Renault 4 E-Tech: Pragmatismo francês agora em watts

Luís Leitão,

Sem pretensões e sem alardes. O pequeno SUV da marca francesa reescreve a história de um ícone francês, que entrega tudo o que tem sem ilusões de grandeza nem preços de ficção.

Há momentos em que a Renault nos apresenta algo tão óbvio que nos perguntamos por que ninguém o tinha tentado antes. O Renault 4 E-Tech é exatamente isso: uma chamada de volta ao futuro que vem transformar um ícone da década de 1960 em mobilidade elétrica contemporânea, seguindo o mesmo caminho do Renault 5, mas com um toque pragmático que o distingue da irmã mais mediática.

A escolha é inteligente. Enquanto o Renault 5 conquistou o mundo com um charme quase nostálgico, o 4 chega para entregar algo diferente: um SUV compacto que, ao contrário de tantos elétricos atuais, não pretende parecer extraterrestre. Funciona como um carro para o mundo real e não de conceitos. E isso começa justamente no preço.

A versão de entrada, “Urbana Evolution”, com 120 cavalos, começa nos 29.500 euros, enquanto a unidade ensaiada pelo ECO (topo de gama), a Techno com 150 cavalos, está à venda por 37.250 euros, oferecendo o essencial sem ilusões de grandeza. Isto torna-o um argumento praticamente irrefutável no segmento dos pequenos elétricos, especialmente quando comparado com alternativas que rapidamente disparam para acima dos 35 mil euros.

No dia-a-dia, o 4 comporta-se com uma eficiência desapaixonada. Os 150 cavalos são mais que suficientes para as ruturas de trânsito urbano e o consumo de 15,5 kWh por 100 quilómetros mantém a conta da eletricidade dentro da realidade. E a bateria de 52 kWh entrega cerca de 410 quilómetros em ciclo WLTP, o que significa que em condições reais, com comportamentos de condução normais e temperaturas invernais, consegue rondar os 330-350 quilómetros.

Mas é no espaço interior onde o 4 diferencia-se claramente do 5. Os 2,62 metros de distância entre eixos transformam-se em mais espaço para os passageiros traseiros, ainda que os adultos continuem a viver dias contados nestas cadeiras.

A bagageira de 375 litros é verdadeiramente generosa para a categoria, com um comportamento de carga descomplicado e uma abertura generosa que torna a vida menos complicada. Isto não é fashion, é pragmatismo puro.

O interior segue a filosofia do 5: blocos de materiais diferentes, texturas recicladas (o tecido do estofamento é 100% reciclado), desenho limpo e um ecrã central de 10,1 polegadas com o Google integrado. O sistema de som Arkamys Auditorium não é nenhuma miragem de crítica publicitária, é legitimamente competente. Os controlos de climatização em botões físicos, coisa rara nestes tempos de excessos digitais, mantêm a sanidade do condutor.

O Renault 4 consegue fazer algo que poucos alcançam: ser pragmático, acessível e, ao mesmo tempo, desejável. Não conquista apenas o bolso, seduz a razão.

Há ainda detalhes que revelam intenção: as patilhas atrás do volante para regular quatro níveis de travagem regenerativa, o carregador de smartphone por indução (até na versão Techno), o painel de instrumentos de 10 polegadas, a iluminação ambiente em três zonas. Não são inovações revolucionárias, mas a acumulação destes elementos cria um espaço que não humilha quem paga o dinheiro.

Tecnicamente, o carro é respeitável. Carrega 11 kW em corrente alternada (pouco mais de 7 horas desde zero) e aguenta 100 kW em contínua (30 minutos até 80% de carga). Dispõe de bombas de calor (essencial para o inverno português), travagem regenerativa inteligente e toda uma bateria de assistentes que incluem estacionamento autónomo e manutenção de via, consoante a versão.

No asfalto, a condução não é só confortável e segura, mas também divertida. A suspensão multi-ligação traseira consegue absorver as ruas portuguesas degradadas sem desistir da compostura, o diâmetro de viragem de 10,8 metros torna-o manuseável em parques de estacionamento mínimos, e a direção leve mantém o cansaço num nível aceitável mesmo em jornadas mais longas. Não é um desportivo, mas um companheiro fiável.

Contudo, o Renault 4 não está sozinho neste segmento. Ford Puma Gen-E, MG4, Mini Aceman, e Vauxhall Mokka Electric são alguns dos modelos à espreita. Mas o Renault 4 consegue fazer algo que poucos alcançam: ser pragmático, acessível e, ao mesmo tempo, desejável. Não conquista apenas o bolso, seduz a razão.

Com este modelo, a Renault conseguiu reescrever a história. O Renault 4 original foi o utilitário das avós rurais e dos táxis africanos. O novo 4 é o carro daqueles que entendem que eletricidade pode ser democrática. Sem pretensões, sem teatralidades. Apenas um 4, agora alimentado a eletricidade.

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