O que vale o apoio de um autarca em eleições presidenciais? De Isaltino a Moedas, derrotas foram várias

Isaltino apoiou Gouveia e Melo, mas o almirante ficou a ver navios face à votação das autárquicas. Mas não houve só derrotas de autarcas nas presidenciais.

Carlos Carreiras, até outubro presidente da Câmara Municipal de Cascais, e Isaltino Morais, o “eterno” presidente da Câmara Municipal de Oeiras, dois dos membros do grupo mais chegados de apoiantes de Gouveia e Melo, de pouco parecem ter servido. Será o apoio de um autarca assim tão importante para o candidato a Presidente da República?

Na noite eleitoral deste domingo, Isaltino Morais destacava que, em Oeiras, Ventura “ficou em quarto. O almirante ficou à frente do André Ventura e o Marques Mendes ficou em último”. De uma assentada, resumiu o seu apoio a Gouveia e Melo e o repúdio pelo antigo presidente do PSD, o mesmo que, em 2005, impediu o autarca de se candidatar pelo PSD no município onde, mesmo como independente, assegura consecutivamente vitórias autárquicas.

Isaltino Morais foi um dos mais vocais apoiantes do candidato independente ao longo desta candidatura e não se coibiu de mostrar a distância que o separa de Marques Mendes. Contudo, as palavras acima na noite eleitoral não foram ditas na sede de campanha do almirante, mas sim num estúdio de televisão longe do Hotel Corínthia onde Gouveia e Melo assumia o resultado a milhas da vitória estrondosa que há um ano se previa.

A declaração de António José Seguro, no discurso de vitória da primeira volta, de que “há um oceano” que separa o socialista de André Ventura, poderia ser utilizada pelo autarca de Oeiras apoiado pelo PSD a 18 de outubro, relativamente ao candidato apoiado pelo PSD a 18 de janeiro.

Os ataques ao antigo comentador televisivo das noites de domingo foram sempre de modo a dar um tiro no porta-aviões do PSD para Belém: “O almirante não tem a manha do doutor Marques Mendes. O doutor Marques Mendes é um político com toda a manhosidade”, afirmava Isaltino em maio passado.

Ainda há uma semana, no canal Now, em plena campanha dizia: “Há vários anos que digo que Luís Marques Mendes tem duas caras, uma cara visível, a que as pessoas conhecem, o rei da ética, e depois há uma mais opaca, que as pessoas não conhecem e da qual ele não quer falar. Os portugueses não podem ter como Presidente da República alguém que é facilitador de negócios”.

Só que, nas urnas, e apesar de Isaltino destacar que, na Oeiras, Marques Mendes “ficou em último” (foi quinto, atrás de todos os putativos candidatos com hipótese de chegar à segunda volta), o resultado deste domingo também não sorriu ao almirante, candidato apoiado pelo autarca e não só.

Consigo, para a campanha do submarinista, Isaltino Morais atraiu parte da entourage do seu Executivo autárquico – Irina Costa, adjunta de Isaltino, Mafalda Domingos, assessora, Paula Saraiva, diretora municipal, Sílvia Fernandes, diretora do departamento do Ambiente, Susana Aires, responsável do gabinete de protocolo, e ainda uma vereadora que agora está em Lisboa.

Em Oeiras, Gouveia e Melo amealhou 14.485 votos, menos de um terço dos 52.326 que elegeram o presidente da Câmara Municipal. Neste mesmo concelho onde o PS teve 9.540 votos em outubro, Seguro venceu com 33.102. Já Cotrim Figueiredo, segundo na primeira volta, quase multiplicou por seis a votação autárquica da Iniciativa Liberal.

Veja abaixo outros exemplos:

  • Albufeira

André Ventura perdeu 118 votos face ao resultado do seu partido nas autárquicas, das quais saiu vencedor naquele concelho, ainda que superado pelo PS no total do distrito de Faro. Agora, o líder do Chega teve 38,75% da votação em Albufeira e 33% no Algarve.

Já Seguro, segundo nesta câmara que até 18 de outubro era social-democrata, ganhou quase mil votos. O grande derrotado foi Marques Mendes, quinto, com 7,7% da votação, muito distante dos 32,3% obtidos por José Carlos Rolo, recandidato social-democrata derrotado em outubro. “Portugal falou e falou alto”, já veio dizer Rui Cristina, o autarca.

  • Bragança

A nordeste, os esforços da autarca não foram em vão. A atual presidente da Câmara é apresentada na lista de mandatários de António José Seguro como “a cidadã Isabel Ferreira” e, só mais adiante, no site de campanha, explica que “atualmente é presidente da Câmara Municipal de Bragança”.

