluções inovadoras nos setores automóvel e aeronáutico, alinhadas com os objetivos europeus de neutralidade carbónica e competitividade industrial.
Mais, o envolvimento do Mobinov no projeto “tem permitido ligar diretamente startups nacionais e internacionais ao tecido industrial português, em particular ao setor automóvel, promovendo transferência de conhecimento, identificação de oportunidades de pilotos industriais e criação de parcerias estratégicas“, argumenta.
“Este efeito é particularmente relevante para PME industriais localizadas fora dos grandes centros urbanos, contribuindo para a dinamização económica de territórios rurais e para a atração de talento e inovação para estas regiões”.
Esta é a última call não estando prevista, no âmbito do financiamento, novas edições do programa. “O objetivo é que o mais importante permaneça, ou seja, as ligações criadas entre startups, indústria e centros de conhecimento, e os pilotos/colaborações que daí resultam”, diz. “Esta fase final está muito orientada para consolidar resultados e preparar continuidade através de parcerias e iniciativas pós-projeto”, destaca.
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