Gaia namora sauditas para megaprojeto de habitação e ‘casa’ com duas empresas

O autarca gaiense revelou que o projeto mais ambicioso passa pela criação de uma "nova cidade" no interior do concelho, numa área de 300 hectares próxima da Circular Regional Exterior do Porto.

A Câmara de Gaia e a Província Oriental da Arábia Saudita assinaram um protocolo de cooperação que visa atrair investimento para uma “nova cidade” de 300 hectares e para um parque de entretenimento urbano com outros oito hectares.

O memorando de entendimento assinado esta sexta-feira em Vila Nova de Gaia pelo presidente da autarquia, Luís Filipe Menezes, e pelo representante da Câmara da Província Oriental da Arábia Saudita, Fahad Alabdu, estabelece uma parceria estratégica de três anos focada no planeamento urbano, mobilidade, transformação digital, segurança municipal e gestão de crises, entre outros.

Em declarações à Lusa, Luís Filipe Menezes – que já liderou a Câmara do Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa – revelou que o projeto mais ambicioso passa pela criação de uma “nova cidade” no interior do concelho, numa área de 300 hectares próxima da Circular Regional Exterior do Porto (CREP) ou A41 e dos eixos de ligação ao distrito de Aveiro.

“Queremos ter uma grande mancha urbana com três vertentes: habitação, serviços — onde aspiramos a ter ‘technopark’ [parque tecnológico] e construção. Será a grande solução para levar as pessoas a viver no interior e aí o investimento estrangeiro será essencial”, afirmou o autarca.

Queremos ter uma grande mancha urbana com três vertentes: habitação, serviços — onde aspiramos a ter um parque tecnológico — e construção. Será a grande solução para levar as pessoas a viver no interior e aí o investimento estrangeiro será essencial.

Luís Filipe Menezes

Presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia

Menezes destacou o “surpreendente interesse” dos investidores sauditas no setor da habitação, adiantando que estão a ser pensadas várias tipologias de fogos, não apenas habitação a custos controlados.

Para viabilizar este objetivo e aumentar o interesse dos investidores da Arábia Saudita, o município está disponível para ceder terrenos públicos, num modelo de parceria público-privada (PPP), que visa uma maior rapidez na concretização do projeto face aos prazos de financiamento estritamente públicos.

“Se fizermos numa lógica estritamente pública, podemos procurar investimentos, apoios do Governo ou da União Europeia, mas será sempre um projeto mais lento, é óbvio. Se nós conseguirmos uma parceria de investimento que nos permita arrancar com o projeto de uma vez só, numa lógica de repartirmos as mais-valias de exploração, será mais rápido”, explicou.

Esta expansão urbana está a ser articulada com a revisão do Plano Diretor Municipal (PDM), que a autarquia prevê ter concluído até ao final do verão.

O documento deverá dar o suporte legal necessário para a conversão de uso dos solos, permitindo a implementação do novo modelo de desenvolvimento que o presidente da câmara acredita ser a solução nomeadamente para os problemas de habitação.

No âmbito da mobilidade, o protocolo, adianta ainda o autarca, abre porta à participação de empresas e autoridades sauditas no desenvolvimento de “novos sistemas de transporte”, incluindo teleféricos urbanos — inspirados no modelo recentemente inaugurado em Paris — e parques de interfaces rodoviários.

Esta parceria abre ainda a porta à criação de um parque de entretenimento urbano de oito hectares, inspirado nos Jardins Tivoli, situado no meio da cidade de Copenhaga.

“Temos o terreno e o espaço, precisamos de investidores para desenvolver o primeiro parque de entretenimento urbano do país. (…) Será um espaço com cultura ao ar livre, restauração e lazer ligado às novas tecnologias e inteligência artificial“, explicou o Menezes, escusando-se a revelar a localização exata para evitar a “especulação imobiliária”.

“É um bocadinho à flor dos meus olhos, que é o sonho que temos e precisamos de investidores para desenvolver o maior ou o primeiro parque de entretenimento urbano do país. (…) Estamos a desenvolver esse projeto. Temos terreno bem localizado, aliás temos duas hipóteses de terreno bem localizado. A nossa opção é que seja muito urbano para as pessoas poderem ir a pé ou ir de metro”, adiantou.