Conquistada pelo PS após 28 anos de liderança social-democrata, Bragança deu a vitória a António José Seguro, mas a votação foi bastante menos expressiva: 34,8% para o candidato presidencial e 50,3% para a antiga secretária de Estado.

Com Marques Mendes a encolher para praticamente um terço da votação do PSD nas autárquicas, Ventura somou a grande vitória, passando dos 2,2% do seu Chega em outubro para 23,8%.

Rui Cristina, um dos três presidentes de Câmara eleitos pelo Chega em outubro, saiu vencedor na aposta em quem ganharia no seu concelho. O líder do partido ganhou ali, neste domingo, mas com menos votos do que o Chega obtivera. MIGUEL A. LOPES/LUSAMIGUEL A. LOPES/LUSA
  • Cascais

António Capucho e Carlos Carreiras são dois ex-presidentes social-democratas em Cascais. Ambos somaram maiorias absolutas e os dois estiveram ao lado de Gouveia e Melo como membros da associação cívica criada pelos apoiantes do almirante, “Honrar Portugal”.

Carreiras, com 12 anos de mandatos terminados há apenas três meses, finalizou as suas corridas autárquicas com 52,5% dos votos. No almirante votaram menos de 14% dos cascalenses. Marques Mendes não chegou a 10%, menos de metade da votação de Cotrim e cerca de um terço de Seguro.

  • Figueira da Foz

Santana Lopes recebeu Seguro na câmara da Figueira da Foz a 9 de janeiro, e ali manifestou o que pode ser entendido como apoio: “Se ele ganhar – não estou a expressar o voto, só para a semana – mas a presidência ficará bem entregue. Tem um passado impoluto. Oferece todas as garantias de idoneidade para assumir as mais altas funções”. De facto, Seguro venceu a primeira volta, mas, em abono da verdade, Santana nunca foi cristalino no apoio eleitoral.

Quando se compara os resultados deste domingo com o das autárquicas, Seguro fica distante de Santana, com pouco mais de 10 mil votos, contra os mais de 18 mil do autarca. Seguiu-se Ventura, que duplicou a votação face ao Chega nas autárquicas, Gouveia e Melo, Cotrim de Figueiredo – multiplicou por mais de 12 vezes a alcançada pela IL entre os figueirenses – e, abaixo de 9%, Marques Mendes, que a escassos dias da primeira volta teve um debate difícil com Santana no programa deste no canal Now.

O mesmo espaço televisivo onde Santana dissera, há algumas semanas, que “Luís Marques Mendes fez mal a muita gente”. “Quando ele tomou a atitude em 2005 de não me querer [para candidato a presidente da Câmara de Lisboa] e depois deitou Carmona Rodrigues abaixo [eleito para a capital em 2005], ele abriu a porta a António Costa, que nunca mais largou o poder, está em presidente do Conselho Europeu”. Carmona, registe-se, apoiou Gouveia e Melo.

  • Lisboa

O caso de Lisboa tem uma particularidade: o presidente, Carlos Moedas, esteve ao lado de Luís Marques Mendes e fez questão de o acompanhar na noite eleitoral, quando muitos dos ilustres do PSD e os governantes que apoiaram a candidatura se destacavam pela ausência (do Governo, apenas o ministro da Economia e Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, acompanhou a tensa noite eleitoral).

Já a número três da Câmara, Joana Batista – na hierarquia deste novo Executivo apenas superada pelo próprio presidente e pelo vice-presidente Gonçalo Reis – estava com Gouveia e Melo, ainda que a sua adesão à candidatura do almirante começasse quando ainda era vereadora do Executivo de Isaltino Morais.

Na votação na capital, Marques Mendes conseguiu o “feito” de bater o negro recorde de Teresa Leal Coelho nas autárquicas de 2017, quando Assunção Cristas colocou o CDS com quase o dobro da votação do PSD. O candidato presidencial teve menos 537 votos que Leal Coelho.

Em outubro, Carlos Moedas chegou aos 41,7%, 110 mil votos. Neste domingo, António José Seguro somou 35,15%, quase 105 mil votos. Mendes não foi além dos 27.799, pouco mais do que os amealhados pelo comunista João Ferreira nas últimas autárquicas.

Já Gouveia e Melo superou os 33 mil. Entre os candidatos de Carlos Moedas e da sua vereadora da Higiene Urbana, Joana Batista saiu menos derrotada.

