2026 nunca mais acaba
A velha avareza rasteira de quem sonha acordado com os seus milhões deixa-nos assim, cada vez mais pobres. Em Portugal até o capitalismo é pobre.
Toda a gente diz, e eu também, que o mundo está perigoso, e que a única certeza é a incerteza. Passar mais um ano nesta neblina cinzenta deixa-me sem sono e com redobrada ansiedade.
O que será feito de nós? Temos futuro? O problema da habitação vai ser resolvido? O SNS aguenta? As empresas vão ganhar escala? Os nossos filhos vão conseguir pagar a conta da eletricidade? O gelado de ovo e pinhão vai voltar? E a “Operação Influencer” irá finalmente avançar? Vão devolver os computadores apreendidos aos arguidos? Vai conhecer-se o mistério dos 75 mil euros? E quem tomará posse a 8 de março?
Perante tamanhas e avassaladoras dúvidas, recorri à astrologia (uma opção muito mais segura do que seria questionar analistas, comentadores das televisões ou mesmo alguns economistas) e pedi a uma aplicação de IA que me ajudasse a perceber o futuro de Portugal (nascido a 5 de outubro de 1143, signo balança).
Eis o resultado.
“Muitos astrólogos usam 5 de outubro de 1143 (Tratado de Zamora) como “carta natal” de Portugal. Com base nisso (Sol em Balança/Libra), aqui vai um retrato de 2026:
- Saturno conjunto a Neptuno a 0° Carneiro (fev 2026), oposto ao Sol em Balança: teste às parcerias e tratados; necessidade de clarificar regras, fronteiras e responsabilidades. Choque entre ideal e real nas políticas públicas.
- Saturno em Carneiro (2026–2028): cobrança por liderança firme e execução. Reestruturação de forças de segurança/defesa e de processos decisórios.
- Neptuno em Carneiro: narrativas mobilizadoras e risco de neblina em temas de identidade/segurança. Pedem-se critérios e comunicação cristalina.
- Urano em Gémeos (a partir de abril 2026): aceleração em transportes, educação, telecomunicações e media. Reformas, inovação digital, mas também disrupções/greves e necessidade de redundâncias.
- Plutão em Aquário (trígonos ao Sol de Balança): modernização profunda, transição tecnológica e energética; reforço de redes, ciência e políticas para o coletivo.
- Júpiter: em Caranguejo até 30/jun (pressão orçamental em habitação, cuidados e proteção civil; quadratura ao Sol pede equilíbrio); depois em Leão (30/jun–jul/2027) favorece imagem internacional, cultura, turismo e “marca Portugal”.
- Eclipses (destaque 12/ago em Leão, visível na Península): foco em liderança, visibilidade e setores criativos; também atenção a clima/calor e eventos de grande público.
Tradução em temas práticos:
- Reforma e clarificação de acordos/quadros regulatórios (UE/NATO, migrações, fronteiras).
- Plano de choque para infraestruturas de transporte e comunicação (ferrovia, aviação, 5G/IA, literacia mediática).
- Gestão de desinformação e transparência governativa.
- Oportunidade de posicionamento internacional via cultura, ciência, desporto e tecnologia.”
Esta “previsão” deixa-me particularmente calmo e suavemente expectante. Saturno em Carneiro é melhor do que Carneiro em Saturno: o José Luís e a sua ponderação fazem-nos falta na Terra. De resto, é quase só boas notícias. Reformas, acordos, posicionamento internacional, aceleração, apesar de riscos de neblina (deve ser o inverno tardio).
A angústia pelo futuro consome-nos o presente. O uso de ansiolíticos tem disparado: cada português ingere, em média, uma caixa de uma benzodiazepina por ano. Será também por isso que somos tão tolerantes à estupidez e à incompetência, à avareza e à falta de visão?
***
Agora mais a sério: 2026 está à porta e não se pode dizer que o mundo tenha mudado para melhor nos últimos 12 meses. O imperialismo russo (aliado a certos ocidentais) está a destruir a Europa e a Europa continua apática, incapaz e ignorante. Em 1938, Neville Chamberlain também fez um acordo com os nazis e afirmou: “Meus bons amigos, pela segunda vez na nossa história, um primeiro-ministro britânico regressou da Alemanha trazendo paz com honra. Acredito que é a paz para o nosso tempo…”. Viu-se.
A paz de Trump é uma armadilha fatal para a Europa e para o Ocidente, mas não sabemos se há alternativa – parece que não.
Todas as fragilidades da chamada construção europeia estão à vista como nunca. A decadência económica, política e demográfica deixa-nos entregues à álea e ao fado, aos EUA e à China. À miséria, portanto.
E como já não vamos a tempo de salvar o mundo, muitos optam por se salvarem a si próprios. O tal egoísmo, falta de visão e mediocridade destroem tudo à volta, como se vê em algumas empresas. A incapacidade de criar dimensão, os obstáculos na sucessão, a falta de preparação e, como sempre, a velha avareza rasteira de quem sonha acordado com os seus milhões deixam-nos assim, cada vez mais pobres. Em Portugal até o capitalismo é pobre.
Venha 2027: se não fosse a ansiedade pelo futuro, o que é que nos manteria vivos?
“When the lights come on at four
At the end of another year?
Give me your arm, old toad;
Help me down Cemetery Road.”
Philip Larkin, Toads Revisited, 1962
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