Segundo o documento assinado esta manhã, a cooperação entre Gaia e aquela província saudita prevê também a troca de boas práticas na transformação digital, gestão de resíduos e preservação do património, privilegiando o modelo de parcerias público-privadas (PPP) para acelerar a execução dos projetos.

O memorando não impõe obrigações financeiras imediatas, funcionando como um quadro de “boa-fé” para facilitar o licenciamento e a execução de investimentos qualificados no concelho.

Duas empresas sauditas instalam-se em Gaia

Já no imediato, as sauditas Strategic Deals Company For Investment (SDCI) e Prestige vão instalar-se em Vila Nova de Gaia. O anúncio foi feito no âmbito de uma visita promovida pelo Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal ao município gaiense. Fonte oficial confirma ao ECO que já estão a ser tratados todos os procedimentos legais através de um escritório de advogados português.

Gaia é um concelho com diversas oportunidades de investimento e estamos muito satisfeitos por estabelecer aqui estas duas empresas“, afirma o presidente do Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal e acionista de referência destas duas empresas. “Estamos certos de que iremos contribuir positivamente para o desenvolvimento local, de forma sustentada e com uma visão de longo prazo”, sublinha Alwalid Albaltan, citado em comunicado.

Gaia é um concelho com diversas oportunidades de investimento e estamos muito satisfeitos por estabelecer aqui estas duas empresas.

Alwalid Albatan

Presidente do Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal

A Strategic Deals Company For Investment irá atuar como uma holding de investimento, focada na identificação de oportunidades de negócio e investimento em Portugal. “O objetivo passa por adquirir participações acionistas, minoritárias e maioritárias, em empresas portuguesas estrategicamente selecionadas, em setores considerados prioritários, como a construção e o turismo”, refere um comunicado do Saudi Portuguese Business Council.

O Saudi Portuguese Business Council detalha ainda que “a SDCI irá também apoiar e estruturar joint ventures e parcerias estratégicas entre empresas portuguesas e sauditas, facilitando também a expansão de empresas lusas para a Arábia Saudita, sem esquecer o auxílio na promoção de exportações, apoio à entrada no mercado e identificação de parceiros locais”.

Presidente do Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal, Alwalid AlbatanSaudi Portuguese Business Council

Em cima da mesa está também o desenvolvimento de projetos de habitação e a atração de investidores sauditas para Portugal, dando ainda apoio a investimentos transfronteiriços alinhados com o projeto Saudi Vision 2030 e com as prioridades económicas portuguesas.

Já a Prestige foca-se em oportunidades relacionadas com soluções urbanas para projetos municipais, nomeadamente estacionamento e mobilidade, serviços urbanos e projetos de cidades inteligentes, bem como infraestruturas de entretenimento e lazer.

A abertura destas duas empresas beneficia, também, das recentes medidas implementadas pela Câmara Municipal de Gaia, atualmente presidida por Luís Filipe Menezes. A autarquia decidiu conceder isenção de derrama às empresas que se instalem no concelho durante 2026, desde que criem e mantenham pelo menos cinco empregos ao longo de um ano.

Esta é a terceira vez que a delegação saudita, constituída por 15 membros — que reúne decisores públicos, líderes empresariais e investidores daquele país do Médio Oriente –, se desloca a Portugal, no âmbito do trabalho desenvolvido pelo Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal.

No início de 2025 foram divulgadas notícias do interesse da Arábia Saudita em investir na reconversão dos terrenos da antiga refinaria da Galp em Matosinhos. Na altura, o líder da Câmara do Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa — agora presidente da Câmara de Gaia – disse ao ECO que “só alguém com a capacidade financeira dos empresários árabes é que poderá investir na antiga refinaria de Leça”.

No final do ano, o ministro da Economia apresentou na Arábia Saudita Portugal como “um bom destino” para o investimento saudita No final de uma visita oficial de dois dias ao país do Médio Oriente, Castro Almeida disse que quis mostrar que “Portugal é hoje um país estável”.

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