Eleições presidenciais 2026: André Ventura e António José Seguro passaram à segunda volta. O presidente e a número três da hierarquia da Câmara de Lisboa apostavam em dois nomes que ficaram atrás dos agora candidatos à segunda volta, que se realizará no dia 8 de fevereiro.Hugo Amaral/ECO
  • Mêda

Quando se procura por presidentes de Câmara na comissão de honra de Marques Mendes, só César Figueiredo, social-democrata presidente em Mêda, está atualmente em exercício. De resto, somam-se 16 que ex-autarcas. Figueiredo teve 48,9% dos votos em outubro. O seu candidato presidencial e companheiro de partido não passou de 22,2%.

Com uma taxa de abstenção bastante superior nas presidenciais – Seguro venceu com 730 votos e 31%, enquanto o autarca somou 1.579 – Ventura destacou-se ao conseguir multiplicar a votação por quase dez face a outubro. Então, o Chega teve 61 votos, agora, no domingo, o líder do partido somou 584.

  • Porto

Os dois “Ruis” que governaram a Invicta entre 2001 e 2025 estavam, neste domingo, em lados opostos da barricada. Rui Rio esteve ao lado de Gouveia e Melo enquanto mandatário. Rui Moreira apoiou Marques Mendes. Dois ex-presidentes da Câmara do Porto que conheceram maiorias absolutas, mas não conseguiram emprestar esta aura aos seus candidatos.

Rio terminou o seu ciclo com 47% (62 mil votos) em 2009 e Moreira com 41% (41 mil). Já Pedro Duarte, agora no cargo, esteve no mesmo lado da barricada que o seu antecessor, mas, tal como parecem não ter feito caso de Moreira, os portuenses não seguiram as indicações de voto do seu atual autarca.

António José Seguro somou 33%, graças a 42.568 votos. Face às autárquicas, são apenas menos 354 votos que a coligação PSD/CDS/IL, que elegeu Pedro Duarte com 37%.

No domingo, Gouveia e Melo e Marques Mendes foram quarto e quinto, respetivamente, com um terço dos votos de Seguro, atrás até de André Ventura, que, face às autárquicas, praticamente duplicou a votação do Chega no Porto.

  • Viana do Castelo

O autarca Luís Nobre, eleito com maioria absoluta em outubro, apoiou Gouveia e Melo. Concelho socialista, Viana do Castelo manteve a tendência nas presidenciais. Contudo, a vitória de Seguro foi cerca de 7.000 votos mais magra que a de Luís Nobre.

Uma margem que poderá ter migrado, precisamente, para Gouveia e Melo, que teve a confiança de 7.635 vianenses. Já Marques Mendes não chegou sequer a metade da votação do PSD nas autárquicas.

De pouco serviu a Gouveia e Melo o esforço de reunir uma torrente de apoios entre autarcas. Nem o empurrão dado por Alberto João Jardim na Madeira, região historicamente social-democrata, lhe permitiu obter uma vitória parcial. JOSÉ SENA GOULÃO/ LUSAJOSÉ SENA GOULÃO/ LUSA
  • Região Autónoma da Madeira

Foi presidente da região durante quase 40 anos, consigo aos comandos o PSD somou celebrou quase meia centena de vitórias eleitorais, mas o apoio de Alberto João Jardim a Gouveia e Melo de pouco serviu. Em 2011, na sua décima maioria absoluta, somou mais de 71 mil votos, correspondentes a 48,6%, a que se juntavam 26 mil (17,6%) no CDS liderado por José Manuel Rodrigues, atual secretário regional da Economia.

Ambos os madeirenses apoiaram Gouveia e Melo, que nas presidenciais não alcançou melhor que o quinto lugar, com 8% da votação, menos de 11 mil votos, total em linha com o obtido naquelas legislativas regionais 2011 pelo PTP, de José Manuel Coelho.

Neste domingo, Marques Mendes teve na região historicamente social-democrata apenas a terceira melhor votação da primeira volta das presidenciais. Ali, não foi além de 14,7%, muito longe do resultado do partido, mas quase o dobro do almirante. O grande derrotado destas presidenciais ficou, ali, atrás dos 22,8% de António José Seguro e 33,4% de Ventura.

De social-democrata, a Madeira virou, nas presidenciais, para o Chega, que apenas tinha conquistado uma pequena autarquia, São Vicente. Ali, Ventura ficou cerca de seis pontos percentuais abaixo do seu candidato autárquico José Carlos Gonçalves.

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